Bola e Bola Mesmo
02 de janeiro de 2007
Milhões de Rondinellis povoam este Brasil
Deus da raça se consagrou com gol de cabeça na final do segundo turno do Campeonato Carioca de 1978 e seu sobrenome virou nome de milhões de brasileiros.

Não sei se o dileto leitor tem um amigo ou mesmo um conhecido chamado Rondinelli. Pois eu tenho um. No meu antigo emprego certa vez recebi a documentação de um tal Rondinelli. Primeiro nome mesmo, na certidão de nascimento. Ao conhecê-lo pessoalmente, o geólogo logo foi se explicando que o pai dele, empolgado com o título do campeonato carioca de 1978, deu-lhe o mesmo nome do zagueiro que fez o gol da vitória sobre o Vasco, nos minutos finais do jogo. Não só por causa disso, mas também por isso, ele, o Rondinelli original, era conhecido como o “Deus da Raça”.

Disso tudo eu mais ou menos já sabia. O Flamengo, então apenas um time a mais, não era campeão desde 1974, e ali começou a arrancada para a chamada “Era Zico”, que assim como Pelé fez com o Santos, tirou o rubro-negro do ostracismo. Jogavam pelo Flamengo aquela altura, além de Zico e Rondinelli, Cláudio Adão, Tita, Paulo César Carpegiani, o goleiro Cantarelli, Toninho, Júnior e outros craques. O Flamengo vencera o primeiro turno da competição no saldo de gols, depois de um sensacional tríplice empate com Fluminense e Botafogo. No tricolor jogava um tal Nunes, que se consagraria na campanha do brasileiro de 1980 e do mundial interclubes do Flamengo em 1981. Na última rodada do segundo turno, Flamengo e Vasco se encontravam. Vitória ou empate do Bacalhau (de Roberto, Guina, Abel, Leão e Paulinho) levaria a decisão para uma final empolgante, e a vitória do Flamengo daria (e deu) o título ao clube da Gávea.

Digo isso não só de memória, mas porque o Sportv tem exibido, nesta intertemporada, novos programas da série “Jogos Para Sempre”, desta vez dedicada aos clássicos entre clubes brasileiros, e não entre seleções em Copas do Mundo, como era inicialmente a proposta. No programa, um craque de cada clube, que participou da partida, comenta os detalhes do jogo, que são exibidos entre os depoimentos. Tive a oportunidade de ver, entre outros, a histórica virada imposta pelo Vasco (4 x 3!) sobre o Palmeiras na final da Copa Mercosul de 2000, em pleno Parque Antarctica; Fluminense 2 x 0 Corinthians, numa das semifinais do Brasileiro de 1984, um dos maiores banhos de bola de que se tem notícia; e este histórico um a zero Flamengo sobre o Vasco em 1978, que fez a torcida rubro-negra crescer mil vezes num único minuto.

Mas comentei esta partida, em especial, não par ficar falando de futebol, mas do se humano. Ou, melhor, do brasileiro. Eis que, diferentemente dos demais programas da série, que terminam com o repórter e o craque saindo de cena, neste Rondinelli em pessoa mostrou para o público um apanhado de cartas que ele recebeu durante todos esses anos (quase 40!), cada qual acompanhada de uma certidão de nascimento comprovando o nome dado a inúmeras crianças, por causa daquele ato tido como heróico. Um gol de cabeça após um escanteio cobrado por Zico (sim, o Galinho!) numa arrancada fulminante do zagueiro, que empurrou a pelota para as redes. Mais. Rondinelli apresentou uma relação de correntistas de um grande banco onde tem um amigo gerente, recheada de Rondinellis, e até de variações de gênero, como Rondinellia. É ou não é de amolecer o mais rígidos dos corações?

Mesmo sem jogo para comentar - muito embora esta coluna nasceu para descrever preferências e generalidades, não de especificidades - não é que de tanto falar esqueci o principal? Pois foi olhando para o número da coluna dessa semana aqui no Word (percebem a organização?) que percebi que Bole é Bola Mesmo já completou o primeiro aniversário, é mole? Já passou de 52. Como na Copa a periodicidade diminuiu, fui conferir lá no site. Data de 17 de outubro de 2005 a estréia. É batata. Parabéns para Bola é Bola Mesmo – e nem vou falar das certeiras previsões da Copa do Mundo, hein?

Até a próxima, que o Marcão tem que virar estátua mesmo!!!

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