Rock é Rock Mesmo
28 de setembro de 2006
O rock e suas (às vezes) perigosas relações
As relações da crítica com as bandas, o jeito de ouvir música, os shows vazios com bandas novas e o rock. Sempre.

Meus amigos, as relações é que são elas. Tenho andado muito por aí, mas, admito, por conta de ocupações aqui e acolá, andava meio afastado daquilo que o rock tem de melhor. Me refiro às novas bandas, a locais onde novos artistas afloram quando a gente menos espera. Digo isso e já corrijo. Mesmo porque aquele que volta e meia dá uma passadinha por aqui deve ter lido há poucas semanas um relato sobre as novas bandas que tenho visto passar no Rio, nas “datas Mário Marques” no Teatro Odisséia. Mas aquele, sabemos todos, é outro tipo de “underground” ou de “cena”. Sabemos todos que sim, mesmo sem sabermos exatamente o porquê. Daí as aspas. (Enquanto escrevo ouço o Mr. Feeling em busca de amor no coração da cidade).

Mas falava de ausência e, obviamente, de presença. Os shows do Rockz e do Cooper Cobras ontem, no Espaço Cultural Sérgio Porto, não conseguiram arrastar muita gente. Eu próprio contei, a dedo, durante uma das músicas do Cooper Cobras, 51 testemunhas. Mais tarde, ouvi dois músicos, um de cada banda, contabilizando 60 pessoas entre pagantes e convidados, e um prejú de 200 pratas. E olha que um deles me dissera, na entrada, que o esquema de shows o Sérgio Porto é bom. Imagina se não fosse.

Só um retrato, isso. O que conta são as relações, dizia eu, preocupações e papos que rolam, mesmo com pouca gente ao redor. Quem estava lá era o Chuck Hipolitho, guitarrista do Forgotten Boys, e durante uma dessas conversas entre uma e outra música, entre uma cerveja e outra, veio à tona o velho assunto bandas e crítica, e crítica e bandas, e bandas e bandas. Chuck hoje mal faz diferença entre bandas ruins e boas, por conta da conexão saudável que existe entre os músicos de diversas bandas. É assim quando se tem uma banda e tenta-se ser um cara bacana, como o próprio Chuck.

Entre crítica e artista, nem sempre é por aí. Já fui vítima de interpretações equivocadas por conta do trabalho que faço, em geral quando alguém confunde a labuta com as relações pessoais. Porque hoje posso escrever que determinada banda é ruim, e amanhã tomar uma cerveja com o integrante desse mesmo grupo. Porque as relações pessoais devem estar acima do trabalho, e as profissionais acima das pessoais também. Ou, melhor, cada coisa no seu lugar. Agora, se o sujeito tem um trabalho artístico, espalha esse trabalho em tudo o que é canto, e não tem o discernimento de que vai ouvir comentários de todo o tipo, aí é outra coisa. Numa frase, como diria o outro, é preciso separar a pessoa física da pessoa jurídica. (E não é que Coverdale continua com uma voz e tanto?).

Eu, até pelo tempo de estrada, já passei por situações bem diversas. Já publiquei texto na Internet à noite, e na tarde seguinte fui intimidado por músico; já vi integrante de banda de cara feia depois virar uma pessoa das mais simpáticas; fui preciso ao identificar esse ou aquele “defeito” e tive por parte do “alvo” o interesse em ouvir mais e melhorar; e até já fui motivo de chacota por ter criticado duramente aquilo que sequer é banda, com a melhor das intenções, acreditem. Ossos do ofício, diria o velho homem da imprensa. E que fique claro que o gente fina Chuck nada tem a ver com o peixe, é que o assunto surgiu numa conversa com ele.

O leitor de longa data já deve estar se remexendo na cadeira. E o rock? Pergunta angustiado. E nós com isso? Questionam-se outros. Ok, ok, ok, isso aqui tá com cara de blog e tudo, e justamente num lugar onde o blog sempre foi detonado a torto e a direito. E afinal de contas este espaço sempre esteve mais para mesa de bar do que para enciclopédia, não é não? E foi numa delas – colocaram umas mesinhas na ante-sala do Sérgio Porto – que um assunto recorrente surgiu, o da forma de ouvir música nos nossos tempos. Este foi, aliás, o tema da estréia na minha coluna na Outracoisa, na edição em que a Plebe Rude teve o disco encartado. Chuck tem também essa dúvida e queria saber se importa realmente vender discos pacas, ou vender poucos discos, vender discos, enfim. Ou se, por outro lado, o retorno de mídia é o que conta. Ele sabe que ganha dinheiro é com sua banda fazendo shows, não com as vendas registradas pela gravadora, sejam elas boas ou ruins. (Agora ouço um disco de Eric Carr. Quem?)

Eu disse que mudou a forma de ouvir música e já corrijo. Está mudando a forma de ouvir música. Porque a dúvida do Chuck é a de muita gente de dentro do mercado fonográfico, e não estou falando só dos tubarões da indústria, mas de gente como o artista grande, o independente, eu e você. Quem compra disco e como compra disco. Quem não compra, e como faz para ouvir música. Quem escuta rádio, quem escuta rádio na web, quem não escuta rádio algum. Perguntas que ecoam e não é que não tenham respostas. Elas têm, sim, só que várias, vindo de cada um que se acha especialista, ou mesmo de cada pesquisa que hoje aponta um caminho e, daqui a alguns minutos, outro completamente diferente. Cego em tiroteio é pouco para expressar o que acontece no mundo da comunicação e da troca de informação instantânea. (Baterista que já foi do Kiss e faleceu em 1991).

É verdade que não estou aqui descobrindo a pólvora, nem o assunto é de um ineditismo de pré-estréia em Cannes, mas taí algo a se discutir em se tratando de música, e, claro, de rock. Sim, há muito o que se falar em véspera de Tim Festival, onde a modernidade urge. Quando pilhas de discos se transformam em toneladas de assunto e de informação que quem trabalha na mídia musical não pode se furtar em colocar na mesa. Quando muito mais que oito horas é preciso para desenrolar tanta coisa que esse mundão da música pop oferece pra gente. E nem vou falar no Festival de Cinema, hein? Mas a vida segue o tempo voa. Aqui, no Sérgio Porto e em qualquer lugar.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em outubro 2, 2006 10:02 PM [Marcus Marçal]

Cadê os comments, Bragatto?



em julho 3, 2007 10:34 PM [helena bitencourt ]

Eu amo rock



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