Rock é Rock Mesmo
20 de julho de 2006
O que passou, passou
Querer se apegar a algo retrô só se justifica do ponto de vista da indispensável preservação da memória ou do fetiche pessoal de cada um.

Meus amigos, a maré não está pra peixe. E da nascente até a foz o peixe de água doce está atrás das cavas. Mas é assim que a banda toca. Ou, se não toca, a gente põe pra tocar. E banda é o que não falta, já constatava o moderno jornalista ao se deparar com as infinitas super estradas da comunicação. Ao menos era assim que ensinavam os professores nas salas de aula o advento da Internet. Foi ontem, mas parece que foi há tanto tempo, porque o mundo anda assim mesmo. Girando mais depressa, na velocidade da informação dos tempos modernos. O que é a tecnologia.

Lia outro dia um artigo em que o articulista fazia uma ampla defesa do vinil – que para quem não conhece é aquele disco grandão, de plástico, com lado A e lado B, no qual eram gravadas as músicas num passado não muito distante, numa época onde CD era novidade e música on line ainda não existia. O argumento principal é que os discos de vinil duram mais, têm uma gravação de grave “mais encorpada” e a parte gráfica, num tamanho evidentemente maior, é muito mais interessante. Quanto à durabilidade eu ainda não me decidi, mas gosto mais do som mais limpo do CD, e a parte gráfica eu encaro como uma coisa suplementar, não prioritária. (Não é que os caras do Primal Scream resolveram fazer um disco de country blues a la Clapton das antigas?)

Vejo como uma coisa normal, entretanto, que numa época de um avanço tecnológico avassalador coisas ultrapassadas com um disco de vinil se transformem em objeto de fetiche para colecionadores. Porque não há mercado para o vinil já há muito tempo, e só o “querer de colecionador” justifica a manutenção de lançamentos nesse formato, por um preço, em geral, bem salgado. Ou, até, admita-se, o vinil pode servir para os devaneios do DJ, não pelo conteúdo do disco em si, mas pelo que o formato pode proporcionar, fisicamente, no toca discos, terreno onde o CD realmente tem desempenho prejudicado. Se bem que, sem vinil, o DJ continuou firme e forte, não se perdeu como previam os alarmistas de plantão. (Até banjo parece ter na banda de Bobby Gilliespie, que coisa, hein?).

Natural, também, que a horda de DJs que pensa que é músico precise desesperadamente encontrar vinis antigos para usar em suas bases. Bases é que eles entendem por um apanhado de músicas dos outros sobre as quais eles fazem um emaranhado de efeitos e cujo resultado chamam de música. Como se apropriar da música corrente seria um escândalo – e mesmo não teria graça alguma – eles precisam de coisas antigas, retrô, vintage. Daí a busca pelos vinis antigos, e a chamada recuperação da música brasileira de raiz via rap/eletrônica, na qual o esperto Marcelo D2 é um dos pontas de lança. (O Sonic Youth também tá meio retrô nesse disco novo. Ainda bem).

O assunto aqui não é DJ, mas a obsessão e persistência pelo vinil, esse objeto de museu que muita gente quer consumir como se ele fosse a representação e a manutenção de uma época. Ora, o tempo passa e a épocas se sucedem mesmo, não há nada mais óbvio que isso. Querer se apegar a algo retrô só se justifica do ponto de vista da indispensável preservação da memória ou do fetiche pessoal de cada um, aí já num sentido mais bizarro da coisa. E nem é preciso ser fã do CD para se chegar a uma conclusão ordinária como essa. Aliás, formas de se ouvir música não foram feitas para ter fã ou admiradores, mas para serem utilizadas simplesmente como meio para atingir objetivo. Simplesmente ouvir música. E negar o CD é o mesmo (ou ainda pior) que virar as costas para a proliferação de música, artistas e culturas pela web. Não dá para não enxergar o mais reles e imponderável dos fatos. (Até segunda ordem “James Run Free” é a melhor do disco. De longe)

Mas, porém, entretanto, contudo, todavia, bem que era legal entrar na Sub Som, ali no subsolo daquela galeria na Tijuca, na véspera do pagamento, escolher cinco, dez discos – tinha pena de preencher cheque para um valor pequeno – e sair com aquele sacolão numa ansiedade atroz para chegar em casa e ouvir um por um naquela noite mesmo, vendo o encarte e acompanhando as letras. Ou mesmo quando comprei meu primeiro vinil, na Americanas do Méier, antes de pegar o 33 na estação. Época boa para se lembrar, não para reviver. Porque isso seria parar no tempo, e aí não rola. Hoje a ansiedade é de encontrar na web aquilo que se deseja. Buscar, antes, a informação; depois a música. (Me sinto nos anos 90 ouvindo o novo do Sonic Youth, é sério).

Épocas, na vida em geral - e no mundo do rock em particular - não devem ser revividas. Mas, sim, relembradas, com saudade, ou, até, musicalmente falando, usadas para se reinventar tendências, como bem fazem algumas bandas inglesas atualmente em relação aos anos 80. É aquela velha história da geografia determinística: é preciso estudar o passado para entender o presente e prever (ou se preparar para) o futuro. Mesmo porque, nos nossos tempos, sobretudo no mundo pop, nada mais tem um ineditismo de pré-estréia em Cannes.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em julho 20, 2006 04:05 PM [Marcus Marçal]

Esse disco do SY deve ser coisa de fim de contrato, aí os caras soam mais acessíveis para manter um determinado "padrão" de longevidade. O bom é que música boa não precisa vir com data porque não tem necessariamente prazo de validade, algo bem parecido a um bom livro. Só acho que atribuir maior valor ao Sonic Youth "pop" em relação ao Sonic Youth "experimental" é coisa de quem não consegue sorver o prato enquanto um "todo". Abraço



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