Fazendo Historia
28 de outubro de 2006
Conexão
Conto publicado no Anti-Blog, no site da Laboratório Pop, em 02 de maio de 2006.

Passou a andar com o celular no bolso, mesmo quando estava dentro de casa. Desde que adquiriu seu primeiro aparelho, mais por pressão dos seus superiores, no trabalho, do que por interesse naquela nova mania, foi a primeira vez que percebeu a mudança de atitude. E não era só. Antes de ir para a cama, carregava o brinquedo com ele. E nada de cabeceira. O celular ficava do lado direito, num lugar já há um certo tempo vazio. Quem visse aquela cena acharia graça. Um homem de meia idade dormindo abraçado a um aparelho de telefonia móvel. Parecia até um esquete de gravação de um comercial para a TV.

Há pouco tempo ele sequer daria bola para esse tipo de coisa. Achava, e dizia aos quatro ventos, que se tratava de mais um avanço tecnológico fútil, e que era mais um querer consumista classemediano do que uma ferramenta que lhe fosse ter serventia. Na verdade ainda achava isso, muito embora se rendera a certas possibilidades abertas pelo aparelhinho. Uma delas era o recebimento de mensagens instantâneas – achava a palavra torpedo inadequada – que o aproximava daquela que, distante e atarefada com várias atividades, por vezes se lembrava dele. Nem que fosse para dar um simples boa noite na hora de dormir, ou, até, quem sabe, e com sorte, para relembrar momentos que viveram juntos no passado.

Outra era a ligação propriamente dita. Se lembrava sempre que recebera, de outra, ligações nos horários mais estapafúrdios. A dona saía de noite com amigos, se alegrava nos bares e sentia falta dele. Ligava, às vezes, sem nenhum pretexto mesmo, só para dizer que estava se sentindo bem. Era o bastante para ela. Para ele, nem tanto, mas não podia deixar e atender uma pessoa que já prezava há tantos anos, e com a qual tivera os interesses mais íntimos e sinceros. Isso acontecera há muito tempo, é verdade, mas era, ele, dado a ter consideração com as pessoas (de uma forma geral) e, em especial, com seus mais queridos amigos.

Seu aparelho não era dos mais modernos nem o plano daqueles que dão mais vantagens. Mesmo assim, considerava usá-lo não só para mandar também suas mensagens, num inevitável - e às vezes até dispendioso – diálogo, mas até para fazer ligações. Tudo para não decepcionar aquela que tanto lhe alegrava com uma simples conexão via satélite. Precisava, por conta da memória insuficiente da maquininha, deletar mensagens a toda hora, abrindo espaço pra outras. Mas tinha também o hábito de manter guardadas aquelas que mais lhe sensibilizaram por mais tempo. Às vezes eram simples alôs, mas que demonstravam um carinho que o seduzia. Noutras, verdadeiras descrições de cenas que viveram juntos ou planejam viver na maior brevidade possível.

Quando saía com os amigos, para tomar uns chopes nos bares da vida, ou mesmo durante os shows em que tanto gostava de marcar presença, se orgulhava de ter que tirar o aparelhinho do bolso para verificar uma mensagem recebida. Sem intimidade para usar o duro teclado daquele modelo pouco avançado, ficava tanto tempo digitando a resposta que chamava a atenção. Certa vez foi até motivo de chacota na frente da própria moça, mas achava isso interessante, e tinha gosto de ser visto ali, assim, atarantado com aquele brinquedinho que o conectava com aquelas pelas quais guardava os sentimentos mais puros e sinceros. E vivia assim, conectado ao mundo moderno e preso aos sentimentos mais antigos que o ser humano pudesse ter. Sempre com o celular no bolso e uma doçura insofismável no coração.

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