No Mundo do Rock
04 de novembro de 2006
Com boa estrutura, Gram faz o disco que sempre sonhou e tenta se livrar de referências óbvias
Segundo disco da banda paulistana envereda por novos caminhos se fazendo valer de uma sofisticação estética até então inédita. Fotos: Rui Mendes / Divulgação Deckdisc.

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O Gram é a melodia, pessoas que gostam de melodia vão encontrar isso no Gram

O Gram está podendo. Numa época em que as grandes gravadoras estão mais perdidas do que cego em tiroteio, o grupo paulistano se dá o luxo de gravar um álbum com tranqüilidade, sem as cobranças habituais para agradar ao mercado, e com toda a estrutura de um bom estúdio à sua disposição. Foi assim que nasceu “Seu Minuto, Meu Segundo”, o segundo álbum, lançado há pouco pela Deckdisc. Daquela banda que lançou o disco de estréia em 2003, com produção acanhada, o Gram parece outro. Não é nada, não é nada, foram muitos shows pelo Brasil afora, sobretudo depois da projeção consolidada com o álbum/vídeo da série MTV Apresenta, lançado no ano passado. Algo que faz uma banda mudar.

Mas nem tanto assim. Aquele que ouvir de primeira “Seu Minuto, Meu Segundo” evidentemente vai notar uma produção que faz distinguir melhor os instrumentos e arranjos, mas também identificará o bom e velho Gram, com as semelhanças ao Coldplay e a todo o indie rock britânico, os climas por vezes soturnos e as letras que podem revelar muito ou pouco, dependendo de quem ouve e em que circunstância ouve cada música. Até a voz de Sérgio Filho, ponto fraco no álbum de estréia, sofreu um up grade, e não só em termos de gravação; o palco fez bem ao vocalista e principal compositor da banda. Completam a formação Fernando Falvo (bateria), Luiz Ribalta e Marco Loschiavo (guitarras) e Marcello Pagotto (baixo).

Foi com Sérgio que conversamos, assim que o disco foi para as lojas. Ele disse que o grupo colecionou muitas composições nesse tempo todo, e que procurou evitar aquelas com referências óbvias que levassem a comparações com bandas contemporâneas como Los Hermanos e Coldplay. Ainda entregou detalhes da gravação, do vídeo que vem com o CD (um dualdisc, na verdade, com um videoclipe para cada música), falou do novo rock, comentou algumas das músicas de ”Seu Minuto, Meu Segundo” e... Vejam vocês mesmos:

Rock em Geral: Como você vê hoje o disco pronto, já que, dessa vez, vocês tiveram mais tempo e puderam preparar tudo com mais calma?

Sérgio Filho: A diferença de um processo para o outro ficou claro. O primeiro disco foi feito super rápido, teve a mesma mixagem para todas as músicas, com a mesa aberta. Não dava tempo, o técnico deu só uma mexidinha nos volumes das guitarras. Nesse o Rafa (Rafael Ramos, produtor) fez três mixagens diferentes até ficar legal, do jeito que a gente queria. Além disso tem o lance do tempo de gravação, nós ensaiamos, fizemos uma pré-gravação, tocamos mais vezes as músicas. O outro a gente fez em três meses e gravamos em uma semana, sem pré, sem nada.

RG: O segundo disco é mais sofisticado que o primeiro?

Sérgio: Depende em que sentido. O pente fino foi usado, eu tive mais tempo para rever algumas coisas. O primeiro eu me arrependo, às vezes, de algumas coisas. Sabe aquela sensação de ter abandonado? Se eu pudesse, teria refeito isso, refeito aquilo, eu tenho mais essa sensação com o primeiro. Esse tem só uma coisa ou outra que eu queria ter refeito, mas pensava assim: “Beleza, manda ver, eu não quero mais mexer nisso”. Tentei até mexer num arranjo, para ver se eu arrumava, mas era super tranqüilo de passar. É que eu queria que aparecesse mais um lance de orquestra que rolou no “Tem Cor”, mas como tava fazendo quase a mesma coisa que a guitarra, não tava aparecendo muito. Aí não dava tempo mais de mexer, ia atrasar o lançamento. Só isso, então eu tenho essa sensação mais do primeiro. “Moonshine”, por exemplo, eu teria cantado de novo.

