Bola e Bola Mesmo
21 de novembro de 2006
A maravilhosa zona de rebaixamento
Definido o título para o São Paulo, ao que tudo indica quatro pequenos voltarão para o lugar de onde nunca deveriam ter saído.

Bem, do campeão falei semana passada, e como previ, a crônica esportiva enalteceu talvez o pior time entre os campeões em todos os tempos. É que os caras têm que vender jornal, ganhar Ibope, e a torcida do São Paulo, segundo Rogério Ceni, não pára de crescer. Eu, não. Escrevo neste site de graça, a hospedagem é gratuita e não tenho que vender nada, não. Falo e pronto. Mas não vou ficar falando do que já falei; se o campeonato acabou para o São Paulo, pior, ops, melhor pra ele, que é o campeão.

Disse que a crônica enalteceu o campeão entre os piores, mas devo fazer uma exceção honrosa a Fernando Calazans, que, em sua coluna n’O Globo, soube dar os méritos o time de Muricy Ramalho sem deixar de escancarar todas as suas fraquezas, concluindo o óbvio: o São Paulo está muito longe de ter um grande time. De outro lado, a decepção. Juca Kfouri, na ESPN Brasil, começou a enumerar os jogadores do fraco São Paulo, todos eles, um por um, para integrar a seleção do Campeonato Brasileiro. Falei de decepção e já corrijo, uma vez que o combativo jornalista Juca Kfouri nunca entendeu de bola rolando mesmo.

Disse, na semana passada, que me envergonha o elogio ao medíocre. Agora, então, que tento me ocupar com aqueles que fazem de tudo para fugir do rebaixamento, coro-me até com certo constrangimento. Mas ali, meus amigos, a briga é dura. Duríssima. Mesmo porque o regulamento do campeonato foi escandalosamente alterado para permitir o retorno de times grandes à séria A por atacado, no que, aliás, eu concordo - todos sabem que sou contra o rebaixamento de clubes grandes. Só que, com a queda de quatro, periga se trocar seis por meia dúzia, ou seja, subirem tantos grandes quanto caem. Quatro é demais, não é não?

A zona de rebaixamento como está, para mim, é uma coisa linda de se ver. Santa Cruz e Fortaleza já rebaixados à segunda divisão (que não voltem nunca mais), São Caetano quase lá, e a briosa Ponte Preta fazendo de tudo para não deixar Fluminense e Palmeiras caírem. Por mim, o campeonato acabaria hoje mesmo, por decreto, e para o bem do futebol brasileiro que ainda resta nesse campeonato ruim de dar dó. Regozijo-me ao ver times pequenos sendo colocados em seus lugares. Sobretudo o São Caetano, que chegou à primeira divisão a custa de uma virada de mesa, inicialmente imposta para beneficiar clubes grandes. Tchau, azulão.

Mas dizia como é difícil a disputa ali embaixo. Porque as equipes que ali estão têm uma dificuldade enorme de marcar pontos – não digo nem de vencer. Por isso, quando o Fluminense empata com um Corinthians montado de última hora, mesmo assim o resultado é considerado bom, porque os concorrentes diretos nem esse pontinho conseguem. Santa Cruz, São Caetano, Ponte Preta e Palmeiras perderam, e Fortaleza e Juventude só ganharam porque jogaram, respectivamente, com a Ponte e como Verdão. Esses times, em sua grande maioria, se arrastarão até a última rodada ganhando um pontinho aqui e outro acolá. Ou alguém apostaria que unzinho só deles consegue vencer os dois jogos que faltam?

Estão dizendo por aí que a grande decepção, a vergonha, o vexame do campeonato é o Fluminense, que, diga-se de passagem, jamais freqüentou a zona de rebaixamento – para cair, basta estar lá na última rodada, lembre-se. A decepção é grande por vários fatores. Primeiro que um clube de primeira linha como o Tricolor sempre decepcionará a todos se não estiver disputando título, lá na parte de cima da tabela. Mesmo que tenha a pior das equipes, o lugar do Fluminense é no topo, jamais na rabeira. E, depois, porque o clube das Laranjeiras, embora tenha se perdido como troca-troca de treinadores, montou, sim, uma grande equipe, um bom elenco, apontado por todos como favorito ao campeonato.

Mas a grande decepção cantada pela crônica esportiva advém dela própria. Entra ano e sai ano, comentaristas, articulistas e afins apontam seus favoritos ao título, vaga na Libertadores, rebaixamento e o escambau. Em geral erram pra dedéu, e aí colocam a culpa nas equipes, que não corresponderam, não às expectativas delas próprias, mas às deles - cronistas - que chutam, chutam e nunca acertam. Da mesma forma que os tais matemáticos, que nessa época do ano surgem aos borbotões como profetas do apocalipse, nunca são cobrados quando os resultados efetivamente acontecem. Tudo isso porque, é obvio, há no futebol o imponderável.

Mas, porém, entretanto, contudo, todavia, eu próprio considero o desempenho da equipe tricolor uma decepção, e acrescento que não há nenhum time tão melhor ou tão pior que o Fluminense no campeonato, e que as diferenças que levam um São Paulo meia boca ao título são sutis e estão, infelizmente, fora do gramado, como já disse aqui certa vez. Acho, de todo modo, que a queda vai ser a mais linda de todas, com quatro pequenos sendo repostos a seus devidos lugares. Talvez nem choro e drama tenha para a TV faturar uma chamadinha. Que assim seja.

Até a próxima que a justiça será feita!!!

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