Rock é Rock Mesmo
03 de agosto de 2006
Poucas bandas foram tão boas em cima de um palco como o Thin Lizzy
Ou como o próprio rock nos obriga a olhar pra trás e reverenciar nossos ídolos.

Meus amigos, água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Andei dando sopa para o azar, mas a sorte sorriu pra mim. Ou as evidências. Ou a boa e velha sincronicidade da qual eu tanto tenho falado. Outro dia me perguntaram o que significa “hype” e eu respondi. Mas nem tudo tem exata explicação. Já disse que o rock vem ao nosso encontro, cito de novo a sincronicidade, e creio que aqueles que se sobejam com minha falação certamente me darão razão.

Primeiro chega às minhas mãos um DVD de Gary Moore com um show organizado por ele para homenagear Phil Lynott, o líder do Thin Lizzy. Tudo começou quando convidaram Moore para a cerimônia de descerramento de uma estátua em homenagem a Lynott, em Dublin, e ele resolveu fazer o tal show na cidade. Entre os convidados os guitarristas de quase todas as fases do grupo: Brian Robertson, Scott Gorham e Eric Bell. O curioso é que Gary Moore foi sempre um integrante “mutante” no Thin Lizzy, só tocou nas turnês e gravou apenas dois álbuns com a banda. Ainda assim participou da fundação do grupo, e, ironicamente, gravou com Lynott um de seus últimos trabalhos, o single “Out In The Fields”. Conheci essa música na Rua Bento Lisboa, no Catete, no extinto “TV Pirata”, uma sinuca alugada num sobrado velho que se transformava em sala de projeção de vídeos de rock raros, patrocinada pelo inigualável Raul.

Mas o assunto não é esse. É Thin Lizzy. Pouco depois, fazendo uma matéria com o Belle And Sebastian – a maior banda de sarau em todos os tempos – descobri que entre os covers “excêntricos” gravados pela banda estava “Whiskey In The Jar”, música de domínio público, mas que ficou famosa na versão do Thin Lizzy. Outra? Há algumas semanas, ouvindo o Bruce Dickinson Rock Show, eis que Bruce lança um módulo especial com o Thin Lizzy, apontando Phil Lynott como representante de três minorias: católico (na Irlanda), negro e cigano. Sincronicidade, pois não?

Vocês podem até não acreditar, mas na segunda metade dos anos 70 era o Thin Lizzy quem dava as cartas o meio da música pesada, graças a uma extraordinária performance de palco que corria o mundo arrebatando multidões. Fazendo uma espécie de ponte entre o classic rock pauleira, o hard rock e o heavy metal, o grupo irlandês era a síntese da música pesada da época. Seu grande mérito foi dar ênfase aos duelos de guitarras – as chamadas twin guitars – criados lá atrás com o Wishbone Ash e com ecos na surf music (Dire Straits), no metal tradicional (Iron Maiden), no metal melódico (Helloween e Gamma Ray) e em tudo o que é canto no rock e na música pop. Essa história de como eles decidiram usar as guitarras dobradas, uma após a outra, é contada no tal DVD com muito humor por Scott Gorham, que chega a admitir que a coisa aconteceu meio por acaso. E é bom lembrar que o chefão do grupo era Lynott, baixista, vocalista, principal compositor e hoje estátua em praça pública.

Scott Gorham estreou na banda só no terceiro disco, junto com Brian Robertson, que também está no DVD. Mas foi só no sexto, “Jailbreak” (1976), talvez o mais aclamado da carreira do Thin Lizzy, que eles concretizaram com brilhantismo este modo específico de se tocar guitarra, resultando em clássicos do naipe de “Warriors”, “The Boys Are Back In Town”, já coverizado pelo Bon Jovi, “Cowboy Song” e “Emerald”. “Fighting” (1975), o álbum anterior, já ousava e trazia investidas em um hard rock pesado diferente daquele que faziam na época outras bandas do gênero, e isso tudo sem enveredar pela trilha que resultaria na revolução chamada “new wave of british heavy metal”, movimento que curiosamente mostraria grande referência a Lynott e companhia – Iron Maiden e Def Leppard que o digam. São deste disco “Rosalie”, “Suicide” e “Ballad Of a Hard Man”.

