
Tudo muda de figura, entretanto, quando a persona emblemática de David Coverdale surge no palco para iniciar o show com nada menos que “Burn”, um clássico espetacular do hard rock que marcou sua estréia no Deep Purple, então no auge, em 1974. Muda porque Coverdale é o carisma em pessoa, e porque construiu uma carreira de fases diversas, mas que caracterizou um estilo único. Poucas bandas em toda a história da música pop fizeram tantas baladas e com tantos “love” sapecados aqui e acolá. Com a maestria de Coverdale, provavelmente nenhuma, e aí é preciso não confundir balada, que começa lenta e se transforma numa música super pesada, cheia de riffs, com qualquer música lenta por aí. O show foi gravado no lendário Hammersmith, em Londres, cidade natal da banda, mesmo lugar onde o álbum/vídeo “Live In The Heart Of The City” foi registrado, em 1983, momento “mágico” lembrado em “Ain’t No Love In The Heart Of The City”, com uma emoção generalizada na platéia. A música nem faz parte do repertório oficial do Whitesnake, mas renasceu com roupagem surpreendente.
A formação oportuna – quase a mesma que esteve no Brasil em setembro do ano passado, se sai muito bem. É possível lembrar do solo de Tommy Aldridge, no meio da ótima “Cryin’In The Rain”, que chega bater nos tambores com as mãos, mas Rudy Sarzo, por exemplo, foi substituído pelo também talentoso Marco Mendoza, no baixo. Os guitarristas Reb Beach e Doug Aldrich (que esteve aqui recentemente com o Dio) mandam muito bem, mas o repertório é que não dá margem a falhas. Difícil, aliás, falar em repertório em se tratando de uma banda com tanto tempo de estrada e que ocupou as primeiros lugares das paradas em muitas fases distintas. Mas é clara a satisfação do público em “Love Ain’t No Stranger”, “Give Me All Your Love Tonight”, cantada em uníssono, a excelente “Fool For Your Lovin’” e “Here I Go Again”. Coverdale ostenta em si próprio o resultado de várias plásticas e as marcas do tempo, mas dosa bem a privilegiada voz – diferentemente do último show do Rio no ano passado – e consegue uma performance bem interessante, a despeito da participação do público, se considerarmos tudo isso.
O DVD traz um mini documentário com cenas e entrevistas dos bastidores onde os músicos se mostram lisonjeados e (mais novos) com sorte de poder fazer parte de uma banda histórica como o Whitesnake. De Coverdale, o grande astro, descobre-se que há dez anos recebe uma massagem especial, antes dos shows, de uma loirinha com idade para ser sua filha. E ainda há o CD, só que com seis músicas a menos. Tudo muito bem embalado, com encartes de contornos históricos. Imperdível.