Bola e Bola Mesmo
19 de dezembro de 2006
Procura-se Ronaldinho Gaúcho. De preferência vivo
O mundo inteiro quer saber: onde foi parar o ex-melhor do mundo no segundo tempo da final do mundial interclubes?

O velho homem da imprensa esportiva poderia iniciar esse texto falando da final que consagrou o Internacional como campeão do mundo usando o velho clichê da crônica de uma derrota anunciada. Mas não pode, porque quase toda ela – a imprensa esportiva - como que num pacto deslumbrado pelo “joga bonito” à Nike, apontou, de antemão, o Barcelona, aquele que eles chamam de melhor time do mundo, como o grande campeão. Pois deram, e de novo, com os burros n’água.

Não que eu, do lado de cá, não considere o time catalão um grande escrete. Acho, sim. E digo mais. Se disputasse o famigerado campeonato brasileiro, ganharia com um pé nas costas. Aliás, o Barcelona pode se considerar favorito em qualquer competição que dispute no sistema de pontos corridos, que invariavelmente aponta a melhor equipe. Acontece que a formula de disputa do mundial de clubes, tal como acontece há dois anos, resulta numa única partida entre clubes geográfica e tradicionalmente hegemônicos no futebol mundial: América do Sul e Europa. E numa única partida tudo pode acontecer, até o Inter sair vencedor. Eu bem que avisei...

Vi e li cronistas desesperados apontando a dicotomia sorte/azar como razão para o resultado do jogo de domingo, bem como o fato de a equipe do Barcelona não ter jogado bem, e o Inter ter se aproveitado de uma única jogada. Tudo isso pode até ter acontecido, mas o Inter venceu por méritos próprios. Por ter jogado, dentro daquilo a que se propôs, de forma praticamente impecável. Foi o Inter que marcou à relativa distância, deixando os meias do Barça jogarem com liberdade, mas nem tanto; foi o Inter que entrou no gramado com três atacantes, muito embora o jovem Pato ainda tenha que comer muito angu para chegar a ser sombra do que foi Rafael Sóbis; foi o Inter que armou o mortal conta-ataque que resultou no gol da vitória, graças a perícia, velocidade e visão de Iarlei, um jogador mediano, mas que foi, ao meu ver, o melhor da partida – não o preguiçoso Deco.

Falo em preguiça e já sou obrigado a tocar no Barcelona. A equipe de Frank Rijkaard se valeu de uma lentidão digna das maiores peladas do campeonato brasileiro desse ano. Parecia que o esquadrão catalão iria resolver a partida na hora que quisesse, e que jamais levaria um gol. Foi assim até Adriano marcar. Depois, aí sim, partiu pra cima com uma vontade louca de vencer. Tanto que teve suas melhores chances em toda a partida nesses cerca de dez minutos antes do fim - digo isso sem a precisão estatística dos nossos tempos. Foi nesses reles dez minutos que Ronaldinho deixou um fulano na cara do gol e cobrou uma falta tirando tinta do poste direito, e que o lerdo Deco disparou uma bola que tinha o endereço certo, não fosse uma estupenda defesa de mão trocada do irregular Clemer. Se jogasse tudo isso nos outros 80 minutos, possivelmente o Barça sairia vencedor.

Ou não. Porque além dos três atacantes e de Clemer, o Inter tinha ainda uma zaga bem armada, incluindo miolo e proteção, comandada pelo fora-de-série Fabiano Eller, já há tempos o melhor zagueiro do Brasil, e incluo aí os que jogam no exterior. E, honra seja feita, vamos parar por aí que o time de Abel Braga é bem limitado, e o próprio Abelão, que se acha no auge da carreira, nunca foi esse treinador todo, não. Mas está seguindo sua trajetória. Já amarelou e perdeu muitas finais para chegar onde está, e tem lá seus méritos. Mesmo porque vencer o Barcelona de Ronaldinho com esse time do Inter é um mérito e tanto, não é não?

Aliás, o que acontece com Ronaldinho numa hora dessas? Já defini o simpático dentuço como um típico jogador de clube, que fracassa na seleção enquanto arrebenta em seu time. Todo final e semana comprovo isso, só vendo os melhores momentos dos jogos do Barca, e, ao mesmo tempo, os fracassos de Ronaldinho jogando com a amarelinha. Nos últimos tempos tenho observado que o ex-melhor do mundo também gosta de se omitir em momentos cruciais, como em finais, por exemplo. O Barcelona foi campeão espanhol no sistema de pontos corridos, e europeu ao vencer o Arsenal por 2 a 1. Vi esse jogo, e nele Ronaldinho sumiu. Na partida de domingo, ele até que vinha bem. Fez um bom primeiro tempo, só um pouco sonolento, como todo o seu time, diga-se de passagem, mas criava boas jogadas, levando relativo perigo ao gol de Clemer. No segundo ele simplesmente desapareceu do jogo, só foi dar as caras depois de a vaca ter ido para o brejo. Pensem bem. Ser o terceiro da final do mundial, atrás de Deco e Iarlei, e do mundo, atrás de um zagueiro (o excepcional Cannavaro, mas ainda um zagueiro) e de Zidane cabeção, é duro, né? Eu é que não queria estar na pele do terapeuta desse menino.

Por fim, é preciso registrar que aqueles repórteres que acusaram Abel de apelar antecipadamente para a violência, queimaram a língua em dobro. O Inter jogou limpo e ganhou na moral. Moral de campeão mundial.

Até a próxima, que Ronaldinho é o homem invisível!!!

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