
Distante dos poderes tradicionais estabelecidos pelo poder no mundo, ativistas antiglobalização se posicionam claramente contra o poderio norte-americano sobre sua cultura, seja utilizando as facilidades tecnológicas que a própria globalização criou, através da Internet, ou nos bloqueios humanos estabelecidos nas ruas, sempre que os líderes dos países ricos agendam encontros e reuniões para decidir o “futuro do mundo”.
“TAZ – Zona autônoma temporária” é o livro que dá início à coleção e descreve uma teoria segundo a qual o poder institucionalizado pode ser combatido através da criação de espaços de liberdade, físicos ou virtuais, que surjam e desapareçam constantemente, de modo a dificultar qualquer tipo de controle, de fora ou de dentro do movimento. O autor é um misterioso Hakim Bey, que nunca foi fotografado ou apareceu em público, tendo divulgado suas idéias voluntariamente pela Internet, já que ele próprio é contra os direitos autorais.
Segundo consta, “TAZ” foi lançado no final dos anos oitenta, mas seus efeitos só foram notados a partir de fatos mais recentes. Essa teoria posta em prática, acreditam alguns, é encontrada na estratégia da ação anticapitalista registrada em “Urgência das ruas”, outro volume da coleção, nos hackers politizados que minam as ações governamentais na Internet, e utilizada ainda pelos organizadores da raves inglesas, para escapar das restrições provocadas pelo governo.
Novas formas de luta
“Urgência das ruas” apresenta uma coletânea com vários textos que relatam a preparação dos movimentos antiglobalização, a ação propriamente dita, nas ruas, incluindo os enfrentamentos corpo-a-corpo com a polícia, as denúncias de abusos diversos por parte da repressão policial oficial e a estratégias maquinadas para novos enfrentamentos. Os textos, quase todos, apesar de não assumido pelos autores, têm um forte cunho anarquista, onde a falta de uma liderança convencional e a capacidade de organização espontânea dos ativistas são motivos de orgulho para os participantes.
Com o intuito de preservar a integridade física de seus autores, ou mesmo para manter esse caráter anti-hierárquico, os textos ou não são assinados ou são atribuídos a autores com nomes fictícios, o que lhes confere um certo ar de subversão e clandestinidade. Já o prefácio, assinado por um certo Ned Ludd, organizador dos textos, defende a diversidade de idéias e ações, e rechaça o termo “movimento antiglobalização”, criado pela mídia, segundo ele, para impor limites aos “Dias de ação global”. Dividido em capítulos que se referem à ação dos ativistas em datas em que os líderes do mundo capitalista se reuniram, “Urgência das ruas” cita muitos dos movimentos anticapitalistas, como o “Reclaim The Streets”, os “Black Blocks” e o “Tute Bianche”, discutindo idéias, mostrando estratégias e registrando fatos, sempre sem o compromisso comercial estabelecido na mídia.
O “Critical Art Ensemble” é o grupo responsável pelo volume “Distúrbio eletrônico”, que pretende redefinir o espaço virtual criado pelos avanços tecnológicos da comunicação, sobretudo com a Internet. Segundo o grupo, formado por cinco anônimos ativistas que buscam a interseção entre arte, teoria crítica, tecnologia e política radical, o espaço virtual nada mais é do que um novo campo de batalha, para onde as tecnologias criadas pelo grande capital tem levado todos nós.
Quando, após a fim da guerra fria, os Estados Unidos resolveram faturar comercialmente com a expansão das Internet, o mais pessimista dos visionários não deve ter pensado na hipótese dela ser usada contra seu próprio criador. “Distúrbio eletrônico” faz uma viagem no tempo, buscando traçar paralelos interessantes entre relações do trabalho e da condição humana de trezentos anos antes de Cristo, com as de 2000 depois.
A estratégia de não revelar os autores dos textos atinge o extremo com Luther Blissett, que é mais do que simplesmente um nome fictício. Além de esconder o verdadeiro autor dos textos ajuntados em “Guerrilha psíquica”, outro volume da “Coleção Baderna”, o nome tem servido, segundo o próprio livro, para esconder qualquer pessoa que queira se passar por Luther Blissett. Nasceu de um estranho convite lançado em meados dos anos 90, nas ruas, em encontros de mobilização antiglobalização, e (mais uma vez) pela Internet, para que todos passassem a ser Luther Blissett, de modo que todos, sob esse nome, pudessem fazer qualquer coisa em todos os lugares. A idéia pegou, e várias pessoas se assumiram como Luther Blisett em várias partes do mundo, numa condição mezzo virtual, mezzo real. O objetivo, segundo o livro, é “promover a sabotagem cultural e a guerrilha tecnológica contra a cultura dominante”. Os textos que foram distribuídos, via Internet ou nas manifestações antiglobalização, estão aqui relacionados, registrando muitas das passagens em que Luther Blisett, seja na pele de quem ele estava encarnado, se manifestou.
