Fazendo Historia
03 de dezembro de 2006
Drowned
Novos Caminhos, Mas Com o Peso De Sempre

Publicado na Disconnected número 2, de fevereiro de 2005.

Foi-se o tempo em que o heavy metal nacional era um gênero de umas poucas bandas ou de estilos facilmente identificáveis. A diversidade que se instalou no resto do mundo se reflete por aqui também, e esta é a palavra certa para distinguir bandas criativas como o Drowned. E olha que o termo não aparece para justificar misturas modernas que pudessem afastar o som praticado pelo grupo da essência da música pesada. Ao contrário, é no death metal que a banda mineira fez sua origem, mas a fusão de vários outros subgêneros do metal sempre marcou presença, tanto que, em “By The Grace Of Evil”, o quarto disco da banda, que acaba de ser lançado, é notável um certo flerte com o metal tradicional, com o thrash de raiz, o death melódico, e, se você prestar bastante atenção, com algumas citações sutis aqui e acolá.

E não é de hoje eu isso acontece. Quem ouviu os três primeiros discos da banda, “Bonegrinder” (2001), “Back From Hell” (EP, 2002) e “Butchery Age” (2003), já deve ter percebido tal interessante leque de referências. “A banda não mudou praticamente nada. O que há é uma diferença significativa entre os dois últimos trabalhos de estúdio, que são death metal mais tradicional. O Drowned é mais amplo e talvez seja preciso ouvir todos os nossos discos para ter a idéia do nosso estilo musical por completo”, conta o guitarrista Marcos Amorim à reportagem da Disconnected, numa entrevista via e-mail. O que mudou foi a formação, com a entrada do guitarrista Kerley Ribeiro no lugar de Rafael Porto, que não estava conseguindo acompanhar o ritmo de shows da banda. “A única coisa que o Kerley fez para nos convencer foi tocar bem. Ele não era de banda, não estava no movimento, não era freqüentador dos locais óbvios dos bangers e isso tudo enfatizou que estávamos fazendo a escolha certa”, comemora Amorim. Kerley chegou a compor os solos das músicas “XIII Chapter”, “Hell March” e “Godless Field”, as três primeiras do disco novo, e que foram feitas depois que ele entrou. Completam a banda Fernando Lima (vocal), Rodrigo Nunes (baixo) e Beto Loureiro (bateria).

Como de hábito, “By The Grace Of Evil” foi gravado no estúdio da banda, o Drowned Room Studio, em Nova Lima, cidade da grande Belo Horizonte, e produzido pelos próprios integrantes. E o resultado manteve o padrão já encontrado nos discos anteriores: um som limpo, onde se ouve bem todos os instrumentos e vocal, mas ao mesmo tempo sujo como uma banda de metal como o Drowned deve soar.

“By The Grace Of Evil” mostra certas mudanças já no início. Ao invés daquela faixa matadora que marcou a abertura dos seus antecessores, o disco começa com “XIII Chapter”, de orientação épica e que lembra bastante o thrash oitentista, sobretudo nas partes mais cadenciadas. É bem verdade também que o álbum, como um todo, é bem menos veloz do que aquilo que o Drowned vinha mostrando nos outros discos. “Se eu disser que isso foi totalmente intencional, estarei mentindo, porque nenhum músico tem controle pleno da inspiração, a não ser que abra mão da qualidade para cumprir o combinado. Chegamos a conclusão que não deveríamos fazer um disco tão rápido quanto o ‘Butchery Age’”, conta o guitarrista. Dizer que o disco virou para o lado épico típico do heavy melódico/tradicional também seria um exagero, até porque os vocais rasgados e semiguturais de Fernando estão lá. Mas há toda uma certa "atmosfera épica", como no solo de "Hell March" ou na introdução de "Godless Field". Será que os integrantes do Drowned têm ouvido muito desses estilos nos últimos tempos? “Metal melódico nunca, metal tradicional nós escutamos bastante, então esses traços podem ser fruto disso. Outra coisa que combinamos é que as músicas seriam maiores que as dos discos anteriores, e isso pode ter reforçado esse lado”, admite. Ele mesmo completa: “Há faixas como ‘Poke Your Wounds’ e ‘... Only a Business’ que são mais tradicionais, mas no geral, tentamos algo que passasse mais sentimento aos ouvidos e isso talvez seja mais típico de bandas de heavy tradicional”.

Desnecessário dizer que as guitarras são fundamentais para o Drowned, mas indispensável reconhecer o trabalho que elas desempenham neste disco. Além das incursões épicas já comentadas, são bases e evoluções cativantes que chamam a atenção, em músicas como a consistente “The Son Will Not Return”, que tem um refrão “from hell” e colante ao mesmo tempo, e “No God For Apes”, esta com um riff encaixado com precisão cirúrgica em certas partes. Ao todo, são dez faixas em pouco mais de 40 minutos, o que foge um pouco do padrão fonográfico atual, onde, senão há músicas que preencham algo em torno de uma hora, sempre aparecem faixas bônus. Mas, para o Drowned, “By The Grace Of Evil” tem o tamanho certo do impacto que a banda quer causar. Um disco conciso e que surpreende pela qualidade de gravação e de suas possibilidades, dentro de um universo tão amplo como o do heavy metal, mas às vezes reduzido por falta de visão e criatividade.

O ano de 2005 promete pra o Drowned, e a expectativa é que “By The Grace Of Evil” supere as vendagens de seus antecessores (algo em tono de quatro mil cópias, nada mal), até porque a cada ano mais fãs de metal passam a conhecer a banda, que por sua vez faz turnês cada vez maiores. Em março o grupo parte para mais uma turnê pelo Nordeste, mas está de olho também no eixo Rio-São Paulo e no interior do País. “A ‘By The Tour Of Evil’ será diferente, pois tentaremos não repetir nenhuma cidade no percurso e também teremos um período específico para fazê-la. Começamos em março e até meados de 2005 já teremos terminado, separando um tempo para compor o novo álbum na seqüência”, finaliza Marcos, sem perder o fôlego.

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