Fazendo Historia
20 de agosto de 2006
‘Dias de Luta’ mostra a explosão, domínio e decadência do rock brasileiro dos anos 80.
Resenha do livro, publicada na Dynamite em janeiro de 2003.

Houve um período da história em que o rock nacional dominava as paradas de sucesso em todo o Brasil. Alguém duvida? É o que conta, com uma incrível precisão histórica, o livro “Dias de Luta – O Rock e o Brasil os Anos 80”, de autoria do jornalista Ricardo Alexandre, lançado pela Editora DBA.

O que se admira é que, considerando a pouca idade do autor, que começou a década de 80 com seis primaveras e a terminou com 16, seu conhecimento sobre o período é bastante farto. Isso significa que apesar de não ter vivido plenamente aquela saudosa época, e ainda admitir, com falsa modéstia, no prefácio, não ser um admirador do período, o autor não se logrou em fazer intermináveis entrevistas com os envolvidos, além de pesquisas que garantiram informações precisas (conferidas por este repórter) e outras até então não tão esclarecidas. A isso se chama Jornalismo, com J maiúsculo.

É aí que se torna inevitável a comparação com outro livro sobre o mesmo assunto, “BRock – O Rock Brasileiro dos Anos 80”, lançado em 1995, no qual o jornalista Arthur Dapieve, além de criar um “rótulo” que ninguém adotou, contou a história das principais bandas do período, sem, entretanto, registrar um cenário propício para que todas elas surgissem formando um verdadeiro movimento, ou para usar um temo recorrente, a tal “cena”.

Nesse ponto está o segundo mérito de Ricardo Alexandre, que procurou identificar não só a trajetória de cada banda, mas saber como e porque elas, e todo rock nacional do período, aconteciam, considerando aspectos fundamentais, como mídia impressa, rádio e TV, e, principalmente, circuito de shows. Oriundo da imprensa paulista, sua isenção foi brilhante, ao reconhecer na Rádio Fluminense FM, de Niterói, e no Circo Voador, do Rio, os grandes catalisadores do rock nacional do período, fato raro entre seus colegas bandeirantes.

A terceira razão que faz de “Dias de Luta” leitura obrigatória para quem gosta de rock é a sutileza adotada pelo autor, que abdicou de um contar de história maçante para dividir o livro em pequenos capítulos, no qual inseriu a grande maioria dos nomes das bandas de rock, até as pouco importantes, de modo a contemplar a memória de todos que de uma ou outra forma acompanharam e curtiram o período. O livro é fácil, não cai na armadilha de fazer análises críticas sobre esse ou aquele disco, essa ou aquela banda, mas sim sobre todo um contexto que tenta localizar o fenômeno do rock nacional dos anos oitenta historicamente, e não apenas dentro da música.

O leitor mais atento, sobretudo o mais experiente e exigente, irá notar a falta dessa ou daquela banda de sua cidade, uma ênfase maior em determinado artista, um exagero ao citar certos medalhões. Mas isso é uma coisa inerente ao próprio rock e suas controvérsias. Talvez o único senão digno de registro esteja na parte final do livro, em que o autor fareja as razões para que o rock brasileiro deixasse a cena musical e fosse incorporado pela mpb. Essa discussão é polêmica, mas parece-me evidente que as gravadoras e sua cultura do sucesso único e imediato descartaram o rock de seus planos, enterrando novas gerações que surgiriam em seguida, mas que só foram desabrochar nos anos 90. Sabemos que é difícil, mas o autor poderia ter se infiltrado mais dentro dessas oligarquias multinacionais, a fim de desvendar o mistério. Se bem que esse assunto já renderia outro livro.

O mais importante, entretanto, é que, com “Dias de Luta”, reafirma-se que existiu um rock brasileiro nos anos 80, numa época ainda próxima àquela, mas que dada à efemeridade jornalística do Brasil, já tem muito profissional do ramo afirmando que aquilo tudo não passou de uma pequena parte da mpb. Que leiam, então, “Dias de Luta”.

em agosto 22, 2006 01:24 PM [Recruta Zero]

O bacana dessas empreitadas é justamente perceber o quanto o fator perspectiva interfere nos retratos de época. Tem um outro cara que escreveu um livro, com nome mais pop e posterior, que naturalmente vai mais fundo em alguns pontos que o Dapieve e o Ricardo Alexandre apenas esboçaram. Acho que é como um desembaçar da lente. Mas ainda são possíveis mais enfoques. Mas pra que perder tempo escrevendo sobre "movimento rock" anos 80?. Tsc



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