
Quem lê assim o início deste texto deve achar que estou aqui de tiração de onda. E aí devo esclarecer que não sou o Zeca Camargo, o rei da milhagem. Ele, sim, tira onda. Eu, não. Nada sou além de um operário do rock, e daqueles dos tempos do trabalho escravo: trabalha-se em qualquer dia, horário ou humor. A diferença é que nessa escravidão entre aspas há o gosto pela coisa. Mais que isso. Um certo comprometimento com algo que parece natural e inequívoco. Estar, de alguma forma, envolvido com o rock, sem deixar escapar a necessidade de, se possível, pagar as contas com ele. Ah, as contas... Como é bom nocauteá-las.
Mas voltemos ao final do ano, que, para esta coluna, é sempre um momento especial. Porque uma coisa eu consegui fazer em 2006. Organizei todas elas em pastas anuais aqui no HD e disponibilizei as 192 (sem contar essa) neste site varonil. Donde se conclui que Rock é Rock Mesmo entrará, a partir do próximo dia 4 de janeiro, em seu quinto ano. Não é lindo isso? O legal da Internet – e aí tenho que dar o braço a torcer – não é apenas o imediatismo, colocar a coisas on line enquanto elas ainda nem aconteceram, como pensam os pascácios. O bom é a eternidade que cada texto adquire. Explico. Do nada, textos antigos são descobertos por este ou aquele leitor que postam comentários como se fossem eles virgens. Ás vezes o leitor nem se dá cota de quando ele foi escrito e até comete gafes, mas faz parte. O sujeito certamente deve ter chegado ali através de uma busca qualquer, e, se bobear, volta sempre. Daí os cerca de 50 cadastrados por mês. Promessa para 2007? Fazer, enfim, o tal informativo periódico do site, né?
Volta e meio cito o leitor de longa data. Confesso que não posso assegurar se ele existe ou não, mas para mim, ele sempre se personificará. Não apenas como recurso textual, mas como personagem mesmo. Idealizo essa figura em carne osso, bermudas e camiseta, com barba por fazer e banho por tomar, porque está sempre ali, do outro lado da tela, lendo tudo que a gente, do lado de cá, escreve. Com semblante por vezes ranzinza, noutras afável, mas sempre com o rock correndo nas veias e exigindo boas sacadas a cada texto, parágrafo, linha, palavra. Um chato, enfim.
Pois o leitor de longa data que me vê dando o braço a torcer no penúltimo parágrafo deve ter frouxos de riso. Isso porque, verdade seja dita, este que hoje se encanta com as benesses da Internet já foi um de seus grandes combatedores. Ou, no mínimo, crítico. Eis, então, a verdade suprema. Sempre desandei a criticar a tudo e a todos. O que, amiúde, pode até me fazer, também, como o leitor de longa data, um reles aborrecedor do humor alheio. Mas, num plano gral, significa que estou no ramo certo. Não o do rock (onde sou quase sócio fundador), mas o da crítica musical, como diria Mário Marques. E não é qualquer globalizaçãozinha que vai me levar à lona, não. Até os leitores de próxima data já sabem disso.
E o rock? E o rock? Perguntam todos. No que eu retruco: essa era para ser uma coluna típica de final de ano, com balanço geral, melhores de 2006 e o escambau. Mas como furar aqueles que me requisitaram as tais listas de fim de ano? Não sou Lúcio Ribeiro nem nada, muito embora vazamento, nos dias de hoje, praticamente virou um eufemismo banal. Mas não quero que aqueles que em mim se afiançam se sintam liquidados. Ao mesmo tempo, se a memória não me falha, a exemplo do que fiz com o Dezperadoz há umas duas semanas, prometi falar da grande revelação do heavy metal em 2006. Não, isso não é uma promessa de fim de ano.
Mas tampouco vai se destrinchar nessa coluna derradeira. Isso porque, honra seja feita, nem mesmo conhecer uma música nova – coisa que nunca pode esperar – é mais importante do que simplesmente não fazer nada e ver mais um ano ir embora, com ou sem balanço. A bem da verdade, duvido que cada qual a sua maneira não se despeça do ano que se vai fazendo um mini resumo de tudo que de bom ou ruim aconteceu, e ainda pedindo, sabe-se lá pra quem, algumas coisas para o ano que entra. Não adianta. São as pessoas e os fatos. E nunca se deve dar as costas para os fatos, mesmo porque pode ser perigoso. E o rock, o rock, meus amigos, queiram ou não, está inserido nos fatos. Ou vice-versa. Envergonha-me aqui proclamar o óbvio, mas eis a verdade inapelável: o rock, com sua vocação para a eternidade, é a vida; e a vida, senão eterna, é, também, e reciprocamente, o próprio rock.
Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!
Eu estou muito feliz por finalmente dizer tudo o que estou sentindo.