Bola e Bola Mesmo
05 de setembro de 2006
O gol que Kaká fez para Dunga
Saído do banco de reservas, o craque provou mais uma vez o inevitável: que é indispensável. Mesmo na terceira era Dunga.

Depois da derrota na Copa da Alemanha, confesso que não esperava voltar a falar em seleção brasileira tão cedo. Mas como resistir a um Brasil e Argentina ao meio-dia de um domingão frio, depois de um sábado de poucas andanças? Impossível, mesmo sabendo que nada que está sendo feito agora, na terceira era Dunga, deverá servir para algo. Ok, nada não, mas muito pouco.

Dunga tem a missão de fazer a tal renovação, mas como nunca treinou uma equipe sequer, nem no Aterro, recebe por trás uma ajudinha de dirigentes com interesses diversos. Ajuda essa que deve “contribuir” até na convocação. Ou, se não for isso, Dunga realmente não sabe convocar. Escalar eu sei que ele não sabe, porque deixar Kaká no banco não tem o menor cabimento, e não estamos falando de celebridades ou de medalhões. O jogador é novo, craque e um dos melhores do mundo. Por isso tem que jogar. Onde é outro problema, mas Kaká no banco é dose.

Pois Dunga, ou quem está por trás dele, assistiu a muitos jogos da Copa do Mundo. Tanto que está implantando um dos dois esquemas mais utilizado no certame. Um deles é o 3-6-1, que até já andou sendo adotado pelos geniais treinadores brasileiros em nível doméstico, no campeonato brasileiro. O outro, utilizado por Itália e França, entre outros, é aquele 4-4-2 diferenciado, com o time jogando com as tais duas linhas de quatro, sendo que, dos quatro do meio, dois centralizam e os outros dois jogam bem abertos pelos lados. É esse que Dunga (ou as forças ocultas) escolheu, ao menos por enquanto, para o Brasil jogar. No domingo, contra a Argentina, quem caía pela direta era o Elano. Por ali ele marcou dois gols. Pela esquerda, era Daniel Carvalho, que volta e meia centralizava dando espaço para Robinho e sua costumeira polivalência.

Até aí nenhum problema, um treinador tenta armar o seu time da maneira que mais achar conveniente, desde que, é claro, saiba como integrar os jogadores certos nas funções que ele deseja. No domingo quem estava em campo até que se saiu bem, mas é natural que craques do naipe de Kaká e Ronaldinho – só para citar nomes entre os convocados – podem fazer muito melhor do que qualquer um daqueles que foram escalados entre os titulares. Ronaldinho, aliás, tem tudo para se adaptar a este esquema, já que o Barcelona, que há tempos ganha tudo, joga mais ou menos assim, com apenas um pouco mais de ofensividade.

Para barrar Ronaldinho, o melhor do mundo, diga-se de passagem, foi fácil, porque o craque se apresentou contundido. No caso de Kaká, a alegação foi uma coerência que eu até agora não entendi com o que. Coerência, para mim, é craque em campo e ponto final. A de Dunga, por sinal, foi por água abaixo porque ele cismou de por Kaká no jogo. E este, depois de tabelar magistralmente com o sortudo Fred, deixou o vão Elano na cara do gol. Dois a zero. Depois, numa jogada de escanteio a favor da Argentina, outro craque, Messi, com suas 18 primaveras, dominou mal uma bola e tomou uma carreira de Kaká de dar gosto. O nosso craque, uns seis anos mais velho, fez o craque deles comer grama, levou na corrida quem mais estivesse na frente, traçando o caminho que bem entendeu, até finalizar num golaço com a assinatura de Kaká. Assim como ele faz, volta e meia, no Milan. Um presente para Dunga e para a terceira era Dunga.

Para o jogo de hoje, contra o Pais de Gales, o treinador estagiário barrou todo o time, alegando pouco tempo para descanso entre domingo e terça. Por que, então, não marcou o jogo para quarta? Entre os reservas que jogaram, vejam vocês, Kaká e um recuperado Ronaldinho. Aposto que Dunga apostava que a retranca do adversário causaria prejuízo no placar brasileiro, e aí, é evidente, a culpa cairia sobre os ombros da dupla. Não contava o sábio professor com a fome de bola do lateral Marcelo, contemporâneo de Messi. O jogador do Fluminense saiu do berço diretamente para as categorias de base da seleção brasileira, e desde os últimos campeonatos sub-17, sul-americano e mundial, vem fazendo o que fez hoje: chutar de longe para marcar. Ele próprio é um dos artilheiros do Flu no brasileirão. Pois foi o lateral criado no Vale das Laranjeiras quem abriu o caminho para a vitória do Brasil com um tirambaço da intermediária.

Pelo que vi nos melhores momentos, só Ronaldinho e Kaká apareceram, e em parcos lances. Prova de que renovar é preciso, mas renovação se faz, também, com aqueles que ainda estão bem. E, principalmente, com o craque. Sem ele, o craque, não há futebol ou seleção brasileira.

Até a próxima, que ninguém segura o Kaká!!!

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