Bola e Bola Mesmo
04 de julho de 2006
A eliminação, vitórias e derrotas
Que o Brasil não venceria uma Copa na Europa era previsível, afinal não se pode vencer sempre. Mas poderíamos ter feito um melhor papel.

Não é todo dia que se começa uma coluna sobre futebol falando de uma eliminação precoce da seleção brasileira em uma Copa do Mundo. Para ser mais preciso, isso não acontece desde 1990, quando Maradona ignorou o domínio daquela seleção, nos mandou pra casa mais cedo e foi inspiração para a criação do termo “era Dunga”, desfeito quatro anos depois com o próprio Dunga erguendo a Taça. Quem tem menos de vinte anos, portanto, sofre a primeira derrota de uma seleção que ficou três Copas do Mundo no topo. Sábado, dizem, foi Zidane que acabou com o jogo. Discordo.

Cada qual pode procurar a razão para o Brasil ter perdido o jogo das quartas de final. Mas eu afirmo: perdemos porque a França fez um gol; e nós, nenhum. Quem era melhor, quem jogou melhor, isso não tem a menor importância. Uma derrota clássica como essa não requer explicação, e os jogadores não vão dar (não têm dado) nenhuma plausível. Nem Carlos Alberto Parreira. Todos querem ouvir o inexplicável, porque a explicação está no placar: 1 a 0. E se o regulamento diz que nas quartas de final, quem perde está fora, estamos fora. E ponto final.

Agora, análises é que não faltam. Repórteres, comentaristas, apresentadores precisam escrever, falar, dar notícias. É assim que o mundo funciona. E é isso que eu vou fazer. O time da França jogou melhor que o do Brasil. Estava melhor distribuído em campo, mais organizado e, ainda, com mais vontade. Não que nossos craques não quisessem vencer o jogo. Queriam, sim, mas não encontravam forças para agredir o time francês e nem para reagir ao gol de Henry. A França foi melhor não porque Zidane acabou com o jogo. Não foram os lençóis que ele aplicou em alguns dos nossos craques ou dois ou três dribles bonitos em seqüência que deram a vitória à equipe francesa. Foi o time da França que esteve melhor o tempo todo. Até o gol de Henry, por exemplo, o jogo estava quase igual, com um pequeno domínio territorial da França, que, como o Brasil, pouco concluía em gol. Com o tento francês, vimos um grande clichê do futebol moderno. A equipe que fez o gol recuada e partindo para os contra ataques. Clichê que só não se completou porque o Brasil não partiu pra cima com a voracidade que tinha a obrigação de ter.

Primeiro que o técnico Carlos Alberto Parreira – que atendera à imprensa escalando Juninho – demorou para mexer no time, e quando o fez, ao invés de por Robinho, para dar velocidade e criatividade ao time, colocou Adriano. Bem mais tarde, a treze minutos do final, fez enfim Robinho entrar, e a equipe, já sem pernas, até que melhorou. Mas era tarde. Depois, que nossos craques estavam irreconhecíveis. Em momentos difíceis numa partida de futebol é que o craque tem que aparecer e tentar – ao menos – mudar o jogo. É o que chamam no futebol de “chamar a responsabilidade”. Mas Kaká, Ronaldinho, Ronaldo... Nenhum deles fez isso. A alternativa poderia passar pelo avanço dos laterais, mas sabemos todos, eles não são mais os mesmos. E aí Parreira falhou de novo, ao demorar a colocar Cicinho em campo. Como se vê, deixamos o vovô Zidane fazer o nome às nossas custas.

Se a vitória traz o júbilo, a derrota, a raiva e indignação. Mesmo dos profissionais de imprensa, de quem se espera uma certa sobriedade, partem as críticas mais exacerbadas. E sobra para todo mundo, ao menos no momento imediatamente após a derrota. Porque, acredito, essa eliminação só vai ser digerida com o passar do tempo. Aliás, já está sendo. Já vi comentaristas recuarem em determinados comentários. Eu próprio, após a derrota, comecei a escrever este texto um tom, e hoje já passei para outro – e olha que desde sempre afirmei que o Brasil não venceria e que Ronaldinho não arrebentaria. Mas perder não é fácil, não. É chato pra cacete.

