
Se tempo não há, assunto é o que não falta. Prometi falar de duas bandas em especial na semana passada, mas já recuo e digo que devo, não nego, pago logo que puder. E digo isso porque, nesse meio tempo, descobri que, no passado, eu era indie e não sabia. Indie, aliás, como expressão que define certas bandas de um determinado segmento do rock, e, por conseguinte seus fãs, nem existia. Sou do tempo das guitar bands, e confesso que a expressão indie serviu para englobar tudo e fazer do mundo do rock algo diferente do que ele já foi. Jornalistas antenados aqui no Brasil encamparam a idéia e ela se tornou referência no mundo do rock. Até quando, nunca se sabe, mesmo porque o “pra sempre” sempre acaba. E tudo a cada dia é tão mais rapidamente efêmero que até o meu amigo Moderninho de Plantão tem dificuldade para identificar as últimas novidades mais novinhas em folha.
Mas dizia que, no passado, era indie e não sabia. E explico. Tentava eu, pela enésima vez, ouvir a woxy.com, rádio virtual onde todos os modernos se conectam para ouvir as novidades mais quentes. Disse tentava porque, todas as vezes em que entrava no site e começa a ouvir as músicas me sentia mais por fora que umbigo de passista de escola de samba. E em todas elas, apelava para a versão “vintage” da rádio. Aí, sim, vejam vocês, me sentia à vontade, reconhecendo uma penca de bandas legais que nunca mais ouvi, como The Reflex, Frankie Goes to Hollywood, Killing Joke, Might Lemon Drops e muitas outras, incluindo nomes mais conhecidos como Pixies, Echo e Smiths. Daí a conclusão de que, há vinte anos, este velho homem da imprensa era indie. Vejam vocês.
E já que falava dos dez dias que separam a publicação desse texto do dia em que ele realmente está sendo escrito, não é que a tal da voxy.com se pirulitou do ar? Isso mesmo, a rádio virtual preferida de dez entre dez (e tem isso tudo?) jornalistas novidadeiros saiu do ar. Daí então voltar para o boa e velha BBC, mais precisamente no programa do piloto de avião que nas horas vagas canta no Iron Maiden. E nesse meio tempo em que comecei a escrever esta bagaça, Bruce Dickinson – num programa aparentemente gravado – já mandou, sem dó, Queens Of The Stone Age, AC/DC e Killing Joke. Grande Bruce.
Daí a ponte para a trajetória que deixou aquilo que seria indie de lado para abranger a música pesada trazida pelo Rock In Rio 1 (sua grande vedete) e pela avalanche chamada Sepultura. Pois reafirmo que na década de 80 ingressei no rock via new wave e cheguei até o punk e suas derivações mais imediatas. Tudo, claro, via Fluminense FM. E com muita coisa do rock nacional também, já que era ele quem comandava a mídia da época. Nesse meio, embora existisse um certo desprezo preconceituoso com o heavy metal – graças à origem punk – dois guitarristas desse mesmo rock nacional chamavam a atenção por tocarem como se estivessem em bandas de metal, ainda que fazendo parte do pós-punk à moda brasileira. Eram eles Fejão, do Escola de Escândalos, e Gustavo, do Picassos Falsos. Eles faziam os fãs do punk pensarem que, afinal, heavy metal podia ser legal, sim.
Nada, contudo, superou o thrash metal que chegou a mim já no final dos anos 80, e fundiu punk e metal sem maiores problemas. Foi a redenção natural de dois subgêneros do rock cujas tribos pareciam ter nascido para se eliminarem mutuamente. Com o thrash, a roda de pogo dos punks foi absorvida pelo metal, e os solos deste caíram também no punk, ainda que fossem mais sujos que elaborados. Como se fosse um desdobramento daquilo que o Motörhead já fazia há tempos, o thrash resolveu um problemão, e de quebra colocou o Brasil definitivamente no mapa do rock, via o estouro espetacular do Sepultura, que chegou a ser a principal banda de heavy metal do mundo, circa 1996, curiosamente o ano em que as desavenças familiares de cada integrante levaram a banda a perder sua clássica formação.
Aí o estrago estava feito. Nos anos 90 todo mundo chegou ao topo das paradas. Do grunge de Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden, ao thrash de Metallica, Slayer e Megadeth, passando pelo britpop de Oasis e Blur. (Nem vou falar da tal da eletrônica que hoje mal existe). Foi uma década que marcou pela diversidade e abriu caminho para o tal do novo rock ora atuante, onde a expressão indie se consolida, e é muitas vezes aplicada equivocadamente. Porque não é qualquer nova banda de rock que é indie, mesmo que atua nos moldes do mercado independente. De indie, no mercado de hoje, há muita badalação, e, à rigor, pouca coisa, na essência da palavra, indie. Porque novo rock não é necessariamente indie. Pode ser metal, emo, punk, britpop, revivalista dos anos 80 ou só rock mesmo, ora bolas. Não podemos esquecer, muito menos aqui, que rock é rock mesmo.
Ok, ok, o leitor mais atento pode argumentar existe, sim, a cultura indie, como tribo urbana, envolvendo costumes, indumentária, hábitos e o escambau. Mas aí saímos do plano musical, como, aliás, aconteceu – e acontece – com o punk, o metal, o gótico, com o hippies, rastas e assim por diante. Vivemos num mundo capitalista, não é não? Então é assim que funciona. Da efervescência cultural surge aquilo que a indústria se apropria para transformar em lucro. E ao vamos todos nós gastar grana com isso, em maior ou menos intensidade, de acordo com os apelos midiáticos, entenda-se TV, rádio, e, hoje, também, a web.
Falei tanto que não sei se me fiz entender. Mas o fato é que, ao tentar tirar onda de moderno ouvindo a (hoje finada) woxy.com, descobri que era indie há vinte anos, antes mesmo de o termo indie existir. Quer mais vanguarda que isso?
Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!
Muito massa, amei