Bola e Bola Mesmo
03 de novembro de 2006
O time que se recusa a vencer
Apesar do planejamento, de um bom patrocinador, e de ter uma fábrica de craques, equipe do Fluminense não consegue ganhar de ninguém.

Escrevo essa coluna sobre futebol há pouco tempo, mas há tempo o bastante para já ter memórias, ainda mais em se tratando de um esporte que a cada final de semana, de acordo com os resultados da rodada, muda as opiniões da cada vez mais perplexa cônica esportiva. Já posso até dizer, vejam vocês, que tenho a cobertura de uma Copa do Mundo nas costas. Chique, né?

Lembro-me de uma frase cunhada brilhantemente por Luiz Mendes, no ano passado, que se referia ao Fluminense como a equipe que se recusa a perder. Ele dizia isso porque a equipe tricolor fazia, rodada após rodada, resultados impossíveis, virando o placar espetacularmente nos minutos finais. Mendes deu um élan tão grande ao fenômeno, que toda a crônica esportiva se danou a aplicar o termo como uma coisa das mais interessantes. Eu, do meu lado, me queixava era que o Flu de Abel Braga tomava muitos gols, daí a necessidade de recorrer – como se isso fosse planejado – a essas viradas sensacionais.

Pois não é que a equipe que no ano passado se recusava a sair de campo derrotada, nesse momento é aquela que se recusa a vencer? Senão vejamos. O tricolor, quer já foi líder do campeonato brasileiro, apontado como favorito por muitos – inclusive por mim – para levar o caneco, hoje acumula dados indignos de sua trajetória vitoriosa. É a pior equipe do segundo turno, não vence há oito rodadas e, embora muitas vezes jogue até razoavelmente bem, não consegue sequer uma melhora que permita uma seqüência mínima de resultados que, somados, possam lhe afastar do previsível rebaixamento. O Fluminense simplesmente não consegue, de uma ou outra forma, vencer.

Vendo assim, parece que estamos falando de um bando de muquiranas que se aventuram a disputar um campeonato como o brasileiro ao Deus dará. Não meus amigos, estamos diante de uma equipe tradicional dentro do futebol brasileiro, acostumada a vencer, colecionadora de títulos e formadora de craques que se espalharam pelas seleções brasileiras em todas as épocas. Mais ainda. De um clube que, hoje, tem um bom patrocinador, que investiu em bons jogadores, que tem uma categoria de base bem estruturada, de fazer inveja a qualquer grande clube brasileiro, e que, nos últimos anos, está sempre galgando grandes colocações neste mesmo campeonato brasileiro. Que tem, de quebra, a grande revelação do certame, o lateral Marcelo, titular da seleção brasileira desde sempre. Pois é este time que, num mar de mediocridade e equilíbrio que é o brasileirão, vejam vocês, está ameaçado pelo rebaixamento.

É um mistério! Exclamaria o mais tradicional dos tricolores. É falta de uma boa administração, diriam outros. São todos uns mercenários, gritaria a torcida, imediatista que só ela. É o imponderável, diria o velho homem da imprensa. Só que ninguém consegue achar o ponto. Ou os pontos, como dz Milton Leite, que acredita que uma equipe só chega a este estágio por uma somatória de fatores agregados. Até o vizinho Balípodo já discorreu sobre o tema, recentemente, enfatizando problemas de gestão na direção tricolor. Será? O fato é que a pergunta que ronda os botequins aqui no Rio é essa: por que cargas d’água o Fluminense não consegue vencer?

O tricolor de carteirinha, que já viu seu time ser rebaixado em 1996, 1997 e em 1998, já vê fantasmas. Como explicar, por exemplo, aquele gol que o time levou do Grêmio há uma semana? A bola vem quicando no campo do tricolor, há um solitário atacante, dois zagueiros (mais altos) e o goleiro. Não é que os três praticamente trombam entre si, e sai o gol de cabeça do adversário, aos 47 e tal do segundo tempo, decretando a derrota da equipe que mais buscava a vitória? No fim de semana anterior, contra o Juventude, a equipe tricolor foi melhor o tempo todo, perdeu gols a rodo (com direito a pisadas na bola, literalmente, de Lenny e Tuta) e sofreu o empate num desvio num cruzamento daqueles “vamos jogar na área para ver o que dá”. E ontem, aos 47 (de novo) Pedrinho recebe livre, em condição legal, e o bandeirinha dá impedimento de Tuta. Os teóricos dirão que o time é que é ruim mesmo, mas é evidente que, assim como há a “sorte de campeão”, o Flu encara o “azar de rebaixado”.

Bem, nem tanto assim. Porque se tem uma coisa que esse time + diretoria + torcida + jogadores + tudo vem tentando é entrar na famigerada zona de rebaixamento, e não consegue de jeito nenhum. Por mais que venha perdendo uma jogo após o outro, sempre tem um outro time, ou até mais de um, que perde mais, que não consegue suplantar a ruindade tricolor. Podemos ter isso como uma espécie de sorte, sim, por que não? O que é duro é ver equipes sem tradição como Paraná e Atlético Paranaense, e outras muito ruins como Vasco e Santos na parte de cima da tabela. Mas acalmem-se que a entrada do Flu na zona de rebaixamento não deve passar e domingo. Anotem aí.

Falando em Atlético e em Vasco, os dois times protagonizaram ontem uma espetáculo digno das piores peladas do aterro do Flamengo, resultando num placar vexatório de 6 a 4 para aquele que, certamente, correu mais. Curioso é perceber a crônica esportiva, muitas vezes sem nem mesmo ter visto o jogo, de cara já valorizar o placar, como se futebol fosse só marcar um bom punhado de gols e pronto. Não li, por exemplo, nenhuma análise que justificasse a vitória de um ou a derrota de outro. Alguém sabe que jogou melhor? Alguém jogou melhor? Alguém jogou bola? Fala sério.

Até a próxima, que as defesas não existem mais!!!

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