
Para quem achava que a banda acabaria em 2000, quando três dos cinco integrantes saíram, taí a resposta. A formação atual, com Edu Falaschi (vocal), Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt (guitarras), Felipe Andreoli (baixo) e Aquiles Priester (bateria) já completa seis anos e parece ter fôlego par superar a anterior, que durou nove e se separou por questões “administrativas”. Nesta entrevista feita por telefone, Kiko falou sobre os detalhes da gravação do novo álbum, das mudanças em relação do disco anterior, dos 15 anos de estrada e do sucesso que a banda volta a fazer mundo afora. E ainda de Coldplay, Lulu Santos, Beatles, Hermeto Pascoal, Maria Rita...
Rock em Geral: Fale sobre o conceito do disco novo:
Kiko Loureiro: As músicas aparecem antes do da letra, sempre foi assim no Angra. Somos mais músicos e menos letristas nessa hora. As idéias aparecem também no meio, mas as músicas já existiam, estavam se formatando, e por causa da sonoridade rolou esse clima um pouco mais denso - isso não é muito racional, eu é que tô tentando racionalizar em cima do que aconteceu. Estávamos com a afinação mais grave, mais focado na banda, e menos convidados, menos tecladeira, orquestras, coisas que tem no outro disco. Apesar de tocar heavy metal, que sempre tem aquelas coisas dos dragões, de castelos da Europa, do Senhor dos Anéis, nós nunca fomos disso nas letras, sempre adotamos uma temática mais contemporânea, de relações humanas, e dessa vez tentamos pegar um enfoque psicológico. Então veio a relação com a própria pessoa, as coisas que passam na mente dela, desde uma coisa mais corriqueira de cidade grande, ansiedade, a questão do tempo, até o máximo dos distúrbios que seria a suicídio, que só o ser humano faz, nenhum outro animal vai contra o instinto. Tem de tudo: esquizofrenia, uma relação mais doentia de amor, mais complicada de pai com filho, de família, as letras ficam nesse assunto. Mas não é um álbum conceitual, não tem uma historinha. Em cima da psicologia o Rafael veio com o livro “Aurora Consurgens”, supostamente escrito por São Tomás de Aquino, mas não aceito pela Igreja Católica. São figuras da época em que ele teve seus devaneios, que descreveriam o inconsciente humano, muito voltado para a alquimia, por isso a Igreja nega que foi o Santo que escreveu. É um livro interessante, tem umas figuras meio agressivas, existem pouquíssimas cópias. O Carl Jung estudou essas simbologias gerais da humanidade no estudo do inconsciente coletivo. E isso tem tudo a ver com a música. Muitas vezes pensamos muito na coisa de onde surge a música. Quantas bandas têm uma música que todo mundo gosta, depois o cara faz outras no mesmo estilo, mas ninguém gosta? Tem alguma chave aí que você entra no inconsciente das pessoas e as pessoas gostam daquela música. Você pode tentar copiar fórmula que não vai dar certo. É um assunto corriqueiro na música, como compositor, descobrir esse segredo. Alguns artistas têm isso na mão. Os Beatles, por exemplo.
RG: O Lulu Santos diz que tem um livrinho que ele comprou na Califórnia no início da carreira que diz como fazer um sucesso. Será que é verdade?
Kiko: Eu acho que tem várias fórmulas... Se você ouvir o Coldplay, as bandas modernas, elas têm as fórmulas: Beatles ali, refrão tem que chegar em um minuto de música, repetir uma frase X vezes pra poder passar a mensagem. Mas o Lulu Santos é um cara que tem esse talento, não é que ele leu o livro. Tenho certeza que se eu ler esse livro não vou conseguir fazer o que ele faz.
RG: O disco é um pouco mais direto, com menos experimentações, menos teclados, como você falou. Vocês queriam fazer algo diferente em relação disco anterior?
Kiko: Tentamos sempre fazer coisas diferentes, porque você faz um disco e depois uma turnê longa. Ficamos quase dois anos em turnê, fizemos 120 shows, tocávamos até o disco inteiro na segunda metade da turnê, então você tá com aquilo muito ali. Quando chega em casa para tocar, há a tendência de querer fazer outra coisa, com os mesmos elementos que estão contigo. Nós utilizamos outras afinações de guitarra, mais pesadas, mais diretas, porque o outro disco não era tão direto, tinha instrumentais quilométricos. E na hora de dar aquela peneirada - porque geralmente fazemos muito mais música do que cabe no disco - tem a tendência de achar algumas coisas que são diferentes do passado, e todos os discos do Angra sempre foram diferentes entre si, com os elementos tentando permanecer. A grande busca de qualquer artista é ser diferente sem perder a identidade. O cara ouve e reconhece que é o Angra, mas vibra porque está diferente. Só que no primeiro impacto, principalmente com o fã, o cara acha estranho. Mas depois gosta, geralmente é assim.
