
Mas falava de ausência e, obviamente, de presença. Os shows do Rockz e do Cooper Cobras ontem, no Espaço Cultural Sérgio Porto, não conseguiram arrastar muita gente. Eu próprio contei, a dedo, durante uma das músicas do Cooper Cobras, 51 testemunhas. Mais tarde, ouvi dois músicos, um de cada banda, contabilizando 60 pessoas entre pagantes e convidados, e um prejú de 200 pratas. E olha que um deles me dissera, na entrada, que o esquema de shows o Sérgio Porto é bom. Imagina se não fosse.
Só um retrato, isso. O que conta são as relações, dizia eu, preocupações e papos que rolam, mesmo com pouca gente ao redor. Quem estava lá era o Chuck Hipolitho, guitarrista do Forgotten Boys, e durante uma dessas conversas entre uma e outra música, entre uma cerveja e outra, veio à tona o velho assunto bandas e crítica, e crítica e bandas, e bandas e bandas. Chuck hoje mal faz diferença entre bandas ruins e boas, por conta da conexão saudável que existe entre os músicos de diversas bandas. É assim quando se tem uma banda e tenta-se ser um cara bacana, como o próprio Chuck.
Entre crítica e artista, nem sempre é por aí. Já fui vítima de interpretações equivocadas por conta do trabalho que faço, em geral quando alguém confunde a labuta com as relações pessoais. Porque hoje posso escrever que determinada banda é ruim, e amanhã tomar uma cerveja com o integrante desse mesmo grupo. Porque as relações pessoais devem estar acima do trabalho, e as profissionais acima das pessoais também. Ou, melhor, cada coisa no seu lugar. Agora, se o sujeito tem um trabalho artístico, espalha esse trabalho em tudo o que é canto, e não tem o discernimento de que vai ouvir comentários de todo o tipo, aí é outra coisa. Numa frase, como diria o outro, é preciso separar a pessoa física da pessoa jurídica. (E não é que Coverdale continua com uma voz e tanto?).
Eu, até pelo tempo de estrada, já passei por situações bem diversas. Já publiquei texto na Internet à noite, e na tarde seguinte fui intimidado por músico; já vi integrante de banda de cara feia depois virar uma pessoa das mais simpáticas; fui preciso ao identificar esse ou aquele “defeito” e tive por parte do “alvo” o interesse em ouvir mais e melhorar; e até já fui motivo de chacota por ter criticado duramente aquilo que sequer é banda, com a melhor das intenções, acreditem. Ossos do ofício, diria o velho homem da imprensa. E que fique claro que o gente fina Chuck nada tem a ver com o peixe, é que o assunto surgiu numa conversa com ele.
O leitor de longa data já deve estar se remexendo na cadeira. E o rock? Pergunta angustiado. E nós com isso? Questionam-se outros. Ok, ok, ok, isso aqui tá com cara de blog e tudo, e justamente num lugar onde o blog sempre foi detonado a torto e a direito. E afinal de contas este espaço sempre esteve mais para mesa de bar do que para enciclopédia, não é não? E foi numa delas – colocaram umas mesinhas na ante-sala do Sérgio Porto – que um assunto recorrente surgiu, o da forma de ouvir música nos nossos tempos. Este foi, aliás, o tema da estréia na minha coluna na Outracoisa, na edição em que a Plebe Rude teve o disco encartado. Chuck tem também essa dúvida e queria saber se importa realmente vender discos pacas, ou vender poucos discos, vender discos, enfim. Ou se, por outro lado, o retorno de mídia é o que conta. Ele sabe que ganha dinheiro é com sua banda fazendo shows, não com as vendas registradas pela gravadora, sejam elas boas ou ruins. (Agora ouço um disco de Eric Carr. Quem?)
Eu disse que mudou a forma de ouvir música e já corrijo. Está mudando a forma de ouvir música. Porque a dúvida do Chuck é a de muita gente de dentro do mercado fonográfico, e não estou falando só dos tubarões da indústria, mas de gente como o artista grande, o independente, eu e você. Quem compra disco e como compra disco. Quem não compra, e como faz para ouvir música. Quem escuta rádio, quem escuta rádio na web, quem não escuta rádio algum. Perguntas que ecoam e não é que não tenham respostas. Elas têm, sim, só que várias, vindo de cada um que se acha especialista, ou mesmo de cada pesquisa que hoje aponta um caminho e, daqui a alguns minutos, outro completamente diferente. Cego em tiroteio é pouco para expressar o que acontece no mundo da comunicação e da troca de informação instantânea. (Baterista que já foi do Kiss e faleceu em 1991).
É verdade que não estou aqui descobrindo a pólvora, nem o assunto é de um ineditismo de pré-estréia em Cannes, mas taí algo a se discutir em se tratando de música, e, claro, de rock. Sim, há muito o que se falar em véspera de Tim Festival, onde a modernidade urge. Quando pilhas de discos se transformam em toneladas de assunto e de informação que quem trabalha na mídia musical não pode se furtar em colocar na mesa. Quando muito mais que oito horas é preciso para desenrolar tanta coisa que esse mundão da música pop oferece pra gente. E nem vou falar no Festival de Cinema, hein? Mas a vida segue o tempo voa. Aqui, no Sérgio Porto e em qualquer lugar.
Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!
Eu amo rock