No Mundo do Rock
01 de outubro de 2006
Bola da vez, Moptop chega ao disco de estréia maduro e encarando mercado com naturalidade
Grupo carioca é um dos primeiros a obter reconhecimento e a lançar disco por uma grande gravadora na cola do novo rock. Fotos: Divulgação / Universal.

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Daniel Campos, Rodrigo Curi, Gabriel Marques e Mario Mamede: o rock nacional em sintonia
com o mundo


Não era preciso ser nenhum especialista para ouvir o CD demo do Moptop, há dois anos, e reconhecer ali uma banda pronta em todos os sentidos: músicas boas e colantes, produção caseira, porém caprichada, estilo e – o melhor – sintonia com o novo rock propagado mundo afora e até com as novas bandas do rock brasileiro. No show, o óbvio: os integrantes desde cedo tinham uma certa “pinta de rockstar”, sem exageros, mas com – de novo – estilo. Era batata. Ou, no anedotário popular, parada certa. Tanto que o pesquisador cético que se ocupasse em procurar uma única crítica negativa sobre a banda, iria dar com os burros n’água. Trata-se praticamente de uma unanimidade, mesmo quando a comparação é com a maior referência, nada menos que os Strokes.

Se você ainda não se ligou, o nome Moptop veio do corte de cabelo que os Beatles usavam no começo, e caiu muito bem em substituição a DeLuxe, depois que os fab four cariocas descobriram outras bandas com quase o mesmo nome. Desde que o tal CD demo, completo, com dez músicas, se espalhou pela web, inclusive no bem acabado site feito por eles próprios e premiado pela MTV, o Moptop tocou em tudo o que é lugar: nos festivais Humaitá Pra Peixe, Mada (sem passar por seletiva alguma), Bananada, Vibezone (?), Claro Que é Rock, onde era barbada para vencer, e assim por diante. Logo foi assediado por grandes gravadoras, numa época de seca total no mercado fonográfico, e acabou acertando tudo com a Universal, que colocou o álbum de estréia no mercado na semana passada.

A despeito das comparações com o Strokes, que Gabriel Marques (vocal e guitarra), Rodrigo Curi (guitarra), Daniel Campos (baixo) e Mário Mamede (bateria) admitem, há outras referências que incluem a simplicidade do rock dos anos 90, Los Hermanos, Ramones, Clash e outras quebradas. Nessa entrevista exclusiva, Gabriel Mamede fala de como as coisas aconteceram para o Moptop, tenta explicar o buxixo em torno da banda, e o que eles, que ainda mantêm empregos paralelos, esperam de um futuro seguramente promissor. Fala, Gabriel.

Rock em Geral: Vocês iam assinar com a Sony e acabaram na Universal, o que deu certo de um lado e errado de outro?

Gabriel Marques: Nós tínhamos uma história com a Sony desde o começo do ano passado, foi o primeiro contato. Mas tinha o (festival) Claro Que é Rock, que dava ao vencedor a assinatura de um contrato. No final do ano teve um excesso de bandas em que eles estavam interessados e acabou que as promessas do início não foram concretizadas. Em paralelo a isso estávamos estudando outras propostas, a (revista) Outracoisa tinha entrado em contato com a gente, a Warner chegou a dar uma sondada, e a Universal finalmente veio com uma proposta concreta em termos de data, lançamento, aquilo que eles imaginavam fazer. Na época pensávamos em fazer tudo por conta própria mesmo, ficamos na dúvida se buscávamos a coisa a longo prazo, que parece ser o ideal paras as bandas novas, ou se fazíamos uma aposta mais segura, com investimento certo, com as facilidades de uma gravadora como a Universal. E no final das contas achamos que, para quem tá começando, era bom esse empurrão.

RG: Vocês têm um disco pronto desde 2004, e agora estão lançando o primeiro oficial. Você acha que as músicas já cansaram ou ainda estão novas?

Gabriel: A música se transforma. Não tocamos “O Rock Acabou”, por exemplo, da maneira como tocávamos no início, mas em compensação as pessoas cantam mais, então aquilo toma outra proporção. Quando fomos fazer o disco, tínhamos repertório até para fazer um disco novo, completamente diferente daquele. A pergunta que o Chico (Neves, produtor) colocou, logo nas primeiras conversas, foi: “se vocês fossem fazer um show hoje, de que modo vocês estariam tocando?” Porque esse é o primeiro disco, embora a demo tenha importância dentro da trajetória. É o disco pelo qual nós vamos ser lembrados. Quando as pessoas olharem para trás, é esse que elas vão buscar, porque a demo não vai ter tão fácil, então marca. No show sentíamos falta de ter umas coisas inéditas, puxamos umas duas, três que a gente curtia ali e fomos com as da demo. “Adeus” ficou de fora, que é da demo e muita gente adora, mas ao vivo não tocamos aquilo, aí não colocamos no disco. O show foi o parâmetro para escolher.

