
Nasce, assim, segundo este que vos escreve, o comentarista não de futebol, o esporte, mas sim da classificação; elogia-se quem está em cima, e se desce a lenha naquele que está embaixo. Isso porque, assim como em termos de música quem gosta de tudo não gosta de nada, no futebol quem vê todos os jogos não vê nenhum.
Digo isso, posso lhes assegurar, por experiência própria. Neste final de semana, por exemplo, posso dizer que não assisti a nenhuma peleja. Nenhuminha, por conta de tarefas profissionais prioritárias. Ou, por outra, vi alguns lances de um bom jogo, Internacional contra o Vasco. Mas vamos considerar que nada vi. E não é que chego aqui em frente a tela com a tabela de classificação em punho para iniciar a coluna de hoje? Como não vi nada, ia apelando para a tabela de classificação. Quem, como os cronistas esportivos, viu tudo ao mesmo tempo, também apela para a tabela. Logo, por uma questão pra lá de lógica, quem não viu nada = quem viu tudo ao mesmo tempo. Para definir, repito: quem vê todos os jogos não vê nenhum.
Mas, porém, entretanto, contudo, todavia, não é só da rodada dominical que vive o futebol. Vive, isto sim, e também, do que se fala sobre futebol. E, aliás, como se tem falado de futebol em tudo o que é canto. Na TV, no rádio, Internet, botequim e o escambau. Tanto que, mesmo sem ver os jogos, é possível destrinchar temas a partir dos programas esportivos, sobretudo quando os participantes, mesmo passando o dia inteirinho envolvidos com o futebol, decidem descobrir a pólvora. Digo isso porque, evidentemente, não cometi o erro de me curvar ante à tabela de classificação para escrever isso aqui.
Falava da descoberta da pólvora nas tais mesas redondas. Lembro-me bem do período antes da Copa do Mundo. Me fartava de ver todos discutindo se, depois da Copa, Ronaldinho Gaúcho poderia ser comprado à Maradona e Pelé (vejam vocês), caso atuasse bem. E isso bem depois de eu próprio afirmar categoricamente, em manchete com letras garrafais, que o dentuço não arrebentaria na Copa, pois é jogador de time, não de seleção. Não deu outra. Não quero aqui me gabar – já o fiz no passado – mas às vezes é tanta ingenuidade bem remunerada que dá dó.
Ontem, por exemplo. O grande José Trajano, um dos poucos que estão aí que pode ser chamado com orgulho de “velho homem da imprensa esportiva”, resolveu descobrir a pólvora, e isso em pleno ano de 2006. Trajano levantou uma questão segundo a qual o que falta no futebol brasileiro é o craque que faz a diferença, o bom e velho camisa dez, um meia que desequilibre o jogo. Como tenho criticado pacas o São Paulo, que mesmo sendo o líder do campeonato, não ter um único meia, achei que, até aí, era uma mera coincidência José Trajano levantar essa bola – no que foi apoiado de prima pela maior equipe de puxa sacos que a história da televisão brasileira já viu. Mas quando, ao exemplificar, começou pelo próprio São Paulo, e citou o Danilo como um “não meia”, aí foi batata. Trajano disse o que eu venho falando a, no mínimo, uma dúzia de rodadas.
Não que eu queira aqui sugerir que um dos mais respeitáveis jornalistas esportivos do Brasil tenha lido este espaço condenado à solidão de um Robson Crusoé sem Internet. Mas porque ele, assim como eu, enxergou o óbvio. E, se me permitem, isso muito me agrada. Porque, como sempre digo – e não sei se já disse aqui – o óbvio, de tão óbvio, cega. Não a Trajano, não a mim, mas ao São Paulo, que lidera o campeonato sem um meia sequer, e ao futebol brasileiro, onde os meias já se extinguiram.
Para terminar o que comecei – citando de quebra o Van Halen – mesmo sem ver um jogo sequer, e sem atentar para a mídia com a devida atenção, consegui desenvolver um tema sem precisar me curvar à abjeta análise elevatorial da tabela de classificação. Prova de que nem tudo está perdido. Pois se até eu, um reles mortal, consigo não fazer esta patacoada, é possível que nossos cronistas esportivos, em sua maioria bem melhor preparados, também escapem de tal praga.
Até a próxima, que o Vasco é o melhor do Rio!!!