Bola e Bola Mesmo
06 de julho de 2006
A força italiana contra a malemolência francesa
Final da Copa promete duelo da força e da aplicação tática contra a técnica e a cadência dos mais experientes.

Não sei se já é hora de receber os louros da vitória, mas é preciso dar a César o que é de César. Disse aqui, há algum tempo, que Copa do Mundo só ganha quem já ganhou e que só ganha pela primeira vez quem joga em casa. Que quem venceria seria uma seleção da Europa. E que, entre os quatro primeiros colocados, haveria um azarão da mesma Europa. Independente do que aconteça no domingo, em Berlim, tudo isso já aconteceu. Não é previsão, não. É que Copa do Mundo é assim mesmo. Podem apostar.

Gostei das semifinais. Jogos que fizeram jus à sua tradição, importância, à competição em si e às equipes envolvidas. Não sou do tipo que liga a TV ou vai ao estádio a fim de ver só um tipo de futebol, de dribles, lindas jogadas e espetáculo. Gosto disso também, claro, mas sei apreciar o comportamento tático das equipes, valorizar estratégias, reconhecer limitações, golpes de sorte, imponderabilidades e outras artimanhas desse joguinho bom de se ver. Por isso aplaudo tanto o lençol de Zidane – que em nada contribui pra o resultado do jogo – como a indefectível marcação italiana que tem Cannavaro como estrela maior. É tudo bonito de se ver.

Alemanha e Itália fizeram um partidaço. Um jogo estudado no início, com chances que foram aparecendo aos poucos até desaguar numa prorrogação formidável, sem futebol espetáculo, mas com força e disposição dos jogadores, até os 13 da segunda etapa. A prorrogação, como num roteiro de filme de ação, guardou para o final os momentos mais emocionantes do jogo, numa partida daquelas que, no estádio, não dá para ficar sentado. Pela TV, se torce ao mesmo tempo para seu time marcar e não levar; para o árbitro acabar o jogo logo, antes que o adversário triunfe, mas que dê, ao mesmo tempo, um acréscimo maior para que seu time vença. Nessas horas é muito cômodo já ter sido eliminado da Copa. Ao mesmo tempo, se torce para o sucesso e o fracasso de todos.

Todos pensavam nos pênaltis quando, no meio de um nervosismo do cão, o meia Pirlo domina uma bola na entrada da grande área e sem pressa alguma espera, espera, e ajeita uma bola com açúcar e com afeto para o lateral Grosso colocá-la no canto direito de Lehmann, praticamente com as mãos. O chute de Grosso, que de grossura nada teve, lembrou muito o de Rivaldo no gol do Brasil contra a Inglaterra nas quartas de final em 2002. Precisão cirúrgica. Assim como aquele foi metade de Ronaldinho, que iniciou uma arrancada sensacional, este tem o mérito de Pirlo – qualquer seleção da Copa eu não inclua o meia/volante estará sendo injusta. Seria o fim do jogo, o golpe mortal, se Cannavaro não iniciasse um contra ataque perfeito e singular, que terminou num golaço, pelo conjunto da obra, de Del Piero. Aí caiu a ficha.

Caiu a ficha de um país lindo como Alemanha, que percebeu que não tinha, de fato, uma grande equipe. Uma equipe que foi levando a Copa no embalo, no esforço de jogadores medianos como o semicontundido Ballack, alçado à craque do time. No esforço de jovens como Podolsky e no oportunismo de Klose, que só fez um bom jogo, contra a Suécia, e é – até aqui - o artilheiro da Copa. Numa defesa insegura, sim, mas firme na vontade e no coração. E com destaques aqui e acolá, como o lateral Lahm, o meia Schweinsteiger e o volante brigão Frings. Um time que teve o belo reconhecimento de sua torcida, e deve ser muito festejado no sábado, na disputa pelo terceiro lugar.

