Rock é Rock Mesmo
30 de novembro de 2006
Crueza do Moptop tem tudo para atropelar a sofisticação do Gram
Se qualquer paralelo entre duas bandas, por mais estapafúrdio que seja, sempre há de ser procedente, aquele feito entre discos de fases diferentes não é conclusivo. Mas vejamos o que Moptop e Gram têm em comum.

Meus amigos, eu não prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Tenho, até por profissão, que ter uma opinião formada sobre tudo. Não posso deixar nada passar em branco, ainda mais no mundo da música, ainda mais se o assunto é rock. Vejam agora, no final do ano, por exemplo. Todo mundo quer saber os melhores isso, os melhores aquilo outro. É assim mesmo. E é preciso ter a resposta, a opinião formada sobre tudo.

Antes, porém, devo dizer-lhes que tenho o hábito de cumprir com aquilo que prometo. Ok, não vamos entrar, ainda, no âmbito das intermináveis promessas de final de ano, a um mês de 2007, um ano que, como anda dizendo meu ex-patrão, promete. Falo de colunas passadas, ou, mais precisamente, daquela publicada na última semana, na qual queria falar de um assunto, mas me engalfinhei tanto por outros – também interessantes, diga-se de passagem – que só me restou deixar para esta aquilo que realmente deveria falar. Pois vamos ao que interessa, sem maiores delongas, como diria o apresentador do programa de rádio de Chico City.

Tudo começou depois que li a coluna de Mário Marques, publicada no site da Laboratório Pop, onde ele simplificava a relação entre o lançamento de duas das novas bandas do novo rock Brasil em poucas palavras. Para MM, o segundo disco do Gram, “Seu Minuto, Meu Segundo” representava a sofisticação, a busca pelo apuro na gravação, enquanto que o auto-intitulado “Moptop”, primeiro do grupo carioca, era exemplo de crueza, de como o rock pode ser simples e blá blá blá. Fãs de rock, ou melhor, de determinadas bandas, em geral não gostam que críticos façam comparações com suas bandas preferidas. Mas eu, que estou sempre lá e cá, como crítico e fã, gosto. E achei sui generis o paralelo elaborado pelo nobre colega, cuja única motivação deve ter sido o fato de ambos terem chegado ao esmo tempo na mesa dele. Como entrevistei as duas bandas recentemente, vamos lá.

Acho que conheci o Gram antes e ter contato com o Moptop, mesmo sendo do Rio. O primeiro disco deles chegou às minhas mãos em 2003, quando fui um dos jurados do Prêmio London Burning. Aproveitei para resenhar o CD da banda pra a Dynamite, revista que eu editava na época, e nessa resenha escrevi mais ou menos o que vou dizer agora. Que a banda buscava uma sonoridade inglesa, mesmo cantando em português; que se parecia com Radiohead/Coldplay; que a produção era bem simples; e que os vocais eram ruins, com timbre de gosto questionável. Se alguém entrar lá no site da Dynamite e procurar entre os lançamentos é capaz de encontrar a íntegra desse texto.

Sérgio Filho, o dono da tal voz, não gostou muito do que leu e entrou em contato comigo. Não para se queixar, mas para saber mais sobre uma crítica, que, segundo ele, havia sido a única de tom negativo que a banda recebera até então. Isso é o de menos. O fato é que o Gram agradou muita gente, foi contratado pela Deckdisc, teve esse disco fraquinho relançado e rodou o País fazendo shows a torto e a direito. Dali saiu um disco ao vivo / DVD da série “MTV Apresenta” e a projeção nacional se completou. De tanto tocar, a banda evoluiu um bocado, e teve, enfim, nesse ano, a chance de gravar um disco a altura da expectativa de seus integrantes, sobretudo Sérgio Filho, sempre cuidadoso com arranjos e acabamentos em cada uma das faixas.

