Bola e Bola Mesmo
24 de outubro de 2006
Não há futebol no futebol do campeonato brasileiro
Para explicar o sucesso das equipes, analistas têm que recorrer a argumentos extracampo.

Oito jogos, sete pontos e duas vitórias de vantagem. É isso que pensam sobre o São Paulo os comentaristas de resultado. Será o bastante para garantir o título? Eis a questão que passa pela cabeça de todos eles. Fosse o Grêmio o vencedor do clássico de domingo e diriam que haveria ainda uma esperança. Mas o problema não é o São Paulo, que mal ou bem está fazendo, a duras penas, a parte dele. O problema está nos times que se recusam a vencer. Tanto que, lá na rabeira da tabela, embora a briga seja dura, três times, e dos que não deviam nem passar na porta da primeira divisão, já reservaram a passagem para a segundona.

Não dá pra exigir da equipe gremista, no entanto, um desempenho melhor que esse. O clube acabou de chegar da segunda divisão e tem uma equipe mediana. Ao que parece, está onde está por uma questão mais organizacional e de tradição do que futebolística. Essa, aliás, tem sido a marca desse campeonato. Os times são tão ruins e o nível é tão baixo, que só se explica o melhor posicionamento de determinadas equipes sobre outras usando argumentos, digamos, não futebolísticos. Lemos todos os dias justificativas que apontam a organização, o planejamento, a estrutura, a permanência do treinador, a sorte, o impoderável e o escambau - nunca o futebol propriamente dito.

O Flamengo, por exemplo. Simplesmente ignorou a campeonato e foi faturar uma merreca lá no México, na última quarta. Para o domingo, no jogo valendo três pontos contra o Paraná, utilizou, segundo consta, só dois titulares – como se a horrorosa equipe da Gávea pudesse se dar a esse luxo. E não é que, jogando no campo do adversário, um time que está na quinta colocação, como dizem, brigando por vaga na Libertadores, foi lá e venceu com um clássico placar de dois a zero? O resultado surpreende não pelo Paraná, que é time pequeno, sem tradição e fraco, mas pela vitória do, repito, horroroso time do Flamengo. Que comentarista, que nada, só o imponderável pode explicar essa.

Disse que a equipe do Flamengo, seja ela qual for, é horrorosa, e reafirmo: é muito ruim mesmo. Só que, na tabela de classificação, está em nono lugar, o que faz o dublê de técnico e cantor de rock dos anos 80 Ney Franco já pensar em chegar entre os cinco primeiros, como li hoje em algum canto. Por um lado ele está certo, o lugar do Flamengo tem que ser lá em cima mesmo. De outro, não tem noção de como sua equipe é limitada. Um terceiro olhar, e este eu endosso, conclui que, se nesse campeonato todo mundo é japonês, até esse time de peladas do Flamengo (que comemora chutão pro alto) pode sonhar.

E se o assunto descambou para as peladas, duas delas aconteceram nesse final de semana, e, lógico, envolvendo times que jamais poderiam estar na primeira divisão, e que vão, certamente, voltar para onde nunca deveriam ter saído. No sábado, o Goiás fez cinco a três no raquítico Santa Cruz, e no domingo o Atlético Paranaense ficou brincando de vira-vira com o Fortaleza. Os mais antigos, dos tempos em que os placares eram rotineiramente dilatados, vêem nisso uma boa coisa, mas se esquecem que os gols só saem por causa do desespero dessas equipes, que descambam para a falta de organização tática e atuam como um bando em desespero. Chuva de gols só é bom para o editor dos gols do Fantástico.

Até a próxima, que o São Paulo é campeão!!!!

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