RG: Nesse segundo disco o uso de teclados é um diferencial também...

Sérgio: Quando fizemos a demo eu tinha sugerido alguns e a gente queria colocar em mais músicas, só que não ia dar tempo, porque a gravação já ia começar. Aí a mostramos para o (Sérgio) Sofiatti, que era o cara que tava trabalhando como técnico de som, e ele falou que iria sugerir outros. Deixamos na mão dele, enquanto estávamos no Rio, ele tava fazendo em São Paulo. Ele colocou em três músicas, mandou pra gente, achamos muito foda e colocamos. É uma coisa que nós também queríamos fazer, colocar alguém de fora, além do Rafa, que produziu, um cara para trabalhar junto, com sintetizadores, que era uma coisa dos timbres. Não tínhamos conhecimento de quais timbres usar. Havia as idéias, mas não sabíamos o que usar, e ele sugeriu exatamente o que estávamos pensando, ficou bem bacana.

RG: Tem muitas partes de guitarra legais, às vezes até na parte cantada da música tem um solo no meio. “Parte de Mim” tem isso...

Sérgio: Essa música nós fizemos três dias antes da gravação, foi a última. Queríamos fazer uma música mais dançante, mais para cima, aí fiquei tentando, e ela só saiu uns três dias antes da gravação. Fizemos super correndo, até o final dela o Rafa modificou uma parte de bateria que ele achou que estava exagerada, tinha muitas viradas. Quando não é o Marco (Loschiavo, guitarra) quem traz o riff, quando é a música de outra pessoa, como ele não sabe música, as teorias, notas, escalas, nós tocamos várias vezes para ele fazer as frases no estúdio. Ou então é totalmente freestyle, a hora em que ele acha que tem que tocar ele toca, não é aquela coisa pensada do tipo “vou preencher um espaço entre a melodia e o breque”. Ele vai fazendo, e às vezes acaba atropelando a voz, e quando é bem atropelado dá para deixar.

RG: Você disse que tinha umas vinte músicas prontas para esse disco, como chegaram ao repertório final?

Sérgio: Tinha até mais. Tem algumas músicas que lembravam qualquer outra coisa, e nós fomos deixando de lado, principalmente aquelas que lembravam Los Hermanos. Tivemos essa preocupação de não parecer com alguma coisa, porque é o segundo disco, tínhamos que mostrar a nossa cara. Então o que foi selecionado foi o que a gente achou que tinha mais a cara do Gram. As influências são evidentes, “Você Tem”, por exemplo, é Beatles na caruda, mas Beatles influenciou todo mundo, então tem um desconto. Mas a gente tentou o máximo verificar isso. Se tinha um entrada de piano que lembrasse Coldplay, aí já guardávamos para outro disco. Ou então, se tivesse uma coisa num ritmo meio abrasileirado, lembrando Los Hermanos, já tirava. Mas elas estão guardadas, até gravamos, no total foram 16 na demo e 14 com o Rafa. Tem umas outras que guardamos mesmo, nem mostramos para ele. Se um dia já tivermos um nome e podermos mostrar coisas abrasileiradas, a gente lança. Mas nesse tentamos ser mais rock mesmo, mais Gram.

RG: Qual é a cara do Gram, afinal?

Sérgio: Eu acho que o Gram é a melodia, pessoas que gostam de melodia vão encontrar isso no Gram. Melodia com a letra viajando junto com a melodia. Se vai para uma parte de acordes menores, a letra vai junto e deixa um pouco mais triste. Mas principalmente a melodia, acho que o Gram é isso. Independente se for reggae, eletrônico, samba, rap... Sempre é melodia. Eu digo melodia não de voz, mas de todos os instrumentos, parece até que nunca ninguém tá tocando a mesma coisa, tá cada um para um lado.

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Se tinha um entrada de piano que lembrasse Coldplay, aí já guardávamos para outro disco. Ou então, se tivesse uma coisa num ritmo meio abrasileirado, lembrando Los Hermanos, já tirávamos

RG: No release fala que é mais fácil gravar um disco sem cobrança de vendagens, mas tem a cobrança de vocês mesmos...