O Moptop chegou às minhas mãos quase que da mesma forma, eu como jurado do mesmo Prêmio London Burning, só que desta vez em 2004. E com uma diferença crucial. O CD demo que recebi era praticamente um álbum prontinho para ser lançado, sem tirar nem por. Chegasse ele embalado numa caixinha de acrílico, com encarte e a chancela de qualquer gravadora, major ou indie, e eu acreditaria piamente no lançamento. Era o disco de estréia perfeita de uma banda idem. Tanto que até hoje digo que as duas grandes revelações do rock nacional em 2005, para mim, foram Moptop – por esse disco excepcional – e Luxúria, graças à arrebatadora performance no Porão do Rock de 2005 e à capacidade de compor músicas extremamente pop – mas isso é papo para uma outra coluna.

Dali em diante o Moptop só cresceu, venceu prêmios e foi cobiçado por várias gravadoras, independentes e majors. Quase assinou com a Sony-BMG e acabou contratado pela Universal, por onde saiu o tal álbum de estréia. O desafio, ao tentar refazer todo o material da tal demo prontinha, era como refazer aquilo, o que tirar e o que por. Gabriel Marques, em entrevista publicada neste site, disse que eles e Chico Neves (que encarou o trabalho mais moleza de sua carreira) decidiram só aproveitar a experiência que a banda adquiriu tocando entre a tal demo o CD. Tanto que o disco é cru, sim, como o rock (sobretudo o novo rock, com o qual o grupo se identifica) deve ser.

Sérgio Filho disse a este escriba, primeiro para uma matéria para a Bizz e depois em entrevista publicada neste site, que a gravação de “Seu Minuto, Meu Segundo” foi a realização de um sonho, de poder, finalmente, gravar um disco com grande cuidado, com, enfim, a tal da sofisticação hoje reconhecida por todo mundo. Tanto que a matéria da Bizz, feita antes mesmo de o disco ficar pronto, foi intitulada “Simplesmente Um Luxo”. Ou seja, enquanto um – o Gram – primou pela sofisticação, o outro – o Moptop – quis a simplicidade de um caminho já testado e aprovado por todo mundo, inclusive os próprios músicos.

Se qualquer paralelo entre duas bandas, por mais estapafúrdio que seja, sempre há de ser procedente, aquele feito entre discos de fases diferentes não é conclusivo. Digo isso fechando o foco nessas duas bandas porque o Gram está em um estágio que o Moptop, embora já muito melhor, ainda não chegou. O Gram está no segundo disco, tem uma gravadora que investiu e deu a banda uma certa projeção nacional, usando os mecanismos da MTV, e que, honra seja feita, melhorou sensivelmente em todos esses anos. De cópia de Coldplay + Los Hermanos, o grupo está ganhando uma cara própria, como desejam os integrantes, e como contou aqui Sérgio Filho, na tal entrevista. Mesmo porque o Coldplay virou U2 e os Hermanos... Bem, deixa pra lá.

Já o Moptop é talvez a melhor das bandas nacionais que se identifica, ainda que tardiamente, com o chamado “novo rock”, para o bem ou para o mal. Mas que ainda precisa comer muito angu pra mostrar que conquistou espaço no mercado, mesmo porque, ao que parece, a Universal (vejam vocês) parece estar investindo menos que a Deckdisc. Qualitativamente, o Moptop é de longe melhor que o Gram, mesmo depois de todas as evoluções que estão aí em cima, mas comparar as duas bandas nesses estágios diferente da carreira de cada uma não me parece razoável. Talvez se fizéssemos isso no futuro, com o segundo disco do Moptop e este segundo do Gram. Num exercício de acertar o futuro eu boto todas as minhas fichas no Moptop. Eles devem crescer muito mais que o Gram, num espaço de tempo maior.

Ao finalizar essa coluna soube que o leitores da coluna do chapa Lúcio Ribeiro elegeram o Moptop como melhor disco de 2006. Fato a ser comemorado, se considerarmos que Lúcio quase não fala de bandas nacionais e enche o saco só dando moral para vocês sabem quem. Ponto para o Moptop. Mais um.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em dezembro 11, 2006 08:06 PM [Tiago]

O Gram evoluiu de uma cópia de Los Hermanos com Coldplay... E o Moptop é uma mistura do Los Hermanos com The Strokes... Sinceramente, com uma influência dessas não sei como algo pode ser bom... Ouvi o Moptop e ele está longe de ser bom. O "novo rock"
não me convence, e os anos 70 nunca foram tão maravilhosos....



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