Fazendo Historia
13 de outubro de 2006
Música na cabeça
Terapia musical ajuda no tratamento psiquiátrico e pacientes montam grupo que já grava segundo disco e toca ao lado de artistas consagrados. Publicado na Revista Outracoisa número 15, de julho de 2006.

Você pode até achar que “Quem canta os males espanta” é só um velho ditado usado para estimular a cantoria. Mas no Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro a música tem sido elemento primordial no tratamento dos pacientes. Grande parte deles chega lá com problemas relacionados a transtornos psicóticos, como esquizofrenia e transtorno bipolar – doença em que a pessoa tem grandes variações de humor. O órgão estadual não tinha muito prestígio, era considerado mais um abrigo para sem-teto do que um local de tratamento. Isso até meados do ano 2000, quando o psicólogo e musicoterapeuta Sidnei Dantas resolveu implantar uma atividade chamada Convivendo Com a Música. A idéia da musicoterapia é usar a música para fazer as pessoas com dificuldade de expressão e isolamento se expressarem. Através da vibração da música, elas se soltam mais e se expressam sem ter a necessidade da compreensão verbal.

Em princípio, era para ser só mais uma atividade entre tantas que já aconteciam por lá envolvendo culinária, marcenaria ou pintura. Ninguém esperava que a coisa fosse chegar tão longe, a ponto de sair dali o grupo musical Harmonia Enlouquece, que iria gravar discos e se apresentar ao lado de medalhões da música brasileira, em lugares consagrados como o Canecão e o Teatro Municipal.

O CPRJ não é o que se costuma chamar de manicômio. Lá, os pacientes são tratados em grande parte num regime chamado de Hospital Dia. “É um centro de convivência, o paciente vem, fica durante o dia, participa de oficinas terapêuticas e atividades lúdicas e vai para a casa”, conta o vice-diretor, Francisco Sayão, médico psiquiatra há 26 anos, que toca violão, e, como outros colegas de trabalho, integra o Harmonia Enlouquece. Ele também participa das atividades, mais para as pessoas experimentarem as sensações musicais do que para que elas toquem dessa ou daquela maneira.

Foi de forma inesperada que surgiu a primeira música, “Será que dá”. “Um dos pacientes levantou uma dúvida: se eles arrumassem um emprego, como fariam, por causa da irregularidade da doença”, lembra Sayão. “O Sidnei deu a idéia de fazer uma música a partir desse tema, que foi a primeira do grupo, feita pelo Hamilton e pelo Alfredo, a partir de um mosaico de frases”, conclui.

Foi a primeira vez que eles – médicos e pacientes – perceberam a possibilidade de ir adiante, compondo novas músicas, a maioria fazendo uma certa crônica do dia-a-dia do hospital. É o caso de “Sufoco da vida”, já considerado um hit no CPRJ e nos shows do Harmonia. A letra brinca: “Estou vivendo no mundo do hospital / Tomando remédio de psiquiatria mental / Haldol, Diazepam, Rohypnol, Prometazina... / Meu médico não sabe como me tornar um cara normal”.

Epidemia do bem

O Hamilton citado pelo doutor é Hamilton de Jesus Assunção, que chegou no CPRJ com um foco de esquizofrenia paranóica. Mas isso praticamente faz parte do passado. Hoje, Hamilton é o principal compositor do Harmonia Enlouquece, assinando todas as faixas do primeiro disco e ainda a arte da capa. Gostar de música ele já gostava há tempos, e cita gêneros como rock e reggae, além de artistas como Roberto Carlos e Taiguara como referência. Mas o “resto” foi tudo achado nas sessões com o Dr. Sidnei. “Ele pegava o pessoal para fazer trabalho de musicoterapia, para melhorar o estímulo da pessoa. Ele e o vice-diretor tocaram violão, cada um falava uma palavra e escrevia no quadro. Começamos a juntar as palavras e montamos uma música”, conta Hamilton, esmiuçando o que se costuma chamar, no jargão do jornalismo musical, de processo de composição. A banda foi se juntando com formação mista de pacientes e funcionários. Para o nome, ele tem uma explicação, simples: “É porque o bairro é o bairro da Harmonia (junto à Gamboa, centro do Rio), e Harmonia Enlouquece é porque é dentro do hospital psiquiátrico, loucura... Mas só que é harmonia com loucura, então é uma loucura harmônica, não bota ninguém pra baixo”.

