Bola e Bola Mesmo
27 de fevereiro de 2007
A hora de Renato
Já está na hora de Renato Gaúcho ser reconhecido como um bom treinador. Embora sem títulos, seus resultados falam por si.

Querer se fazer de advinho, palpiteiro ou algo que o valha é talvez o que há de pior na crônica esportiva. Por mais conhecimento que tenha, entretanto, o profissional do esporte não resiste. Ao invés de simplesmente analisar possibilidades, dados, fatos e chances de cada equipe a cada jornada, o sujeito acaba apostando em resultados da maneira mais simplista possível, se valendo da intuição. Eu, por exemplo. Semana passada apostei que na final da Taça Guanabara estariam América e Vasco. Batata. Deu exatamente o contrário.

Não via a pelada de sábado, que levou o Madureira à final, até por falta de oportunidade, mas vi o clássico de domingo. Um bom jogo, se me permitem os mais ortodoxos, e considerando a fragilidade criativa de ambas as equipes. Disseram por aí que faltou disposição para vencer, de parte a parte, no que eu discordo. Os times são ruins mesmo, e dali não se poderia esperar outra coisa. Vejam, por exemplo, o caso de Obina, autor do gol rubro-negro e cuja contusão está sensibilizando até seus críticos. Primeiro que o tento relâmpago saiu de uma patacoada generalizada da defesa vascaína, traída – vejam vocês – pelo quique da bola, num efeito dominó bizarro. Depois que Obina é tão desengonçado e inepto para a prática do futebol que, no instante seguinte ao chute fatal, não consegui se manter de pé e estourou um dos joelhos. Resultado: fora de combate por seis meses. Melhor para o Flamengo.

Favorito para a Taça Guanabara, vamos e venhamos, o Flamengo até que conseguiu montar uma equipe competitiva. Não tem criatividade no meio campo (Renato não jogou nada), mas tem nos laterais ofensivos a principal arma - acho até que um 3-5-2 cairia bem ali. E Juninho não pode ficar no banco, não, tem que jogar. O Vasco continua ruim como no ano passado. Tem em Morais e Conca dois meias criativos que, no entanto, não entraram em campo domingo. Leandro Amaral, sim, é o cara que tem feito a parte dele, destaque absoluto da Colina.

O que mais chamou a atenção de atentos observadores no clássico acabou sendo o técnico Renato Gaúcho. Não que tenha ele arquitetado uma estratégia infalível, mudado a equipe no vestiário (como gosta de frisar a crônica esportiva), ou algo que o valha. Ocorre que, na hora em que a vaga para a final seria definida com os tiros livres da marca a do pênalti, o grande líder da nau cruzmaltina sentou-se no banco de reservas. Fechou os olhos, levou às mãos ao rosto e se recusou a acompanhar as cobranças. Foi criticado por muitos analistas, e até onde pude acompanhar, só foi compreendido por Armando Nogueira, do alto de seus 80 anos recém completos, que fez um brilhante texto lido por Galvão Bueno (não entendeu uma palavra sequer) no programa “Bem Amigos” da segunda passada. Para Armando, Renato, num mundo onde tudo é mecânico, sucumbiu às fraquezas humanas.

Craque nos campos, como treinador Renato Gaúcho tem sido criticado há tempos. Sempre o acusam de ser amador, ser ainda “meio jogador”, só aceitar trabalhar em equipes do Rio e assim por diante. Eu próprio nunca o vi com bons olhos. Renato estreou como técnico no ocaso de sua carreira como jogador (lembro-me bem) num fatídico Sport 6 x 0 Fluminense, na Ilha do Retiro, em 1996. Na época o tricolor estava prestes a iniciar uma série de rebaixamentos sucessivos, talvez na pior fase de toda a sua centenária história. Esqueçamos esse triste início.

O currículo de Renato, embora recente (ele tem 44 anos) não é dos piores. Em 2002, quando a campeonato era ainda disputado no formato anterior, com quartas de final, semifinais e finais, classificou uma esforçada equipe tricolor em oitavo lugar e à levou até à semifinal, sendo eliminado pelo Corinthians no critério de desempate. Em 2003, foi com o Flu às finais do carioca e perdeu para o Vasco de Antônio Lopes, na partida marcada pele “letra” de Léo Lima. Ano passado, pegou um Vasco ruim, com um dos piores elencos de sua história e o levou à final da Copa do Brasil, derrotando justamente o favorito Fluminense nas semifinais. No finalíssima, caiu ante ao Flamengo. Mais. Colocou a equipe vascaína num honroso sexto lugar, separada da Taça Libertadores por um chute na trave de Leandro Amaral. Mesmo com um time meia boca, Renato é um dos treinadores que há mais tempo permanece no cargo, e isso sem vencer nada.

Disse isso tudo para concluir que Renato Portaluppi tomou aquela atitude pouco elogiosa, no clássico, na hora dos pênaltis, por pura ansiedade. Novo no ramo, trabalhando sério, ele não agüenta mais perder na hora H. Aprendeu, no domingo, todavia, uma nova lição. Não se pode abaixar a cabeça em momento algum. Disse e já corrijo. Aprendeu duas. A outra é que, no futebol, há que se ter muita paciência para se conquistar resultados que projetem o trabalho de um treinador. Calma Renato. Sua hora vai chegar.

Até a próxima, que ingresso no Maracanã virou assalto à mão armada!!!

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