Primórdios da contracultura
“Provos” é o único livro assinado por um único autor. Autor mesmo, de carne e osso. O italiano Matteo Guarnaccia, artista, ensaísta e escritor, é um dos principais representantes da chamada “psicodelia européia”, e traz a história de parte dos precursores do movimento hippie e da contracultura. “Provos”, de “provocadores”, é nome dado a um grupo de pessoas que, no início dos anos sessenta, se reunia em Amsterdã com objetivo de repensar os caminho que as suas vidas estavam tomando dentro de uma sociedade de consumo. Segundo o autor, o pensamento libertário desenvolvido pelos “provos” não foi difundido por todo o mundo porque o grupo se formou em uma cidade fora do eixo anglo-saxão, e portanto com um idioma pouco difundido, e pelo fato de poucos porta-vozes, ou quase nenhum, integrado na música pop, ter saído dali. Sem falar é claro da pujança norte-americana, que pouco deve ter procurado saber antes de se declarar o “berço da contracultura” mundial. “Provos”, o livro, está aí então para se tirar um atraso histórico e se fazer justiça com os fatos.
Os jovens holandeses, entre os anos de 1965 e 1967, formaram o primeiro foco de política da juventude, sem vínculo ideológico, mas com um novo estilo de vida calcado na liberdade individual e (já) na convivência com o meio-ambiente. Antes do flower power, do maio de 68 e mesmo da consolidação pop através da explosão da beatlemania e do apelo cancioneiro-poético de Bob Dylan, os “provos” fincaram o pensamento da contracultura, deixando, até hoje, sua herança em Amsterdã, uma das cidades mais liberais, tolerantes e avançadas do planeta.
Outra coletânea é “Situacionista”, que tenta explicar a as idéias da Internacional Situacionista, movimento criado na Itália no final dos anos 50, da fusão de outros grupos pequenos. Na verdade, a IS não chegou a ter mais do que dez integrantes ao mesmo tempo. Apesar do nome, a idéia principal dos situacionistas girava em torno de se apossar de certas benesses do sistema para com bater o próprio sistema, seja através dos mesmos métodos utilizados, ou se valendo da prática subversiva. Nesse sentido, uma das práticas do grupo, só para se ter uma idéia, era pegar os quadrinhos norte-americanos, com seus super heróis, e reescrever os balões das histórias com falas de cunho revolucionário.
A introdução, escrita por uma suspeita Marietta Baderna (provavelmente o codinome de alguém que não quis aparecer) conta uma certa cronologia do movimento situacionista, ao passo que os cinco capítulos são reproduções fiéis dos textos e manifestos da época. Numa época em que a esquerda mundial ainda está pisando em ovos, a ideologia situacionista pode servir como uma boa contribuição.
Se depois da queda do muro de Berlim, um único bloco neoliberal tomou conta da situação, caducando as esquerdas em todo mundo, os movimentos antiglobalização, muitas vezes considerados radicais e incompreendido pelo conceito midiático de democracia, começam a mostrar que é possível resistir à praga capitalista sob a qual todos estamos submetidos. Nesse sentido, as publicações da “Coleção Baderna” furam o bloqueio das grandes editoras e se transformam, de cara, em leitura obrigatória para quem não está conformado com o estado das coisas, e ainda interessado na possibilidade de mudança, seja ela qual for.
"Marietta Baderna (provavelmente o codinome de alguém que não quis aparecer)".
Prezados amigos, Maria (Marietta) Baderna jamais foi um codinome de alguém que não quis aparecer, mas uma importante bailarina italiana, que por motivos políticos veio para o Rio em 1849.
Sua popularidade gerou até brigada de rua pelos jovens da época, razão pela qual, seu sobrenome ficou associado à bagunça, arruaça.
Sugiro-lhes lerem o livro de Silverio Corvisieri "Maria Baderna, a baillarina de dois mundos", escrito na Itália e lançado no Brasil ´há alguns anos.
Atenciosamente,
Eliana Caminada (bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, docente do curso superiro de dança da UnverCidade)