De qualquer forma, é preciso ir com calma. Parreira, que na derradeira partida me pareceu – olhando depois – atônito, perdido, sem saber o que fazer, foi quem nos conduziu à quebra de um jejum de 24 anos sem vencer. Boa parte dos jogadores eliminados no sábado fez parte da campanha do penta, e dois deles – Cafu e Ronaldo – estiveram na do tetra. Outros jogadores foram muito bravios nas suas funções, como Zé Roberto, Lúcio, Juan, Gilberto Silva, Robinho e Dida. E outros que sumiram, como Kaká e Ronaldinho, podem, sim, brilhar daqui a quatro anos. Não se iludam os mais jovens porque não se vai para um Copa só com jogadores novos. É preciso usar essa derrota como aprendizado e combustível para a próxima conquista. Foi assim de 66 para 70, e de 90 para 94, só para ficarmos com dois exemplos. Mas que a seleção precisa de renovação, isso precisa.

Mas a Copa continua, e vimos, ainda nas quartas de final, a Argentina cair nos pênaltis ante a Alemanha. Os argentinos não mereciam, nem precisavam disso. Mandavam relativamente na partida, venciam por uma a zero – o que é muito num jogo desse tipo – quando, súbito, o técnico Jose Pekerman saca Riquelme, o cérebro do time (que realmente não vinha bem) e coloca o bom volante Cambiasso. Tira Crespo e coloca Julio Cruz, espécie de Crouch melhorado. Foi como se desfraldasse uma imensa bandeira dizendo aos alemães: “venham nos atacar!”. E eles foram. E mesmo sem brilho, empataram o jogo e venceram nos penais. Se Riquelme vinha mal, por que não colocar Pablo Aimar? Ou mesmo Messi? Se Crespo cansou, por que não o esperto Saviola? Pekerman já recuara a equipe contra Costa do Marfim e tomou sufoco. Contra Sérvia & Montenegro manteve o time no ataque e goleou. Mas não aprendeu. Não dá para entender.

A Inglaterra também saiu os pênaltis, mas mostrou um futebol aguerrido que parecia ela, sim, ser a Argentina. Sem Michael Owen, fora da Copa por contusão, e com a expulsão do bad boy Wayne Rooney, o time inglês se viu sem seu ataque titular, e dependeu do desengonçado Peter Crouch. Pior, no início do segundo tempo, ficou sem David Beckham, que saiu contundido. Mesmo assim partiu pra cima e encurralou a fraca equipe de Portugal, que ganhou nos pênaltis. Sorte de Portugal e de Felipão? Sim, mas não dá para explicar como jogadores como Gerrard e Lampard, cuja especialidade é justamente “bater na bola”, tenham perdido suas cobranças. Lampard, se a memória não me falha, não acertou um chute sequer no gol dos adversários, em toda a Copa. Parecia até atacante de Gana.

E a Itália, que sempre foi adepta do drama e das goleadas de um a zero, se livrou da chata Ucrânia com um categórico 3 x 0. Hoje, pega uma Alemanha embalada, num jogo certamente imprevisível, empatado até no número de títulos de cada seleção – três pra cada uma. Deve ser um jogaço, tomara que repitam as emoções da histórica semifinal de 70, quando o jogo terminou empatado em um a um no tempo normal, e na prorrogação deu 4 x 3 para a Itália. Mas hoje, por jogar em casa, acho que dá Alemanha. Com drama, que é melhor. Na outra partida, temos uma França cansada, mas embalada, afinal, eliminou o grande favorito. E um Portugal fraco, mas motivado por um insano Felipão. Pela tradição, vou de França. Mas, nos dois jogos, tudo pode acontecer. (Hora de lembrar a classificação do brasileirão, né?)

Seleção da Copa nas quartas de final:

Ricardo (Portugal), Miguel (Portugal), Cannavaro (Itália), Ayala (Argentina) e Lahm (Alemanha); Maniche (Portugal), Frings (Alemanha), Zé Roberto (Brasil) e Zidane (França); Klose (Alemanha) e Henry (França).

Até a próxima, que tá pintando um tetracampeão!!!

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