“Fighting”, na verdade, abriu uma seqüência de discos espetaculares difícil de ser comparada com uma de outro artista, talvez só mesmo o Black Sabbath e seus sagrados seis primeiros álbuns. ”Johnny The Fox” (1976), por exemplo, foi composto num período em que Lynott, diagnosticado com hepatite e detonado por drogas e álcool, teve que cancelar boa parte da turnê, como disse, a principal razão de ser da banda. Isso não tira de jeito nenhum o brilhantismo do disco, que tem “Don’t Believe a Word”, “Massacre” e “Johnny The Fox Meets Jimmy The Weed”. Já “Bad Reputation” (1977) teve a baixa de Brian Robertson, que não pode gravar as músicas porque precisava se recuperar de uma briga de rua na qual deve ter apanhado à rodo. Scott Gorham gravou tudo sozinho. Como banda ao vivo, entretanto, o Thin Lizzy precisava de um registro gravado direto da turnê, o que aconteceu em “Live And Dangerours”, lançado já em 1978, com gravações os últimos dois anos, e, lógico, com Robertson na ativa. O disco é considerado simplesmente como um dos melhores “ao vivo” de todos os tempos, ao lado de “Kiss Alive” (Kiss), “Made In Japan” (Deep Purple) e “Live At Leeds” (The Who). Eu, por incrível que pareça, ainda prefiro “Life”, um outro ao vivo da banda, em CD duplo, obscuro, lançado em 1983. O disco conta com os guitarristas de todas as fases no mesmo palco, incluindo Gary Moore e John Sykes, antes de ele se mandar para o Whitesnake, com quem tocou no Rock In Rio 1, em 1985.

Mas voltando ao “Live And Dangerous”, depois dele foi a vez de “Black Rose: A Rock Legend” (1979), que contou com Gary Moore, o suplente oficial de Robertson, dessa vez já nas gravações do disco. Embora elogiado pela crítica, é certamente o mais fraco da era de ouro do Thin Lizzy, e marcou o seu final. Dali pra frente o grupo de certa forma se repetiria, talvez até perdido no meio do tiroteio punk e da subseqüente new wave, e até por uma certa perplexidade com os caminhos assumidos pela música pesada, para a qual sempre foi referência. De outro lado, dois discos lançados já nos anos 80 sempre foram subestimados, mas representam uma última boa fase do Thin Lizzy. São eles “Renegade” (1981) e “Thunder And Lightning” (1983). O primeiro, com Snowy White no lugar de Gary Moore, trazia músicas fortes e já identificadas com o heavy metal. O segundo marcou a estréia de Sykes, é a obra derradeira do Thin Lizzy, e tinha tudo para fazer a banda se readaptar ao mercado da música pesada, com grandes riffs e as sempre geniais sacadas de Lynott. São desse disco “Bad Habits”, “Cold Sweet”, “The Sun Goes Down” e “This Is The One”.

Antes de morrer em 1986, aos 35 anos, em decorrência de abusos com álcool e drogas, Phil Lynott lançou discos solo, livros de poesia e manifestos em defesa das minorias irlandesas. Em agosto de 2005 virou estátua. Desde 2000, John Sykes reformou um Thin Lizzy com um line up remendado, e tem feito shows esporadicamente por Europa e Estados Unidos. Nada que aparentemente tenha relevância. Como disse lá em cima, quem quiser conhecer o Thin Lizzy, melhor correr atrás do álbum “Life”, o tal do CD duplo ao vivo. Ou baixar na web as músicas citadas aqui. Aposto que ninguém vai se arrepender. Mesmo porque é o destino, o rock vai até você. Sempre.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

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