Sérgio: Depois do “MTV Apresenta”, que foi uma coisa que de certa forma aumentou muito o nosso público, não tem mais. Sentimos isso porque o telefone começou a tocar mais, mas ao mesmo tempo foi uma frustração porque achávamos que depois daquilo conseguiríamos levar aquele show, com cenários, projeções, iluminação, mas ficou tudo tão caro que ninguém queria pagar. Lógico. Mas ao menos tentamos, então rolou uma frustração, porque deu trabalho para fazer. E essa frustração fez com que nós ficássemos mais tranqüilos, ninguém tá esperando nada, nem da gravadora, de quem a gente não vai cobrar nada. Se quiserem botar na rádio, põem, se não quiserem não vamos ficar pedindo. Queremos tocar, e isso tem acontecido, o número de shows tem aumentado. Essa coisa parte do Rafa também, ele nunca falou pra gente algo do tipo “vocês precisam vender”, “tem uma meta para pagar a gravação”, nunca teve esse tipo de cobrança. Eu falei para ele uma vez, “você quer que eu faça algo mais acessível, quer que eu tente?”. E ele, “nunca, pelo contrário quero que vocês façam exatamente o que estão a fim”.

RG: Você disse que “Vivo de Novo” é uma das sua preferidas...

Sérgio: Não é mais... Eu gosto dela, mas é porque tem uma história engraçada, nós tínhamos feito essa música e depois jogado fora. Achamos muito lenta, não ia ficar legal, muito triste. Essa música é antiga pra caramba, acho que eu fiz quando minha namorada terminou comigo, eu nem lembro. Mas tinha jogado esse som fora, e num dia eu achei, tava gravado em algum lugar e gostei de ouvir. Aí eu mostrei para eles, eles também gostaram e ela voltou para o repertório. Achamos que o Rafa fosse limar essa música, e ele achou que era uma das mais bonitas, aí convenceu a gente de vez.

RG: Qual é a preferida agora, se essa já não é mais?

Sérgio: Eu gosto de “O Rei do Sol”, a primeira, gosto de ouvir. “Tem Cor”, essas duas eu acho... “Melhor Assim” é a melhor, é a que tá mais bem arranjada. “Seu Minuto, Meu Segundo”, que é a última, eu gosto dela, mas como foi uma música que deu muito trabalho para chegar nesse resultado, talvez eu tenha enjoado. Mexemos muito, ela era só piano, depois tentamos fazê-la rock, teve uma idéia de brincar ela com os anos 80, com New Order, aquelas coisas assim e fomos chegando nesse resultado.

RG: “Me Trai Comigo” tem a ver com essa coisa de anos 80 também...

Sérgio: Esse pedaço (cantarola) é bem anos 80...

RG: Como você vê esse novo rock que tem um pé nos aos 80?

Sérgio: Conheço pouco, conheço os hits desses caras. Eu sempre vou pela melodia, sabe? Se a melodia não me agrada eu não ligo muito se é anos 80, se é isso ou aquilo. O Franz Ferdinand tem uma melodia no disco novo que eu achei bem parecida com “A Day In The Life”, do “Sergeant Peppers” (cantarola “Walk Away” e compara). Eu falei: “olha, acho que já sei de onde ele tirou isso”. Mas eu gosto do primeiro disco, o segundo não me chamou tanto a atenção. O The Killers eu acho mais legal, não sei por que. Gostei mais deles que do Franz Ferdinand.

RG: Mas você acha que “Me Trai Comigo” tem a ver com isso, de pegar os anos 80...

Sérgio: Acho que não, ela é a única que eu não fiz a melodia, o Riba (Luiz Ribalta, guitarrista) fez a melodia, eu só fiz a letra. Ele ouve muita coisa, deve ter cheiro de Pixies, que é forte na banda. Uma das músicas que eu mais gosto no mundo é “Where Is My Mind”, eu adoro o jeito que ele (Black Francis) encaixa a melodia, é muito cabeçudo, não dá pra entender como ele faz aquilo, acho muito interessante o jeito que ele divide a métrica, o cara é foda...

RG: O disco tem umas coisas mais dramáticas em termos de letras e de música também, e as duas coisas funcionando junto. Isso é por causa dos arranjos mais apurados, ou é uma coisa de momento, de arranjo e de composição da banda?

