Rock é Rock Mesmo
13 de julho de 2006
Rock não é santo para ter dia
Rock é todos os dias, horas, minutos e segundos. Não é para ser comemorado futilmente, mas sim ouvido, falado, discutido, curtido, percebido todos os dias, as vinte e quatro horas do dia.

Meus amigos, 13 de julho. Dia mundial do rock. Fosse este aqui um espaço comercial e estaríamos com coluna especial, programação especial, promoções especiais e toda essa patacoada de datas criadas para manter o fluxo de caixa. Parece coisa de punk de primeira viagem, e pode até ser. Mas não é, não. Uma vez já critiquei o que andaram chamando na mídia de “o aniversário do rock”; dia do rock, então, é dose.

Não sei se vocês sabem, mas a data foi criada a partir do Live Aid, um mega festival realizado “simultaneamente” em Londres e na Filadélfia, em 1985. Foi idealizado por Bob Geldof, o ex-vocalista do Boontown Rats e ator principal do filme “Pink Floyd – The Wall”. No evento tocaram U2 – naquele que dizem ter sido o momento em que a carreira da banda alavancou de vez, Sting, que iniciava carreira solo, e tocou junto com Phil Collins, Elvis Costello, Black Sabbath, Run DMC, Crosby Stills & Nash, Dire Straits, Queen, David Bowie, The Who, Santana, Madonna, Duran Duran, Neil Young e até uma “reunião” do Led Zeppelin, entre outros artistas. Ou seja, todo mundo que tinha relevância para o rock na época. O festival tinha como principal objetivo arrecadar verbas para o combate à fome na África, e o detalhe é que o logo oficial foi feito a partir do logotipo do Rock In Rio, realizado em janeiro. Aquele mesmo que tem o corpo de uma guitarra transformado no mapa do continente sul-americano, substituído pelo do africano.

Disse tudo isso não para dar uma de PVC do rock, mas para explicar a razão de o dia mundial do rock ser o 13 de julho. Como se dá o processo de escolha de uma data dessas, eu não tenho a menor idéia – e isso aqui não é matéria para eu sair por aí apurando - mas parece coisa de Candinha. Alguém sai colocando na mídia, esta começa a reverberar e a coisa vai se consolidando. Tanto que só de uns tempos para cá é que a data pegou. E aí tudo vira gancho para se organizar eventos, festas, e, claro, para, como disse, aquecer a venda de produtos relacionados ao rock, desde discos, passando por roupas, chegando até a eletrodomésticos e automóveis. Tudo uma questão de marketing, claro.

E daí? Deve estar pensando o freqüentador deste espaço virtual, se perguntando se eu próprio não estaria me valendo da nefasta data para escrever meu texto. No que eu replico: alto lá! É lógico que, quanto mais badalado o rock, melhor. Não sou a favor da guetização do rock e de seu confinamento no underground. Mas como assim dia do rock? Um diazinho só? Vinte e quatro horas? Fala sério... Rock não é santo – muito ao contrário – para ter dia. Rock não é só música para se escutar e ficar parado; é atitude, energia em potencial e movimento. E, principalmente, rock é todos os dias, horas, minutos e segundos. Eis onde eu queria chegar: rock não é para ser comemorado futilmente pelo capitalismo moderno, não. É para ser ouvido, falado, discutido, curtido, percebido todos os dias, as vinte e quatro horas do dia.

O amigo afeito à leitura de grandes jornais, ou mesmo empacotado na modernidade virtual certamente verá hoje matérias tendo como gancho o dia mundial do rock. Em geral elas explicam o porquê da data ser este fatídico 13 de julho, mostram uma breve historinha do rock, republicando mini matérias que lemos todo ano, ou ainda – no caso dos mais caprichosos – alguns depoimentos de artistas ou fãs do gênero. E aí me perguntam: isso é ruim? Claro que não, rock na grande mídia é a melhor coisa que tem, vide as exuberantes apresentações de Rolling Stones e U2 por aqui no início do ano, que resultaram em grandes matérias até no Jornal Nacional e transmissões ao vivo para todo o país. Mas só no dia 13 de julho? Aí, não, né?

Ok, ok. Vamos devagar com o andor que o rock é de barro. Não caí do céu como Chuck Hipolhito, nem sou infernal como ele. Passei por salas de aula e lá me ensinaram o que é o fato, e o que é a notícia. E sei que o rock não é notícia toda hora, daí não freqüentar o noticiário diariamente. Mas também conheço os critérios consagrados para a publicação dessas notícias, e através deles há que se abrir ainda muito espaço na mídia. Por exemplo, um show como o do Oasis, em São Paulo, recentemente, não pode não ser notícia. Idem para um Circo Voador abarrotado com o Franz Ferdinand. E, ainda, rock é conhecimento de causa. Não é qualquer mané com um diploma de bacharel debaixo do braço que sabe falar com o público de rock. É preciso – além do diploma, claro – ser do ramo. Pois me digam, quem, nas principais emissoras de TV têm este perfil? Nos jornais ainda pipocam um ou outro nome, mas nada muito consistente, salvo algumas exceções.

Mas, porém, entretanto, contudo, todavia, há muita coisa off-mídia nos dias de hoje. Nunca as correntes negras de Morin foram tão intensas, sem desaguar todo o seu potencial. É só procurar na web que o fã de rock acha tudo – rádios, músicas, bandas - só que de modo restrito, circunspecto até. O desafio é o rock de massa, de arena, que não pode acontecer só uma vez por ano, não. E repito: rock é todo dia. Que mané dia do rock, rapá.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em julho 13, 2006 03:45 PM [Flying Guitar-Player]

Cara, isso certamente rende uma loooonga prosa. Mas aí, fala com o Berry que quero royalties pelo logotipo com a foto das minhas duas guitarras na tevê.



em agosto 1, 2006 12:05 AM [Gabriel]

Uma frase me chamou a atenção nesse artigo:

"É preciso – além do diploma, claro – ser do ramo. Pois me digam, quem, nas principais emissoras de TV têm este perfil?"

Não só no rock, como na mídia em geral, é fundamental que, para determinado assunto, precisam de um profissional que entenda sobre ele. Na falta de alguem que entenda do assunto, o publico infelizmente corre o risco de receber informações erradas, ou pela metade.

No meio musical, um bom jornalista que eu destaco é o Terence Machado, que apresenta o Alto-Falante, aqui em Minas Gerais. Acho que você deve conhecer ele.

Abraços!



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