Rock é Rock Mesmo
07 de setembro de 2006
Os donos de chave da portaria
Formados em dificuldade aparecem aos montes pelo caminho de quem quer trabalhar.

Meus amigos, a maré não está pra peixe. Mas, se noventa é nove é quase cem, novecentos é quase mil. O quase, sempre proibitivo ou limitante de determinada ação. Não nesse caso, não dessa vez. Pode parecer besteira, mas enquanto escrevo, atrasado como nos tempos recentes, a coluna desta semana, aparece lá o numerozinho 900, indicando a quantidade de posts (textos + fotos) lançados no site desde janeiro. Parece pouco, mas não é, ainda mais se considerarmos que a meta para 2006 é de 1000, e faltando uns três meses e meio, parece fácil de ser atingida. De outro lado é pouco, sim. Tem muita coisa para entrar no ar. Sempre.

Digo isso porque, sabemos todos, sou um operário do rock. Daqueles que carrega o piano, conserta a válvula de descarga e imprime e cola as etiquetas. Acredito, pois não, no trabalho, acho que só dele pode resultar algo como o alcance de um ou outro objetivo, mesmo que este sempre passe a ser outro, após a conquista do anterior, ou que, com firma reconhecida, nem exista verdadeiramente um. Acredito no trabalho e ponto final. Mesmo porque, sem o trabalho, aí é que nada se realiza mesmo.

Acontece que, vez por outra, aparece um dono da chave da portaria para interferir no acesso de quem trabalha. Não sei se me faço entender, mas vejam se isso já não aconteceu com o estimado leitor. Um cidadão de baixo escalão recebe a nobre função de tomar conta de algo. E algo tão simplório quando a capacidade do tal fulano para exercer a tarefa em questão. Do nada o basbaque se vê no direito de interferir na ordem comum das coisas. Por desconhecimento, impede que o trabalho seja executado, e, orgulhosamente, acerta um disparo no próprio pé. É o que faz bisonhamente aqueles que detém a chave da portaria: tranca portas para si próprio, ao invés de abri-las.

Abro aqui um parêntese. Citei, na coluna passada, o setembro negro. Tive contato com o termo na época em que circulava entre os movimentos sindicais, e a expressão era uma espécie de slogan para as mobilizações das categorias que tinha o dissídio coletivo de trabalho em setembro, como aquela a qual eu pertenci durante uns dezesseis anos. Hoje, tudo mudou tanto que temos um operário no poder e pouco sinal do movimento sindical. Das duas uma: ou a coisa anda muito boa ou tá tão ruim que nem mobilização há.

Outro dia, vejam vocês – se me permitem o desvio de assunto – dei de cara com o Dr. Rodivaldo Traça. O leitor de longa data já deve conhecer a inefável figura de terno verde e sabedoria genérica que tanto habitou esse espaço virtual de quase duzentos textos. Estava eu nas cercanias da Av. Rio Branco, quando, de dentro do Bar e Lanchonete Tricampeão, ouço o grito de “meu jovem!” típico do bonachão sabe tudo. Da calçada avistei o sorriso amarelado pelo tímido sol de inverso que lustrava seus dentes salientes e manchados pela nicotina.

Embora demonstrasse alegria, Dr. Rodivaldo estava fulo da vida. O motivo? Teria sido ele, justo ele, o senhor dos caminhos desviados e encurtados, banido do site que criara na web. Há cerca de um ano ele havia conseguido uma hospedagem gratuita e esverdeada – o homem tem uma queda pela cor – que desenvolvera com suas lições de sabedoria instantânea sobre tudo e todos, incluindo aí o rock. Só que, do nada, pessoas sem noção, que não são do ramo, o teriam enxotado de tal locação, tendo inclusive desqualificado o trabalho dele. Não deixaram, ora vejam, o velho sábio trabalhar. Ao menos foi o que eu entendi daquele homem que mais parece um engenheiro de obras prontas.

Pensava isso já dentro do 184, rumo a Laranjeiras. Confesso que pra mim o percurso, antes monótono, ganhou novos contornos depois que passei a recrear em mini cidades de brinquedo em tamanho ampliado na zona oeste. Dr. Rodivaldo também reclamara, de passagem, que há tempos eu não espinafrava ninguém por aqui. Considerava-me politicamente correto demais nos últimos tempos. Mas eu não conseguia deixar de pensar nos donos de chave de portaria com os quais esbarramos todos os dias. Pensava tanto nisso que mesmo agora, quando começa a tocar “The Ocean”, do Echo, na woxy.com, nem as guitarras privilegiadas de Will Sergeant e a voz afinada de Ian McCulloch me devolvem o humor.

Lembrava-me até do velho homem estável no emprego que, por sua vez, identificava pessoas formadas em dificuldade. Eram cidadãos de bem, sim, mas que haviam, sabe-se lá por que razão, se graduado em dificuldade, com diploma reconhecido pelo Ministério da Educação e tudo. Já pararam para pensar como esta cadeira se espalha pelo mundo aos borbotões? Como diria o Redson numa das passagens mais brilhantes do Cólera, “eles te dão a mão só pra empurrar”.

Peço desculpas, outrossim, pelo cunho pessoal deste que vos escreve, ao mesmo tempo em que faço promessas, mesmo porque estamos em ano de eleição. Na próxima coluna, enfim, vou falar de dois discos de duas bandas que não estão nem aí para a música, do jeito que nós conhecemos. Uma desconstrução só, diria Chico Science. Enquanto isso, toca na rádio “99 Luftballons”, de Nena... Melhor parar por aqui mesmo...

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em setembro 11, 2006 06:04 PM [Marcus Marçal]

A citação do Cólera é maneira e tu sabe, tem uma porrada de citações semelhantes em décadas de registros fonográficos na história do rock. Abraço



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