O primeiro show aconteceu em 2001, durante as comemorações do Dia da Saúde, que naquele ano tinha como tema a saúde mental. Eles só tocaram as duas músicas que tinham, mas a aceitação foi tão boa que a partir dali passaram a ser convidados para apresentações em tudo que é canto, ajeitaram um lugar próprio para os ensaios, fora da atividade Convivendo Com a Música (que por sua vez passou a admitir outros pacientes), e acabaram chegando à gravação do disco. “Um amigo da secretária da direção gostou do grupo e conseguiu um estúdio. Só pagávamos o técnico de som, que fez um preço especial”, conta Francisco Sayão.

O disco tem produção quase artesanal e prensagem doméstica, mas atende à demanda nos shows e eventos relacionados à saúde. Só que o Dr. Francisco tem um olhar mais amplo: “A dificuldade do paciente psicótico é estabelecer uma identidade, que não seja a de uma pessoa inútil. Conseguimos formar um grupo no qual as pessoas têm orgulho de estar ali e de serem o que são”, acredita. Segundo ele, o índice de re-internação entre os integrantes do Harmonia diminuiu. “Quem está no grupo desde o princípio dificilmente se internou nesse percurso. Quase todos estão no Hospital Dia”, comemora. Hamilton concorda. Para ele, que foi quem mais se destacou no projeto, a música é uma espécie de “epidemia do bem”. “Não só eu melhorei, mas toda uma instituição. E em todos os locais em que chamam a gente, todos se sentem bem, é uma força global, porque quando há o silêncio, há respeito; mas quando há música, há também uma contemplação emocional“, acredita.

E se o projeto desenvolvido pelo CPRJ tinha como objetivo principal fazer a integração dos pacientes com a sociedade, o que dizer de alguém que virou músico, compositor e, no palco do Canecão, tocou com artistas do naipe de Paralamas do Sucesso, Maria Bethânia e Cidade Negra? Foi o que aconteceu dentro do projeto Loucos Por Música, organizado pela Casa das Palmeiras, no ano passado, no qual Luiz Melodia e Sandra de Sá convidaram Hamilton para dividir o palco. “Achei o grupo maravilhoso, tive contato com eles e acho que com mais experiência de trabalho na música certamente poderão ser profissionais”, aposta Sandra, que conhece projetos desse tipo há muito tempo: “Vejo exemplos destes em eventos beneficentes, além dos estágios que fiz na época em que estudava psicologia”. O público já vai aos shows com a idéia do aplauso, pela iniciativa em si, mas, durante o espetáculo, acaba também reconhecendo o talento musical. É a tal epidemia do bem de que o Hamilton falava.

Terapia acima da música

Outros artistas, se não dividiram o palco com o Harmonia, já foram até ao CPRJ, em eventos que têm o objetivo de promover troca de experiências e integração entre os músicos. Foi o caso de João Barone, o nervoso baterista dos Paralamas do Sucesso. Convidado por uma amiga terapeuta, ele esteve com os músicos do Harmonia. “Havia este cara (N.R.: Hamilton) que cantava e escrevia letras muito interessantes”, conta Barone. “Afinal, o que é ser louco ou normal nos dias de hoje? A loucura esteve sempre associada ao impulso artístico em vários momentos da História, assim como a genialidade. Muitos gênios reconhecidos foram tachados de loucos”, lembra o baterista, que com Herbert Vianna, companheiro no Paralamas, vive processo semelhante: “O caso do Herbert é um exemplo especialmente incrível de como a música pode reerguer uma pessoa, ainda mais ao voltar de uma experiência tão extrema.”

O talento musical que surgiu dentro de um centro psiquiátrico é também fruto do trabalho dos profissionais que optaram por métodos não convencionais, em vez de só recorrerem aos remédios citados em “Sufoco da vida”. Um trabalho de muita paciência que vem, sim, da formação profissional, mas que depende certamente de uma iniciativa pessoal. “A intenção dos médicos é ver um mundo melhor para as pessoas. Eles às vezes saem do plantão, cansados, e vêm, é aquela coisa de amor pelo negócio”, reconhece Hamilton. O próximo passo, além da gravação de mais discos (já há material para isso), shows e adesão de novos pacientes, é arrecadar fundos para outros projetos do CPRJ, como a sonhada casa que sirva de “lar transitório”, já que muitos pacientes têm situação complicada com a família e carecem de moradia.