RG: As músicas que não estavam na demo são antigas, daquela época, ou novas?

Gabriel: Duas são novas e uma é mais antiga. “Uma Chance” e “Lugar Qualquer” são novas, embora “Uma Chance” nós já tocamos há uns seis meses. E “Leve Demais” é uma música antiga até, sempre fechamos o show com ela. Tinha uma versão de demo, acho que na primeira, mas nunca gostamos dela, sempre achamos que a coisa da bateria eletrônica gravada em casa não funcionava para essa música, e queríamos dar uma chance para ela com a banda toda tocando.

RG: Foi tudo gravado de novo ou algumas coisas foram aproveitadas?

Gabriel: Aproveitamos muito pouco, mais no final, depois de ter gravado tudo, tipo “tô sentindo falta de uma guitarra aqui”...

RG: Vocês comparavam a gravação nova de uma música, com a anterior?

Gabriel: Tentamos fazer isso o mínimo possível, até porque uma das conversas era que se fosse para repetir a demo, melhor lançar a demo, porque nunca íamos conseguir nos aproximar daquele low-fi num estúdio grande, seria uma maluquice fazer isso. Ou lançávamos aquilo ou buscávamos uma coisa nova. A proposta desde o começo foi zerar, esquecer a demo e buscar como a gente faz ao vivo, como faríamos agora. Todo mundo concordava que era por aí. Na hora de escolher o timbre, fazer isso a partir do gosto, não pegar igual ao da demo. No final do processo teve uma ou outra coisa que soou estranha, e aí volta e meia dávamos um passo atrás e ia buscar umas guitarrinhas, mas foi muito pouco, numas duas ou três músicas.

RG: O que vocês colocaram de diferente pra valer?

Gabriel: A voz tá toda diferente, não sei se é uma coisa minha, mas eu escuto a demo e o disco, para mim, são duas pessoas diferentes cantando. E eu ainda tô aprendendo a cantar. Não sei se é uma coisa que todo vocalista passa, mas a minha voz muda mesmo, a minha forma de cantar está se transformando. No disco a minha voz tá mais comedida do que tava na demo. Eu prefiro assim, tinha uns excessos, umas maneiras de cantar que eu escuto agora e não cantaria desse jeito. Acho que a voz é diferente, a gente tirou a distorção, que na demo era mais um recurso para esconder as imperfeições da interpretação, o que não foi preciso nesse disco. A bateria também é outra no disco, tem a mão do Mário, as viradas dele, a maneira que ele entende a música. Usamos amplificador para gravar as guitarras, então às vezes ela fica menos presente que na demo, mas o espírito geral se manteve. O som tá mais aberto, menos calcado naquele low-fi, mais som de banda tocando, e as coisas low-fi que a gente curte.

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A proposta desde o começo foi zerar, esquecer a demo e buscar como a gente faz ao vivo, como faríamos agora

RG: Nesse meio tempo foi criado um buxixo em cima do Moptop, por que aconteceu isso?

Gabriel: Eu acho que nós temos canções boas. Dentro do que tá rolando a gente consegue fazer doze boas canções. Fora as comparações, o arranjo, acho que as canções são fortes.

RG: Se tocar no violão também fica bom...

Gabriel: Exatamente, isso é uma coisa que diferencia o Moptop. O buxixo é muito em cima disso, é o que faz os adultos irem ao nosso show e adorarem a gente. O pessoal mais novo, o pessoal indie, o pessoal que não é indie, que é pop... A gente consegue permear um grande público diferente. Tocamos com bandas diferentes, mais hardcore, com banda de metal... E o Moptop consegue transitar bem nessas coisas todas porque as canções são boas. Ao mesmo tempo tem a coisa do arranjo, da estética que a gente coloca nessas canções, tá vindo no momento certo, em que no Brasil poucas bandas estão fazendo isso. É um som que lá fora já tá no terceiro, quarto ano, e aqui ainda não chegou. Ao mesmo tempo temos canções muito boas, o buxixo vem em torno disso. Por último acho que é o trabalho, a gente trabalha bastante, fizemos um negócio de Internet bacana.

RG: Foi tão importante assim?

Gabriel: Foi tudo. Se não fosse o site o Moptop não estaria nesse perfil de banda. Faria uns shows bacanas, teria uma boa visibilidade no Rio, mas não sei se sairia daqui. A Internet nos permite tocar em qualquer lugar do Brasil e ter o público do Moptop, nem que seja lotando uma casa de 100 pessoas, mas é um público nosso.

