Bola e Bola Mesmo
27 de março de 2007
O dia em que o Flamengo torceu pelo Vasco
A admiração pelo craque superou a paixão clubística na noite em que todos queriam ver o milésimo gol de Romário.

Que o Brasil é o país do futebol isso não é novidade. Dizer que aqui todo mundo pára tudo o que se está fazendo para ver um reles jogo de Copa do Mundo é o mais comum dos lugares. Uma final de campeonato, seja estadual, nacional ou mundial, pára a cidade, todo mundo sabe disso. Mas antes de qualquer outra coisa, o brasileiro tem adoração é pelo craque. Porque só o craque – e não uma partida, como pensa a crônica esportiva – mobiliza. Só o craque proporciona aquilo que o Brasil inteiro viu no último domingo.

Flamengo contra Vasco, Maracanã com cerca de 40 mil pessoas. O Vasco vence fácil por dois a zero quando, aos 33 minutos do segundo tempo, Romário faz o gol de número 999 em toda a sua carreira. Esguio, pega a bola no fundo das redes e corre para o centro do gramado como que se fosse a equipe dele a precisar desesperadamente de diminuir a diferença ou mesmo empatar e virar o jogo. O Flamengo teve um lateral expulso e jogava com um a menos. Em condições normais, a chamada massa rubro-negra (ou a torcida de qualquer outra equipe na mesma situação) teria rachado fora. No domingo, não. Dos trinta e três aos quarenta e nove, acreditem, a torcida do Flamengo torceu por um gol do adversário. Torceu, sim. No fundo, no fundo, mas torceu.

Romário tivera, até fazer o noningentésimo nonagésimo nono gol, uma atuação das mais discretas, resumida praticamente a uma tentativa de bicicleta mal sucedida. Mas nos últimos 16 minutos de bola rolando, correu atrás como nunca. E junto com ele um Brasil inteiro. Porque todos - eu disse todos - queriam ver o gol mil de Romário naquele clássico no Maracanã. Por isso nem a torcida do Flamengo arredou o pé do estádio. Os jogadores do rubro-negro, depois dos 33, desandaram a correr para todos os lados feito baratas tontas. Queriam facilitar as coisas para Romário, mas precisavam honrar a camisa.

O goleiro Bruno, por exemplo. Estava doido para entregar, e, ao mesmo tempo, precisava evitar o gol que traria a alegria geral da Nação. Tanto que, do nada, nos minutos finais, deu a bola de bandeja para Leandro Amaral. Este tabelou com Romário e o deixou na cara do gol. E aí Bruno, munido de seu reflexo e de uma boa dose de profissionalismo, esticou um indesejável pé que evitou o gol mil. O árbitro da partida. Disse árbitro e já corrijo: o juiz. Ele próprio queria que Romário fizesse o gol mil no domingo. Nos fatídicos últimos dezesseis minutos, ele concedeu, a pedido de Romário, um minuto a mais aos acréscimos. E olha que era a equipe do Vasco que valorizava a posse de bola esperando o final da partida.

Os repórteres que estavam atrás do gol à esquerda das cabines de rádio, o mesmo onde Pelé fez o milésimo, não acreditaram quando Romário perdeu aquele gol cara a cara com Bruno – eles quase derrubaram a placa de propaganda que os mantinham longe das quatro linhas. Queriam que o milésimo saísse ali, na frente deles. Nos bares, nas esquinas e até no shopping (se você está na Barra), todos queriam, repito, ver o milésimo gol de Romário. Um reles aparelho de TV de 20”, prostrado no hall de um shopping, com o propósito de vender canais por assinatura, reuniu uma verdadeira multidão. Isso depois dos trinta e três, claro. Cada qual que se aproximava e via o placar estampando três a zero Vasco no alto da tela, queria saber: - quantos Romário fez? Ao saber que faltava só um para o milésimo, o sujeito estacava em frente à TV. Homens, mulheres, crianças e até forasteiros se aglomeraram e fizeram o típico “uuuuuu” das torcidas quando o chute de esquerda de Romário parou no pé de Bruno.

Disse que o juiz também queria o gol mil de Romário e já recuo. Para mim, ele, o ladrão vocacional, é que impediu o tento mais esperado desde a era Pelé. Explico. O homem de preto deveria, sobretudo depois dos trinta e três minutos, ter arrumado uma falta dentro da área para colocar a bola na marca do cal para Romário bater. Faria, assim, a alegria de gregos, troianos, cruz-maltinos e rubro-negros. Só que no futebol o juiz é uma figura tão funesta que até na hora de garfar o adversário, o faz errado. O Seu Juiz perdeu a chance de entrar para a história.

Pode parecer pouco, mas como já disse na semana passada, não é todo dia que alguém faz mil gols. A façanha pode ser comparada a eventos que demoram muito para acontecer, como a escolha de um novo Papa, a queda de uma ditadura, a eleição de um operário para Presidente, a queda de um Muro de Berlim da vida e assim por diante. Daí a importância histórica do fato, que nossos filhos morrerão sem ver outro igual.

Até a próxima que agora vai sobrar para o Botafogo!!!

em abril 18, 2007 07:17 PM [mARCELO a gOMES]

Ser um bom jogador é saber jogar bola, caso não queria ser jogador então é melhor jogar peteca, para não machucar a perna.



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