Rock é Rock Mesmo
05 de outubro de 2006
Como fazer um disco em tempos de uma música só?
Novos trabalhos do Killers, Papa Roach e Iron Maiden colocam nosso colunista a refletir sobre como pensar um disco numa época e que a faixa é a grande vedete.

Meus amigos, a rapadura é doce, mas não é mole não. Sabe quando você pensa que está bem na fita (e na verdade está mesmo), mas sempre há algo que pode jogar tudo por terra? Pois então. É aí que a porca torce o rabo. Torce, torce, mas não arrebenta, não. Porque, antes de tudo, está o rock. Sempre.

Não sei se vocês aí do outro lado da tela estão ligados, mas o fato é que há mudanças acontecendo a rodo. Tem gente lançando disco atrás de disco, e mudando o rumo da prosa completamente, da água para o vinho. A cabeleira punk espetada que Jacoby Shaddix ostenta na contracapa do disco novo já denuncia que o Papa Roach quer sair do buraco em que se meteu em “Getting Away With Murder”, o fraco disco anterior. Não que este seja um discaço, longe disso, mas é evidente que rondou o grupo a busca por um som menos identificado com o nu-metal e mais sintonizado com o rock contemporâneo. Ah, o nome do disco é “The Paramount Sessions”.

O Killers enfim lança o segundo disco, depois de um single, “When You Were Young”, ter rolado por toda a rede durante uns dois três meses. Pode parecer auto-sugestão, mas o fato é que essa é de longe a música mais legal, num disco que faz de tudo para soar diferente do primeiro, o espetacular “Hot Fuss”. “Sam’s Town” é um álbum bem alinhavado, mas desigual. Se de um lado procura não repetir o primeiro álbum, o que realmente seria um tanto difícil, de outro não se identifica com firmeza em nenhum dos caminhos lá apontados. Um disco bom, sim, mas que soa mais como tentativa do que como conquista. Mas atenção: isso não é uma resenha.

Mutante por definição, o Iron Maiden vem, desde a volta de Bruce Dickinson e Adrian Smith, buscando renovação. Bem, não no primeiro álbum dessa nova fase, “Brave New World”, onde parece que todos desafogaram tudo o que foi economizado de bom na fraca fase com Blaze Bailey, e os prodígios retornaram com todo o gás, o que resultou na retomada do trabalho deixado pra trás em “Seventh Son...”, e num dos melhores discos da banda em todos os tempos. As mudanças vieram - aí sim - com o semiprogressivo “Dance Of Death”, e agora com este morno (ao que parece) “A Matter Of Life And Death”. Mudanças que todo artista sempre quer fazer e que podem deixar crítica e fãs com os cabelos em pé, assim como os de Jacoby Shaddix.

A questão que nos acomete a todos em tempos pós Internet é a do valor que tem a feitura de um disco. É sabido que o artista ganha dinheiro mesmo é fazendo shows. Prova disso é que, em tempos de pirataria, no Brasil as grandes gravadoras passaram a elaborar contratos em que ganham um percentual do faturamento dos shows do artista, para reduzir o prejuízo com a queda das vendas dos CDs. Mas não tem como fazer turnês sem um disco lançado, esta é a forma consagrada e tradicional de um fã levar seu artista “para dentro de casa”. Bem, ao menos era, porque hoje em dia – e cada vez mais – a música está dentro das casas das pessoas via web. Não sei o Papa Roach, mas o Killers, como disse, deixou uma música de graça por cerca de dois meses, até ela virar hit, e o Iron Maiden foi liberando uma a uma, no site oficial.

O tipo de impacto que isso pode causar no processo de composição de um álbum é que são elas. Tudo sempre veio da música, a canção em si. Explico. Primeiro um artista compõe uma música, para depois juntar com outras e formar o repertório para preencher cerca de uma hora de um CD. Isso dos anos 80 pra cá. Antes, pensava-se em cerca de 40 minutos de um vinil, com 20 para cada lado. Voltando ainda mais no tempo, chegamos aos compactos dos anos 50, que no Brasil duraram até meados dos anos 80, e na Inglaterra, a catedral da música pop, ainda funciona muito bem. Acontece que agora é a música que volta a ser a grande vedete, e cada vez mais. Como reunir dez, doze delas sob um mesmo título é que é a questão, e até que ponto, doravante, isso realmente se faz necessário.

É fato que determinado artista deve pensar, enquanto faz ou grava trechos dessa ou daquela música, que ela pode se útil para alguma coisa especificamente. Algo como “essa música tem tudo para ser um bom single”, ou “essa tem uma letra em cima da qual dá pra fazer um bom roteiro de clipe“, ou ainda “esse disco precisa de uma balada”, e coisas do gênero. É dentro do estúdio, em geral, que enquanto gravam-se os instrumentos separadamente vai se montando o quebra-cabeças de se produzir um disco. Ali, músicos e produtores vão definindo seqüências de músicas e outros detalhes que fazem do disco um trabalho artístico com início, meio e fim, não apenas um apanhado de músicas legais – e nem estou falando aqui dos álbuns conceituais. Como, em tempos de mudança como este, pensar um disco?

E isso de dentro pra fora, ou seja, do músico fazendo o disco para o público. E como seria o sentido contrário? A expectativa do público hoje em dia é realmente por um novo álbum do Iron Maiden, Killers e Papa Roach, ou de novas músicas deles para se baixar – pagando ou não – e ouvir em tocadores de mp3? Riem de mim aqueles me vêem carregando um tocador de CDs portátil na bolsa, ao invés de um I-Pod da vida. Mas para mim o disco é um trabalho artístico completo, não é para pegar músicas dali e salpicá-las aleatoriamente junto com tantas outras. Minha expectativa, ainda, é por discos: abrir a embalagem sentir o cheiro, folhear o encarte, ler as letras enquanto as músicas tocam. Ler as resenhas e matérias sobre banda nas revistas. Argumentam que faço parte do passado, mas vivo tentando entender esses tempos de uma música só fazendo verão.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em outubro 8, 2006 03:31 PM [Marcus Marçal]

Cara, esse papo de se exaltar novamente o single é um retrocesso e só interessa ao comércio e não à música. É como se ainda estivéssemos nos tempos de bailinho pop. Ainda bem que existe farta literatura sobre o assunto.



em dezembro 1, 2006 01:37 PM [denise nascimento]

Pô, cara, tu tem toda razão, valorizo pacas essas paradas que tu descreveu. Quando tem um cd em mãos, se for assim eu também sou das antigas, quero dizer, nós, valeu cara, meus parabéns pela matéria. Denise de Teresina, Piauí.



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