O projeto de musicoterapia do CPRJ já cumpriu – e vem cumprindo com novos pacientes – o seu papel. Mas será que no mercado musical há espaço para a banda, ou mesmo para os músicos, separadamente? Hamilton, que é apontado como o grande destaque, admite que já pensou nisso. “Eu penso numa carreira musical, só não sou ambicioso. Tem que ser devagar. Gostaria de ir assim, não mergulhando tão fundo”, diz, ao mesmo tempo em que valoriza não o mercado musical, mas o efeito da música em sua vida: “O que me interessa mesmo é a parte emocional, o bem que a música me faz emocionalmente...”, conclui. É a loucura que harmoniza.

No Recife, banda leva rock para dentro do hospital

A relação entre música, loucura e tratamento vem de longe e sempre foi intensificada quando o assunto é rock. São clássicas as histórias como a da mordida de Ozzy Osbourne num morcego vivo. Ou ainda a da milionária terapia encomendada pelos integrantes do Metallica para que eles finalizassem o último disco, “St. Anger” (santa raiva). Já o The Cramps, grupo de psychobilly que fez sucesso nos anos 80, gravou um vídeo inteirinho tocando para os internos do Hospital Psiquiátrico de Napa, na Califórnia. É a mesma coisa que o grupo The Playboys faz no Recife, desde 2002.

“Havia uma carência mútua: ao mesmo tempo em que na cidade não tinha lugar para tocar, os internos do Hospital Ulisses Pernambucano (N.R.: Conhecido como Tamarineira) precisavam de interação com o público”, explica Zé Guiga Ramone, tecladista. João Neto, o vocalista, teve a idéia a partir do convívio com um parente psiquiátrico. Desde 2005, a Secretaria de Saúde passou a dar uma ajuda de custo, e assim nasceu o Rock na Tamarineira, um evento com três dias de duração.

O The Playboys já tem dez anos de estrada, flerta com tendências que vão do punk ao rockabilly, e gosta de usar instrumentos de brinquedo. Isso ajudou no contato com os internos. “A interação com a banda foi total, pegaram os nossos instrumentos de brinquedo, cantaram, pularam, recitaram poesias e sempre alguns internos fazem uma jam cantando músicas próprias ou do Roberto Carlos”, vibra Zé Guiga, que considera o público da Tamarineira o “melhor e mais espontâneo para qual já tocou”. Também já apresentaram lá Rádio de Outono, Le Bustier En Decadence e Roberto Carlos cover, a pedidos dos internos.

O sucesso do festival foi tanto que o público externo aderiu ao projeto, mesmo porque não é cobrado ingresso. “A intenção é quebrar o preconceito contra o paciente psiquiátrico. Tem gente que nunca tinha entrado num hospício antes porque ficava com medo”, revela o tecladista. Além disso, o Centro de Atividades Terapêuticas do Hospital já organizava a Banda Voou, entre os internos, que ficou pronta e vai participar da próxima edição. Zé Guiga acredita que o evento serve para “quebrar a rotina dos internos, levar alegria, diversão e interação, além da mudança da concepção do público externo sobre a loucura, que é o maior benefício”. O próximo Rock na Tamarineira acontece em março, e os músicos já estão correndo atrás da edição 2007, que pretende trazer bandas de fora do estado.

em outubro 15, 2006 04:01 PM [van]

Rapaz, eu amo o rock, quero saber de todas as informaçoes, é muito bom escutar músicas! E saber das notícias esse site é muito bala velho!



em março 31, 2007 06:46 PM [RENE GOMES DA SILVA]

PARA MIM É UMA FELICIDADE SABER DO SUCESSO DA BANDA, E QUE O HAMILTON É TIDO COMO UM ÍCONE. SOU AFILHADO DA MÃE DELE, E ME CONSIDERO ASSIM, UM IRMÃO PRIMO! CONVIVEMOS DESDE A INFÂNCIA E TEMOS MUITAS HISTÓRIAS PRA CONTAR, LEMBRO O FINAL DE ANO EM QUE ELE COMENTOU SOBRE O 1o CD, FIQUEI SATISFEITÃO E DESEJEI SUCESSO PLENO PRA ELE E A BANDA. VIVEMOS O MUNDO DA MUSICA HÁ MUITO TEMPO, TERMINEI UM CURSO DE LOCUÇÃO E JORNALISMO EM DEZEMBRO DE 2006, E VIVO A MÚSICA INTENSAMENTE. SOU ECLÉTICO!



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