Fazendo Historia
30 de julho de 2006
O terror antes dos clichês
Análise do filme “O Bebê de Rosemary”. Publicado na Tribuna da Imprensa, em março de 2003.

Mulher é assediada por vizinhos e pelo marido para que, sem saber, venha a dar luz ao filho do demônio na terra. Olhando assim, parece que “O Bebê de Rosemary” (Globo, Intercine, 01h45) não passa de um filme de terror sensacionalista, daqueles que não desperta o interesse do mais aficionado fã do gênero. Mas trata-se, ao contrário, de um grande clássico do terror/suspense, que iria influenciar muitos filmes na década seguinte, até chegar a banalização generalizada - daí a desconfiança com a frase que abre o texto.

O filme foi o primeiro dirigido pelo premiado Roman Polanski em Hollywood, com roteiro baseado no livro homônimo de Ira Levin. Além das cenas de suspense, a produção mostra muito bem o comportamento urbano da época (final dos anos 60), entre a decoração dos apartamentos, as roupas e até mesmo no corte de cabelo da personagem do título.

Recém casados, Rosemary (Mia Farrow), e seu marido, o ator desempregado Guy Woodhouse (John Cassavetes) alugam um antigo apartamento no centro de Nova Iorque. Desde que se mudam, são ajudados por excêntrico casal de vizinhos, Minnie (Ruth Gordon, que faturou o Oscar de melhor atriz coadjuvante) e Roman (Sidney Blackmer), ambos interessados no bem estar do casal.

Certa noite, ao comer uma mosse que Minnie havia feito, Rosemary passa mal, e durante a noite sonha estar sendo possuída pelo diabo, mas ela não leva o sonho tão a sério. Mais tarde, seu marido enfim consegue um bom papel, mas graças a um acidente que estranhamente aconteceu com o ator titular.

Rosemary descobre que está grávida, e recebe a indicação de Minnie para que tenha o acompanhamento do Dr. Sapirstein (Ralph Bellamy), que receita uma dieta a base de vitaminas especiais, preparadas pela própria Minnie. Com o passar dos dias, e o desenvolvimento da gravidez, Rosemary passa a desconfiar que todos à sua volta – os vizinhos, o médico e até seu marido, fazem parte de uma seita satânica, cujo objetivo seria transformar seu filho numa vítima da magia negra.

Acontece que no transcorrer do filme não é clara a idéia de que a desconfiança de Rosemary tenha realmente fundamento, e a história toda, embora deixe detalhes pelo caminho que mais tarde se encaixarão, só se resolve no final da fita. Embora sugira, “O Bebê de Rosemary” não é o tipo de filme de terror de enojar o espectador, dado ao seu leve desenvolvimento, para um tema tão pesado.

Para quem gosta de ficar impressionado, vale o registro de dois detalhes curiosos. Um ano depois de ter sido lançado, Roman Polanski perdeu a esposa Sharon Tate, assassinada por um grupo de satanistas liderados por Charles Manson. Em 1980, John Lennon foi assassinado por um fã em frente ao mesmo edifício em que, no filme, Rosemary deu a luz ao seu bebê. Eu, hein...

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