Sérgio: Eu sempre tento encaixar, como eu faço a letra depois, com tudo pronto. Quando tá arranjado, já estamos seguros, daí eu faço a letra. E aí já sei mais ou menos para onde me guiar, porque no “embromation” eu já tenho mais ou menos para onde vai a vogal, que é o mais importante nisso. E as ligações entre as vogais, por exemplo, os “s”, os “n”, os “r”, essas letras de ligação, o gerúndio, por exemplo, dá uma ligação bacana do que você citar a palavra no meio. Aí eu já tenho para onde me guiar. A dramaticidade eu já sei onde tem um acorde menor, onde precisa ser mais triste, eu posso falar sobre uma coisa introspectiva. Dá uma guiada, mas o tema é decidido muito em cima da hora. Dessa vez eu não falei só sobre coisas que eu tava vivendo, eu começava a ler e tentava escrever sobre aquilo que eu tava lendo. Eu tentei ser um pouco mais otimista, mas eu não consigo, você é a terceira pessoa que fala que o disco é meio deprê. “Tem Cor”, por exemplo, apesar de ela ter uma coisa dramática, é uma mensagem otimista. “O Rei do Sol” também, é uma tentativa de “Revolution”, de fazer com que as pessoas pensem sobre nossas lideranças, tem a ver com esse momento, mas não de uma forma descarada.

RG: Nada é claro nas suas letras...

Sérgio: Eu gosto, uma vez eu estava ouvindo uma entrevista de um poeta, não lembro o nome, um cara consagrado, e ele tava falando isso das poesias, que ele faz poesia e não escreve livros românticos. Ele prefere que as pessoas tentem fazer uma viajem ou uma projeção, ou entendam o que quiserem das poesias dele. Geralmente ele tenta ser mais lúdico, não dá as pistas. Isso marcou muito.

RG: Tem muita música antiga nesse repertório, de que forma o tempo mudou essas músicas, vendo agora o disco pronto?

Sérgio: “Antes do Fim”, por exemplo, é a mais antiga desse disco, e não mudou nada, é exatamente igual. “Tem Cor” mudou bastante, era só piano, voz e orquestra, e botamos banda. Elas foram mudando naturalmente, na medida em que fomos tocando mais, mostrando para algumas pessoas, vendo a reação ao vivo. Não tem muita diferença em relação à maneira como elas nasceram, mas sempre sentindo o caminho que a gente achava mais interessante, sem opiniões do tipo “vocês têm que mudar essa música”, mas no sentir a música mesmo.

RG: E essa história do dualdisc, foi só uma oportunidade ou é legal ter um clipe para cada música, junto com o disco?

Sérgio: Vem a chance a gente pega. O Rafa falava: “olha, vocês são uma banda que dá pra fazer isso, eu quero registrar esse momento”. Mas não é nada com muita pretensão, eu gostei do resultado, no fim das contas. Pra gente foi gostoso, e quando eles falaram sobre dualdisc eu falei: “puta merda, isso aí vai custar mais caro, já tá foda de vender”. Mas quando eu vi editado, disse: “minha família vai adorar ver isso aí”, eu também gostei pra caramba, acho que é legal registrar. Pra quem gosta da banda é muito bacana.

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Dessa vez eu não falei só sobre coisas que eu tava vivendo, eu começava a ler e tentava escrever sobre aquilo que eu tava lendo. Eu tentei ser um pouco mais otimista, mas eu não consigo

em novembro 6, 2006 02:22 PM [Marcus Marçal]

Achei interessante o que li na entrevista, deu até vontade de conferir o disco novo. Aproveitando a deixa, queria uma dica. Certa vez, li numa entrevista o Sérgio falando de um protetor de ouvido que não é do tipo "tampão de ouvido" e queria saber se ele poderia me passar essa informação. Geralmente uso tampão de orelha e isso é uma merda porque você não escuta porra nenhuma do que está fazendo. E se preferisse não usar, com certeza eu ficaria surdo, o que não me apetece de modo algum. Se alguém tiver essa informação ou alguma dica similar, agradeço pela ajuda. Tô "precisado". Abraço



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