Ontem, como era de se esperar, a técnica, categoria e experiência enfrentaram a brutalidade. Que me desculpem os portugueses, mas sua seleção, com Felipão, nada mais é uma versão piorada daquele Grêmio ou daquele Palmeiras dos anos 90. E isso com o defeito de não ter um grandalhão cabeceador como Oséias ou Jardel. Figo e Cristiano Ronaldo abrem pelas extremas, recuados, e metem um milhão de bolas para área, onde Pauleta nada faz. A alternativa são os chutes de longe de Maniche e Portugal para aí. O resto é porrada, marcação, simulação, reclamação e outras manias do bruto Felipão. Só mesmo Portugal para admitir esse tipo de comportamento. Que fique por lá. Para sempre.

A França, ao contrário, joga com técnica, muito embora nem tenha tantos craques assim. Tanto que, próxima de nem ir para a Copa, foi tirar da aposentadoria voluntária – ainda bem - craques como Zidane, Thuram e Trezeguet. De certa forma, o esquema do astrólogo Domenech se assemelha ao de Portugal, com Malouda e Ribery abertos (só que entrando em diagonal) e Henry na frente. O lance capital da partida, aliás, nasceu assim dos pés de Malouda. A diferença é que, no meio, Zidane e Viera controlam o jogo e Makelele dá conta do resto. O problema, entretanto, é que a França é uma equipe de idade avançada e cansada, de modo que, ao fazer um gol, se segura até o jogo acabar, cozinhando o galo. Mas Portugal, assim como o Brasil, não conseguiu apertar o ritmo. Um por falta de disposição, e o outro, por ruindade mesmo.

Pensando assim, basta a Itália partir pra dentro no domingo que ganha a Copa. O problema é que, por tradição, a seleção italiana não gosta de atacar. Ao menos não durante todo o jogo. E também, honra seja feita, Totti está jogando muito pouco, e os atacantes italianos não estão com essa bola toda, não. Para vencer a equipe italiana tem se valido do passe de Pirlo, dos avanços de Grosso (Alemanha, Austrália) e de Zambrotta (Ucrânia), e de seu sistema defensivo exuberante, realçado por Cannavaro e Buffon, que só levou um gol (contra, numa pixotada de Zaccardo), no jogo contra os Estados Unidos, ainda na primeira fase. A Itália só não pode deixar Zidane dominar o meio, nem levar gol. Porque senão os franceses vão enrolar o jogo até o final.

O jogo, como toda final, é imprevisível, até pela tradição envolvida. Como não sou de ficar no muro, e evocando essa mesma tradição, vou de Itália. Na disputa pelo terceiro lugar, torço pela Alemanha. Um desfecho que o país sede merece.

Seleção da Copa nas semifinais:

Buffon (Itália), Zambrotta (Itália), Cannavaro (Itália), Thuram (França) e Grosso (Itália); Meira (Portugal), Ballack (Alemanha), Pirlo (Itália) e Zidane (França); Klose (Alemanha) e Henry (França).

Até a próxima, que vai dar pizza na final!!!

em julho 6, 2006 08:36 PM [Marcelo]

Bragatto, o Felipão valoriza o espetáculo. Não dá para negar que ele põe o coração nos times em que passa. Ele é no futebol o que Clint Eastwood foi no boxe, no filme Menina de Ouro.



em julho 6, 2006 10:48 PM [Bragatto]

Espetáculo de baixaria né? O cara só manda bater, simular, reclamar, tumultuar... Pra mim ele só teria vez num vale-tudo. E ainda assim era capaz de ser advertido por má conduta.



em julho 8, 2006 02:14 AM [gustavo]

Implicância cada um tem a sua... Eu implico com o Ronaldinho Gaúcho... O pai do meu colega com o Zidane e o Bragatto com o Felipão... Você enxergou um estilo de jogo para Portugal que definitivamente eu nao vi... Mas implicância cada um tem a sua.



em julho 8, 2006 07:08 PM [Bragatto]

Não é implicância, não, Gustavo. São os fatos.



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