RG: Aquele disco que ele ouviu muito ainda tá muito na cabeça dele...
Kiko: E pra mim o disco já foi gravado há dois, três anos. O cara tá ouvindo em casa, e aí quando ele ouve o novo, que já sou eu dos últimos tempos, ele tem uma demora. E existe, a princípio, uma expectativa de que ele quer continuar aquilo que ele já está ouvindo. Mas depois ele entende e curte, vêm os shows, o cara vê a música ao vivo...
RG: A voz do Edu parece estar um pouco mais grave na maior parte do tempo...
Kiko: Foi uma busca dele também. As guitarras foram afinadas mais grave, e foi uma questão pessoal do Edu. Eu acho legal ele buscar outro som de voz, porque um jeito de mudar muito a cara de uma banda é o vocalista buscar outros timbres. Na guitarra eu busquei outros timbres, afinação, buscamos muita guitarra para substituir teclado. Tem umas guitarras com efeitos que parecem teclados. O Edu sempre pesquisou a voz, buscou outros sons, é natural. E não precisa ficar aquela coisa de mostrar que “eu canto agudo”. Eu posso fazer um solo lento, não preciso ficar toda hora mostrando que estou fazendo um solo super rápido. Ele vai fazer sem querer, porque tá dentro dele colocar uma nota aguda na voz, vai dar um berro. Ele tem várias referências de artistas, assim como tem a do Bruce Dickinson, tem também a do Dio.
RG: Essa questão do vocal agudo cansou um pouco também, né?
Kiko: Se cansa para o público, cansa muito antes pra gente, porque a gente já fez antes, já passou todo um período gravando, ensaiando, fazendo shows quase todo dia.
RG: Vocês tocam muito mais do que o fã ouve...
Kiko: Exatamente, só que sempre tem um cara que acabou de descobrir o heavy metal, então ele tá naquela fase há uns dois anos, e nós há 15. É natural que busquemos outros negócios, e temos uma vontade meio que didática, de mostrar as coisas. O Angra sempre teve essa coisa da percussão, de colocar umas coisas às vezes fora do contexto do heavy metal tradicional.
RG: O amadurecimento tem isso de querer mostrar as coisas para os mais novos...
Kiko: Nós vamos ficando mais didáticos mesmo. Sempre tivemos uma postura meio assim, acho que sempre fomos meio velhos, nunca fomos do tipo “jovem rebelde”. Sempre fomos fãs de Edu Lobo, uma coisa que os caras do metal não vão nem conseguir ouvir. Quanto mais velho, maior a distância, porque quando nós tínhamos vinte e poucos anos, o fã tinha 18, agora temos 34 e o fã tem 15, eles são cada vez mais novos, o que eu acho legal pra caramba. Mas eles já te olham como “tio”, já enxergam isso com uma distância.
A nova formação já completa seis anos, de um total de quinze
RG: E essa questão da referência à música brasileira? Os discos do Angra sempre têm uma música ou outra com uma coisa dessas. É uma espécie de pré-requisito de vocês, toda vez tem que ter?
Kiko: É um negócio natural, não é forçado, não. As músicas aparecem até mais. Eu gravei um CD chamado “Universo Inverso”, que é totalmente jazz brasileiro com rock. Um disco que mostra que existe um estudo, um conhecimento da música brasileira, de outros estilos. No Angra acaba sendo natural que isso apareça, às vezes mais evidente, às vezes menos. Para mim é super claro, até nas músicas porradas tem a coisa do jeito de fazer melodia brasileira.
RG: Isso é mais você que leva ou todo mundo?
