Fazendo Historia
26 de agosto de 2006
Mulheres não se esbarram em mim, mas as suas bolsas...
Publicado no zine Bodega, no final dos anos 90.

É óbvio que a maioria absoluta das mulheres não sai de casa e nem anda por aí sem carregar suas bolsas, independente de tamanho, modelo, etc. De posse desse valioso instrumento de indumentária, elas sofrem um processo bastante interessante de mudança de identidade, do ponto de vista social, ideológico, mas principalmente de noção do espaço que ocupa na crosta terrestre. De posse de suas bolsas, as mulheres têm desafiado as leis da Física, e não raro se dão conta, na prática, do fenômeno da impenetrabilidade da matéria, ou seja, “dois corpos não podem ocupar, ao mesmo tempo, o mesmo lugar no espaço”. Quando o proprietário de um desses corpos é uma mulher, e está carregando uma de suas bolsas, o questionamento desse conceito é colocado em prática.

Explico. Por algum motivo que nem Freud explica, talvez até por conta da mitificada diferença de neurônios, como diria minha querida socióloga de plantão, uma mulher, quando carrega sua bolsa, seja esta qual for, se perde completamente no tempo, e, principalmente, no espaço. Não é preciso ser nenhum ás do volante para, ao dirigir, perceber se dá ou não para passar com o carro em um determinado espaço, colocá-lo numa vaga, ou ainda projetar uma ultrapassagem. Aliás, nem é preciso saber dirigir para se ter a idéia se um objeto cabe ou não em um determinado espaço.

Quando se desloca de um lado para outro, em uma simples caminhada, ou ainda no corre-corre cotidiano, onde é sempre preciso chegar na hora, mas sempre se está atrasado, seres humanos se desviam entre si de modo a não colidir, no melhor dos sentidos, com o próximo. Essa é uma questão tão óbvia e o ato tão repetido, que ninguém nunca parou para pensar nisso. Invariavelmente, esse processo é bem sucedido, e, salvo um esbarrãozinho aqui e outro acolá, ninguém sai realmente ferido.

Uma observação mais atenta, porém, ainda que nenhum dado estatístico tenha chegado às nossas mãos, mostra que todo esse processo é brutalmente alterado por dois fatores conjugados entre si: 1) Se pelo menos um desses transeuntes é uma mulher; 2) Se esta mulher está carregando uma bolsa. Uma mulher carregando uma bolsa com certeza vai esbarrar em você, sem a menor das intenções, e mesmo sem se dar conta do que está acontecendo, o que leva a mais educada delas a sequer pedir desculpas.

É sabido que o centro de gravidade do homem (o ser) se localiza um pouco acima da cintura, próximo ao umbigo, e é ele o responsável pelo equilíbrio do corpo. É por isso que, por exemplo, um equilibrista que caminha sobre um cabo de aço em um espetáculo circense, ao perder a concentração, se abaixa, e recupera o equilíbrio. Ele aproxima o centro de gravidade do seu corpo ao ponto de apoio. Coisas que qualquer aula de Física mal dada explica.

Uma mulher quando carrega uma bolsa, tem seu centro de gravidade deslocado, por conta do peso, do volume (e da relação entre os dois) que sua bolsa ocupa no espaço. Assim, ela calcula o espaço útil para passar em determinado local sem considerar que, naquele momento, sua bolsa faz também parte do seu corpo. Resultado: tropeços, esbarrões e bolsadas para todos os lados. Se a falta de espaço for fator imperioso então, aí o estrago é total.

Dentro de um ônibus, por exemplo. Por mais que tenha evoluído, esse veículo coletivo, mais por ganância empresarial do que por deficiência tecnológica, tem ainda poucos espaços para o cidadão se prostrar durante a viagem - e nem estou falando de conforto. Por mais vazio que esteja o coletivo, ainda que não haja sequer uma pessoa em pé, uma mulher que o adentra com sua bolsa à tiracolo, esbarrará no maior número de ombros possíveis. Se alguns passageiros estiverem de pé, boa parte será tocada. Mas se o ônibus estiver mesmo cheio, aí sai de baixo que o strike é total, bolsada pra todo lado.

A evolução da ciência trouxe ao homem avanços inimagináveis na área tecnológica, levando-o a vencer as barreiras intransponíveis. Mas ainda não há como se livrar do esbarrão desagradável da bolsa de uma mulher.

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