
Noutro dia tava vendo o tal DVD do Nirvana, que acaba de se lançado, “Live! Tonight! Sold Out!!”. É uma coletânea de momentos da banda tocando ao vivo pelo mundo, entrecortados por entrevistas com os integrantes. Para os brasileiros o “plus a mais” aparece com a participação da banda no Hollywood Rock de 1993 (talvez a melhor edição da história), onde Kurt Cobain, já transloucado ou simplesmente cheio de drogas nos cornos, cospe nas câmeras da Globo e mostra os documentos, ao vivo. Rock é isso aí. João Gordo, ainda gordo pra cacete, aparece apresentando a banda em São Paulo. Ele foi roadie do Nirvana na passagem pelo Brasil. No resto, como os shows são apresentados em pedaços, ficam as entrevistas, que mostram Cobain realmente de saco cheio. Era óbvio que ele não queria mais estar ali. A cena mais contundente, entretanto, é uma na qual um segurança forte pacas cobre Cobain - que fazia a defesa do direito sagrado de um fã de dar um mosh - de porrada. O show até pára para que os ânimos se acalmem. Mas atenção: isso aqui não é uma resenha.
Falei do vídeo do Nirvana porque Kurt Cobain é um dos nossos últimos heróis. Heróis do rock, digo. Depois dele, nenhum outro ícone surgiu para levantar as massas, e, como sempre digo, inclusive aqui, o rock precisa, e muito, de heróis. A juventude e todos nós precisamos de ídolos, referências. E isso vale ainda mais – muito mais – para o rock, que tem vocação para a vanguarda. Sem heróis, acreditem, não é possível o rock. Por isso reafirmo que ando meio preocupado com a diluição generalizada nos tempos pós Internet. É tanta coisa no menu que a gente não sabe o que comer. Alguém tem que indicar um único o prato, a especialidade da casa, sei lá.
E por que cargas d’água não existem mais heróis no rock? A pergunta mereceria um estudo mais aprofundado. Alguns até, se perguntados, assim, na lata, responderiam que existem ícones do rock de hoje, e apontariam Bono Vox, Billy Joe, do Green Day, Axl Rose, e até Mick Jagger, entre tantos outros nomes. Uns minutinhos a mais e uma reflexão minimamente mais apurada nos faz ver que esses caras são ícones, sim, mas estão aí há um tempão. Falo das bandas mais novas, aquelas que vieram depois da avalanche grunge, que abriu as portas pra todo mundo. Aliás, se Cobain é o último grande herói, o grunge é, também, o último grande movimento musical dentro da música pop. E não me venham falar de Radiohead e do tal “novo rock”, hein?
Pois acho que tudo isso de não termos mais heróis no rock tem a ver com essa coisa toda da Internet e da velocidade da informação. Percebam que a primeira banda a ganhar status de supergrupo (para os dias de hoje) sem passar pelo processo “convencional” da indústria do disco foi o Strokes. Antes mesmo de um único compacto lançado eles já tinham músicas espalhadas pela web e obtiveram, empurrado pela mídia e pelo chamado “culto do novo pelo novo”, uma projeção mundial sem precedentes. Poderiam ficar para sempre ocultos, só colocando música na Rede, e ainda assim seriam os Strokes. Observem que isso foi há mais de cinco anos, quando o primeiro disco deles foi lançado no mesmo final de semana em que a banda tocou no palco principal do Reading Festival. É mole?
Com um início como esses, o Strokes era para ter se tornado uma grande coqueluche mundial, e o vocalista, o filhinho de papai Julian Casablancas, o grande herói do qual o rock não pode prescindir. Mas isso não aconteceu, e a explicação me parece simples. Não se faz banda centro de casa colocando música na web; banda se faz é no palco, tocando todo dia, em tudo o que é buraco, como fazia o Nirvana e Kurt – como bem se vê no tal DVD. Ou, por outra, se faz banda dentro de casa colocando música na web, sim, tanto que os Strokes estão aí. Mas não bandas para arrebanhar multidões em todo o mundo, como o Nirvana, Guns’N’Roses, U2, Stones e congêneres. Por isso o Strokes estava nitidamente incomodado naquela oportunidade, no Reading. Ali não era o lugar para eles. Nos shows no Brasil, no ano passado, a coisa melhorou, mas nota-se que se trata de uma banda que já nasceu limitada, nunca vai ter um público como o do Nirvana. Volto a comparar: é óbvio que os caras nasceram para ser pequenos mesmo.
E, sendo assim, se a primeira e (talvez) a mais representativa das bandas dessa nova era da informação, é desse jeito, seguirão todas o mesmo caminho? Pois está aí o cerne das minhas preocupações. Os esquemas tradicionais de se projetar no mercado fonográfico estão sendo substituídos por outros que podem não ser eficientes a ponto de criar ícones na mesma proporção. Reparam como tudo é tão diluído que a gente mal se dá conta de tudo o que está acontecendo ao redor do Globo. Está tudo ali, no computador, misturado, arrolado aleatoriamente, de modo que não se te idéia da importância de cada um, da relevância, do tamanho e assim por diante.
Se fosse hoje, artistas como os medalhões (há os que prefiram dinossauros) jamais o seriam. Do jeito que está, jamais uma banda que nasça nos nossos dias terá a longevidade e relevância que outros artistas conseguiram atravessando décadas e mais décadas. E isso sem falar na qualidade musical, né? Sim, porque se todo mundo pode gravar uma música em casa e colocar na Rede, é impossível que todo mundo tenha o mínimo de talento para fazer algo, ao menos, um pouco interessante. E aí voltamos àquela tese de que quando há muita coisa disponível e muito espaço para todos, como saber o que é realmente legal? O fato é que o “modelo Nirvana” se mostrou, até agora, muito mais eficaz que o “modelo Strokes”. E sem heróis, repito, não é possível o rock.
Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!
Concordo: não há mais heróis no rock atual. As bandas que surgem tem um quê de efemeridade, um cheiro de armação - ou até não, mas falta a sinceridade de quem já tocou em boteco de esquina pra meia dúzia de ébrios. Nirvana foi foda por causa disso, pela sinceridade e eplo caminho percorrido. Mesmo se surgissem hoje, acho que iriam querer passar pelo que passaram. Strokes? Não, por favor não. Eles e essas 'salvações do rock' que a MTV regurgita soam todas parecidas, já nascem com especiais e programas prontos. Uma pena.
Bom texto. Não conhecida o espaço, e vou voltar mais vezes.
Amplexos!
Tem muita banda pronta pra fazer sucesso, mas a divulgaçao não presta. A sociedade influenciada por outros só ouve musicas da novela das 8 e funk carioca.
Na minha opiniã divia investir + em festivais de rock amador
e até mesmo profissinais como os de antigamente, que tocavam Nrvana, Rush, Iron Maiden, Guns, etc. A imagem do rock está suja por bandas que inventam demais. Tem banda misturando até rock com forró, se é que isto é possível...