Kiko: Todo mundo tem um pouco. Eu tenho bastante mesmo, de fazer música brasileira e jazz direto. O Rafael já tem a coisa da música brasileira um pouco mais pop, da mpb. Eu gosto daqueles caras do instrumental brasileiro, Egberto Gismonti, Hermeto (Pascoal), César Camargo Mariano antigo, Helio Delmiro, gosto dessas coisas instrumentais. O Rafa já curte mais de Chico Buarque, Marisa Monte. A linguagem tá ali, de qualquer forma. O Edu também curte, então quando a gente apresenta uma idéia bem brasileira ela vem com a aceitação, não é só um louco que gosta.
RG: Esse negócio do trabalho solo, na hora em que vocês se reúnem com o Angra, isso contribui de alguma forma?
Kiko: No meu caso foi um disco completamente diferente, eu toquei com um pianista cubano, o baterista que toca com a Maria Rita. É outro mundo, por isso que eu chamei de “Universo Inverso”. Você dá uma respirada, porque se ficar naquele mundo do heavy metal... É legal pra caralho, mas se você acorda de bota... Os caras na Europa são assim, o cara acorda de bota com whisky na mão, e calça de couro, nem tira a roupa pra dormir. Eu não tô mentindo, já fiz muita turnê em tour bus, sei o que tô falando. O cara dorme com a roupa do show, tira a bota pra dormir e põe a bota já de manhã, eles são aquilo. Mas nós, brasileiros, não somos assim, é um pouco diferente. Como músico é bom circular em outros meios, você aprende pra caramba, e volta cheio de gás.
RG: O Angra tá fazendo 15 anos, é uma coisa que há pouco tempo parecia difícil com todas aquelas mudanças na formação. Que avaliação você faz dessa marca?
Kiko: Como dizem os Racionais, a gente desafia as estatísticas. A grande comemoração de fazer 15 anos é a continuidade, ver que vamos fazer shows nas capitais, turnê com o Blind Guardian no Japão em fevereiro, na Europa em março... Já estamos pensando como vai ser o próximo disco. Não vão ser 15 anos, mas 16, 17... Sei lá, mesmo com os altos e baixos, os tropeços, a banda está se dando bem e tudo mais. É difícil tocar heavy metal no Brasil, cantando em inglês. Ter uma banda qualquer já é difícil, fazer heavy metal ainda... Tem que trabalhar pra caramba, e num circuito que não é totalmente profissional, tanto que nós gravamos fora do Brasil. Eu falo com orgulho que a ajudamos a criar um circuito de heavy metal pelo Brasil. Metemos as caras para tocar há 12, 13 anos, no Nordeste, onde não tinha nada. E lá era aquele carinha que tem uma lojinha de CD, faz um show. Até hoje é assim, mas os caras cresceram e tem outras bandas que foram, Torture Squad, Krisiun. O Sepultura não teve muito isso, foi mais lá fora, então era um showzinho de banda local da cidade, aí o Angra ia lá. Quando sai um disco novo do Angra, a gente entra nas paradas, não de sucesso, mas paradas de venda de CD, estamos sempre entre os dez, então dá uma aquecida nessa coisa do heavy metal.
RG: É um momento bom porque o “Temple of Shadows” vendeu muito bem...
Kiko: Todos os discos do Angra venderam bem, para o que a gente é. Vendeu 50 mil no Brasil, agora deve estar em 60, que é um número excepcional para uma banda que faz heavy metal no Brasil, cantando em inglês, um disco de 60 minutos, progressivo. Eu sei de vários artistas grandes que não vendem nem a metade disso, e o cara tá na TV direto. Só que nós fazemos show pra caralho, temos carteirinha de fã clube, que seriam essas carteirinhas de fidelidade. Temos isso desde o começo da banda, é uma coisa que tá no meio do heavy metal desde os anos 80. O cara do heavy metal quer ser parte daquele mundo, não quer fazer parte do mundo em que o cara só conhece uma música ou nem sabe direito que banda é aquela da música na rádio. Os caras sabem de tudo, agora com internet, então, eles trocam mais informação ainda, chega a ser irritante. Eles apontam a nota que o guitarrista errou no show, detalhes da vida particular...
RG: Como o Angra funciona em termos empresariais, o nome do Angra pertence ao Toninho (Antonio Pirani)?
Kiko: O Toninho é o empresário da banda, desde o começo. O pessoal saiu, o André (Matos, vocalista) o Luis (Mariutti, baixista) e o Ricardo (Confessori, baterista), então a banda ficou eu, o Rafael e o Toninho. Entrou os três novos, mas eles não são músicos contratados, são integrantes da banda, é uma sociedade, por assim dizer. O nome “Angra” pertence a nós três.