RG: Você acha que o fato de ter aparecido essas bandas do “novo rock” lá fora, antes, favoreceu para vocês aqui?

Gabriel: As composições existem antes de isso surgir, “O Rock Acabou” foi feito antes do disco do Strokes sair. A banda veio em função de uma possibilidade... Eu tinha uma situação, até sair essa nova geração de bandas, o que eu gostava eu tinha que “cavar”. Tirando um punhado delas que tinha um certo êxito, a maioria que chegava até a mim pela mídia sem eu correr atrás eram bandas que eu não curtia. Com essa nova geração mudou um pouco, abriu as portas pra gente, nos fez acreditar que dava para fazer uma coisa aqui, não para viver de música, mas viver com música nas nossas vidas.

RG: O que você ouvia antes dessa turma e o que ouve agora?

Gabriel: Eu era muito viciado em Pixies, era referência, embora fosse uma banda que já tinha terminado naquela época. Eu escutava muito Nirvana, Dinosaur Jr., Sonic Youth, bandas de uma época em que eu comecei a gostar de música. E aí tive a fase de rock clássico que eu escuto, até os 19 só escutava isso. Nunca gostei de eletrônica, mas pirei com o “Ok Computer”, do Radiohead, gostava daquela estética. Depois veio essa nova onda, desde o Nirvana e Pearl Jam eu não tinha interesse por coisa saindo. Agora toda semana sai uma banda que eu acho interessante, posso nem gostar tanto, mas acho bacana chegar pra mim sem eu ter que correr atrás.

RG: A banda é tão identificada com o rock contemporâneo, mas o nome é tão antigo...

Gabriel: O nome era Delux. Depois de um ano de banda a gente foi registrar o nome, e descobrimos que o guitarrista Fernando Deluqui (da formação original do RPM) tinha registrado esse nome, além de outras duas ou três bandas que usavam variações em torno dele. Como estávamos no começo, decidimos que não tinha porque brigar pelo nome. Aí o Roberto Verta (executivo da Sony, na época), que gosta da banda desde o começo, sugeriu esse nome. Como todo mundo curtia Beatles, achamos que era propício, daria até sorte.

RG: Vocês já passaram dos 25 e tem gente que acha isso tarde para uma banda começar...

Gabriel: Nossos pais, com certeza... Eu desisti de tocar em banda com 17, foi minha última banda, e fui fazer outras coisas, estudar... Acho que todo mundo na banda passou por isso. O Moptop era uma oportunidade de voltar a tocar, fazer shows. Todo mundo tem emprego paralelo e ninguém tem problema se tivermos que manter esses outros empregos porque tem o Moptop também. Ter mais de 25 nos permite ter uma visão mais madura sobre a coisa. Você não precisa viver de música, pode viver com música. Se eu tiver que ter uma profissão paralela, não é problema, desde que eu possa continuar tocando, fazendo show e conhecendo gente através disso, gravando... Não tem nada melhor que tocar, ensaiar, gravar, é muito recompensador. Ter essa idade permite não ter a ilusão de que a gente vai estourar e que a banda vai financeiramente nos sustentar para o resto da vida. Se isso acontecer, ótimo, senão a gente tem maturidade para saber como é.

RG: Que tipo de crescimento você espera agora, com a Universal? O que vocês acham que vai acontecer?

Gabriel: Não sei... Vou te dar uma real... As bandas que estão aqui com a gente... Eu tenho uma dificuldade muito grande de ver o Moptop no meio delas, porque a grande maioria é de bandas que eu não curto e os meus amigos também não escutam. É complicado estar aqui no meio, ser uma banda de massa. As críticas estão sendo muito boas em relação ao disco, sempre foram muito favoráveis em relação ao Moptop, mesmo na comparação com o Strokes. Estar na Universal é uma possibilidade que o Moptop tem de ser mostrado para mais gente, e para um público jovem que eu acho que não conhece, que é o que consome música no Brasil. Mas não sei se vamos passar essa barreira do underground, do indie. Se não passar, tudo bem, o disco tá registrado e queremos fazer o segundo, depois o terceiro, e por aí vai.

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Mas não sei se vamos passar essa barreira do underground, do indie. Se não passar, tudo bem,
o disco tá registrado e queremos fazer o segundo, depois o terceiro, e por aí vai


em novembro 1, 2006 01:56 PM [ricardo souza]

Bela entrevista. Moptop é foda. Os vi em SP na Outs e foi incrivel. Bom saber que eles mantém o pé no chão.



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