Bola e Bola Mesmo
28 de novembro de 2006
O técnico campeão não gosta de craques
O time sem craques, o rebaixamento lindo, os pontos corridos e o golaço.

Tenho sido sistematicamente acusado por aí de pegar no pé da equipe do São Paulo, justamente aquela que se sagrou campeã brasileira desse ano, e com duas rodadas de antecipação. Os que torcem pelo chamado “tricolor paulista” não se conformam. Os que pouco entendem de futebol ficam encafifados: como pode um campeão ser tão ruim assim? E a crônica especializada vai no “vai da valsa”: faz a apologia do vencedor e condena a “estrutura” dos que foram mal ou até rebaixados.

Mas vejam os amigos se eu não tenho lá um pouco de razão. Abro o Globo on line e vejo estampada a criativa pesquisa que deseja saber do leitor “quem foi o destaque do São Paulo na conquista do título”. A resposta? Nem me dignei a checar, desisti só pelas opções: Aloísio, Mineiro, Muricy Ramalho, Rogério Ceni e Souza. Sim, um Serginho de segunda categoria, um cabeça de área (dos bons, por sinal), o técnico (eu disse o técnico!), um goleiro que faz mais gols que agarra e uma espécie de coringa órfão de posição. Dá pra acreditar nisso?

Pois eu digo que dá, sim. Ainda mais depois de ouvir/ver, ao acaso, trechos da entrevista coletiva que Muricy Ramalho concedeu após a partida das faixas, contra o Cruzeiro. Evidentemente, pelo caráter do jogo, após o campeonato decidido e a taça entregue, nada se falou sobre futebol em si, mas sobre estrutura, planejamento, futuro, dispensas e reforços. (Já disse que o que ganhou esse certame não foi futebol, mas detalhes sutis que não entram em campo). Foi sobre reforços que Muricy soltou a pérola: ”eu não gosto de craques”.

Considerando o time esquálido do São Paulo de hoje (que nos tempos de Telê tinha muitos craques, e nem por isso deixava de ganhar) eu não deveria me admirar com tal declaração. Mas considerando que Muricy Ramalho, além de craque no passado, é um treinador vencedor e que desponta como a grande opção para a nossa seleção, sem trazer com ele as bravatas de Luxemburgo e Leão, me assustei com a postura do técnico campeão. A primeira conclusão é que, se eventualmente chamado para dirigir a seleção (ele que acha, junto comigo, que Dunga é inexperiente), ficará perdidinho no meio de tantos craques. Sim, meus amigos, o técnico campeão não gosta de craques.

Como previ aqui na semana passada, aconteceu o melhor no rebaixamento. Times ralés foram colocados para fora da divisão de elite – que não voltem nunca mais. Entretanto, outros dois intrusos subiram: Náutico e América de Natal. Que ambos caiam logo e abram espaço para o retorno de clubes que façam jus à primeira divisão. De quebra, finalmente nos livramos daqueles times encardidos do interior de São Paulo e seus campos de várzea, que só colaboravam para a prática do futebol de peladas – este sim. Enfim o estado de São Paulo tem o que representa seu tamanho no contexto do futebol brasileiro: três times da capital (não cabe mais lá) e um do interior, graças à era Pelé. Ou seja, aos poucos, com vinte clubes, os pontos corridos vão ajustando as coisas. E cada coisa no seu lugar, né?

Falando em pontos corridos, final de temporada sempre traz à tona a discussão sobre o sistema de disputa, se este ou aquele. Os pontos corridos evidentemente privilegiam as equipes que praticam o melhor futebol, a regularidade, aquilo que, no futebol, costuma se chamar de “justiça” – como se ela existisse no esporte bretão. Mas não o entretenimento. Por isso mesmo os caras que tomam conta da televisão (e da grana da televisão, que banca grande parte dos lucros dos clubes) querem a decisão, o drama, como se fosse o futebol, digamos, “uma novela”. Por exemplo, nesse final de temporada. Depois de passar o ano todo dando de ombros para as séries B e C, agora, nas rodadas finais, que definiram quem sobe e quem cai, os clubes envolvidos ganharam as manchetes como se disputassem as antigas e lucrativas finais. Só não teve o choro da arquibancada porque nenhum clube grande caiu, e time pequeno não dá sequer Ibope. Que mané futebol, os caras querem é drama.

Mas falava de craques e quase esqueço de citar o assunto do final de semana. O gol de Ronaldinho. Foi bonito, sim. Foi hábil, sim. Mas não foi essa coca-cola toda, não. Primeiro, porque ele matou errado. Segundo, porque se virou para o lado errado e deu o que antigamente se chamava de “puxeta”, não uma bicicleta. Sua virtude está justamente aí. Ao se enrolar com a bola, encontra as soluções mais improváveis.Tão improváveis que surpreende a todos: adversários, torcida, crônica... Quer dizer, isso no Barcelona, porque em Copa do Mundo o cara some. Fora dela, ainda na seleção, só mesmo o Dunga pra deixá-lo no banco. Fala sério...

Até a próxima que o Flamengo não sabe mais fazer gol!!!

em dezembro 7, 2006 10:13 AM [Diego Matias]

"Puxeta", kkkk. Bom, um pouco exagerado dizer que ele matou errado, virou errado... A verdade é que ele é bom pra cacete.
Agora, quanto ao Flamengo (meu Flamengo), esse já não sabe fazer muita coisa já faz tempo.



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