RG: Perguntei porque o Ricardo e o André acabaram se separando também...
Kiko: Isso é um papo mais complicado... Mas quando o cara não quer tocar junto, não tem contrato, não tem nada, não tem nome... Se os caras não se agüentam mais, não querem tocar mais junto... Não tô falando do Shaaman, mas no geral. O cara liga o foda-se, não agüenta mais conviver com a pessoa e separa. É difícil conviver muitos anos, fazendo música e um monte de coisa em volta. A convivência é grande, quem namora ou é casado sabe do que eu tô falando. Cinco homens juntos, às vezes você convive muito mais com ego, dinheiro, cansaço de show, noite sem dormir, que aí qualquer coisa gera discussão, é difícil. Mas fomos achando os caminhos, os 15 anos de experiência são isso também. Com essa formação já são seis anos, foram nove com a outra. Teve uma queda, mas quem entrou ficou. O Angra é uma banda que consegue até manter esse bom clima interno.
RG: Como foi o show do Loud Park, no Japão?
Kiko: Foi para umas 15 mil pessoas, num ginásio, dois palcos gigantes e mais um palco que eu nem sei o que era. Tocamos como co-headliner, junto com o Anthrax. O Megadeth era a banda principal do dia, saímos com uma matéria de 17 páginas na Burn, que é uma das principais revistas de heavy metal do mundo, dividida em quatro meses. A desse mês fala do festival e tem a carreira individual de cada músico, contando os 15 anos. Estamos super bem, o “Temple of Shadows” foi um disco que ganhou prêmio lá, disco, música, capa. Com isso fizemos a turnê com o Nightwish, que deu uma puta levantada. No festival foi animal, porque além de ser uma galera mais nova de idade pegamos outra de som mais pesado, era um festival mais porrada, com Arch Enemy, Children of Bodom, Slayer, Megadeth, Anthrax, todas mais porrada que o Angra, e a gente ali no meio.
RG: Rolou música nova?
Kiko: Tocamos duas músicas novas, foi bem legal, depois fizemos um show em Taiwan e outro em Hong Kong. O lance nosso é abrir mercado, como fizemos no Brasil, onde fizemos shows sem condições, perdemos dinheiro, mas você tá lá, naquela cidade do interior do não sei lá onde.
Na tradicional foto de encerramento de show, o retrato do sucesso mais que consolidado no Loud Park Festival, no Japão
Presente, fessor!
Mas aí, dá uma conferida na grafia do Jung, "o mesmo" do "Sinchronicity" do Police.
Abraço
Sinceramente este novo álbun, "Aurora Consurgens", ficou do caralho, muito bom mesmo, superou minhas espectativas. Particularmente eu já sabia que iria ficar bom, porque vocês são muitos bons e responsáveis e sabem fazer com que o público interaja. Sou de Escada, Pernambuco, e queria só pedir uma coisinha a vocês, toquem mas aqui em PE, por favor. Não perco um show aqui, vocês são demais. FELIZ METAL atrasado, e que tenham um ano repleto de superações musicais.
Obrigado...
Isso aí que o Kiko falou é verdade, sobre o fato de o Angra tocar no Brasil de ponta a ponta. Isso deveria ser mais valorizado, pois poucas bandas fazem isso. O Angra é uma banda muito perseguida pela mídia musical em geral, mas continua fazendo um som relevante. Mas quem se importa com os "cools" também, né?
Sinceramente, apesar de ser um grande fã do Angra, acho que esse album ficou razoável, forçado, tem músicas boas, mas jamais poderá ser comparado a álbuns da melhor fase do Angra como "Rebirth" e "Temple of Shadows". Espero que a banda não esteja mudando completamente de estilo, pois acho que a melhor sonoridade que a banda já apresentou foi realmente no penúltimo disco, e tomara que se mantenha nesse nível.
El grupo Angra save escojer la buena musica, gracias a todos sus integrantes logran ser un equipo super BACANO,el cual yo muchas personas creemos que nunca va a terminar,pero tambien me gustaria que vinieran a COLOMBIA y compartieran un rato con nosotros y de su buena musica y mostrar de lo mejor de su banda ya que muchos desean escuchar lo BUENA que es la musica de este SUPER GRUPO y graciasa ellos me gusta la buena musica ESPERO EXITOS DE ELLOS EN UN GRAN FUTURO