
Cada qual pode procurar a razão para o Brasil ter perdido o jogo das quartas de final. Mas eu afirmo: perdemos porque a França fez um gol; e nós, nenhum. Quem era melhor, quem jogou melhor, isso não tem a menor importância. Uma derrota clássica como essa não requer explicação, e os jogadores não vão dar (não têm dado) nenhuma plausível. Nem Carlos Alberto Parreira. Todos querem ouvir o inexplicável, porque a explicação está no placar: 1 a 0. E se o regulamento diz que nas quartas de final, quem perde está fora, estamos fora. E ponto final.
Agora, análises é que não faltam. Repórteres, comentaristas, apresentadores precisam escrever, falar, dar notícias. É assim que o mundo funciona. E é isso que eu vou fazer. O time da França jogou melhor que o do Brasil. Estava melhor distribuído em campo, mais organizado e, ainda, com mais vontade. Não que nossos craques não quisessem vencer o jogo. Queriam, sim, mas não encontravam forças para agredir o time francês e nem para reagir ao gol de Henry. A França foi melhor não porque Zidane acabou com o jogo. Não foram os lençóis que ele aplicou em alguns dos nossos craques ou dois ou três dribles bonitos em seqüência que deram a vitória à equipe francesa. Foi o time da França que esteve melhor o tempo todo. Até o gol de Henry, por exemplo, o jogo estava quase igual, com um pequeno domínio territorial da França, que, como o Brasil, pouco concluía em gol. Com o tento francês, vimos um grande clichê do futebol moderno. A equipe que fez o gol recuada e partindo para os contra ataques. Clichê que só não se completou porque o Brasil não partiu pra cima com a voracidade que tinha a obrigação de ter.
Primeiro que o técnico Carlos Alberto Parreira – que atendera à imprensa escalando Juninho – demorou para mexer no time, e quando o fez, ao invés de por Robinho, para dar velocidade e criatividade ao time, colocou Adriano. Bem mais tarde, a treze minutos do final, fez enfim Robinho entrar, e a equipe, já sem pernas, até que melhorou. Mas era tarde. Depois, que nossos craques estavam irreconhecíveis. Em momentos difíceis numa partida de futebol é que o craque tem que aparecer e tentar – ao menos – mudar o jogo. É o que chamam no futebol de “chamar a responsabilidade”. Mas Kaká, Ronaldinho, Ronaldo... Nenhum deles fez isso. A alternativa poderia passar pelo avanço dos laterais, mas sabemos todos, eles não são mais os mesmos. E aí Parreira falhou de novo, ao demorar a colocar Cicinho em campo. Como se vê, deixamos o vovô Zidane fazer o nome às nossas custas.
Se a vitória traz o júbilo, a derrota, a raiva e indignação. Mesmo dos profissionais de imprensa, de quem se espera uma certa sobriedade, partem as críticas mais exacerbadas. E sobra para todo mundo, ao menos no momento imediatamente após a derrota. Porque, acredito, essa eliminação só vai ser digerida com o passar do tempo. Aliás, já está sendo. Já vi comentaristas recuarem em determinados comentários. Eu próprio, após a derrota, comecei a escrever este texto um tom, e hoje já passei para outro – e olha que desde sempre afirmei que o Brasil não venceria e que Ronaldinho não arrebentaria. Mas perder não é fácil, não. É chato pra cacete.
De qualquer forma, é preciso ir com calma. Parreira, que na derradeira partida me pareceu – olhando depois – atônito, perdido, sem saber o que fazer, foi quem nos conduziu à quebra de um jejum de 24 anos sem vencer. Boa parte dos jogadores eliminados no sábado fez parte da campanha do penta, e dois deles – Cafu e Ronaldo – estiveram na do tetra. Outros jogadores foram muito bravios nas suas funções, como Zé Roberto, Lúcio, Juan, Gilberto Silva, Robinho e Dida. E outros que sumiram, como Kaká e Ronaldinho, podem, sim, brilhar daqui a quatro anos. Não se iludam os mais jovens porque não se vai para um Copa só com jogadores novos. É preciso usar essa derrota como aprendizado e combustível para a próxima conquista. Foi assim de 66 para 70, e de 90 para 94, só para ficarmos com dois exemplos. Mas que a seleção precisa de renovação, isso precisa.
Mas a Copa continua, e vimos, ainda nas quartas de final, a Argentina cair nos pênaltis ante a Alemanha. Os argentinos não mereciam, nem precisavam disso. Mandavam relativamente na partida, venciam por uma a zero – o que é muito num jogo desse tipo – quando, súbito, o técnico Jose Pekerman saca Riquelme, o cérebro do time (que realmente não vinha bem) e coloca o bom volante Cambiasso. Tira Crespo e coloca Julio Cruz, espécie de Crouch melhorado. Foi como se desfraldasse uma imensa bandeira dizendo aos alemães: “venham nos atacar!”. E eles foram. E mesmo sem brilho, empataram o jogo e venceram nos penais. Se Riquelme vinha mal, por que não colocar Pablo Aimar? Ou mesmo Messi? Se Crespo cansou, por que não o esperto Saviola? Pekerman já recuara a equipe contra Costa do Marfim e tomou sufoco. Contra Sérvia & Montenegro manteve o time no ataque e goleou. Mas não aprendeu. Não dá para entender.
A Inglaterra também saiu os pênaltis, mas mostrou um futebol aguerrido que parecia ela, sim, ser a Argentina. Sem Michael Owen, fora da Copa por contusão, e com a expulsão do bad boy Wayne Rooney, o time inglês se viu sem seu ataque titular, e dependeu do desengonçado Peter Crouch. Pior, no início do segundo tempo, ficou sem David Beckham, que saiu contundido. Mesmo assim partiu pra cima e encurralou a fraca equipe de Portugal, que ganhou nos pênaltis. Sorte de Portugal e de Felipão? Sim, mas não dá para explicar como jogadores como Gerrard e Lampard, cuja especialidade é justamente “bater na bola”, tenham perdido suas cobranças. Lampard, se a memória não me falha, não acertou um chute sequer no gol dos adversários, em toda a Copa. Parecia até atacante de Gana.
E a Itália, que sempre foi adepta do drama e das goleadas de um a zero, se livrou da chata Ucrânia com um categórico 3 x 0. Hoje, pega uma Alemanha embalada, num jogo certamente imprevisível, empatado até no número de títulos de cada seleção – três pra cada uma. Deve ser um jogaço, tomara que repitam as emoções da histórica semifinal de 70, quando o jogo terminou empatado em um a um no tempo normal, e na prorrogação deu 4 x 3 para a Itália. Mas hoje, por jogar em casa, acho que dá Alemanha. Com drama, que é melhor. Na outra partida, temos uma França cansada, mas embalada, afinal, eliminou o grande favorito. E um Portugal fraco, mas motivado por um insano Felipão. Pela tradição, vou de França. Mas, nos dois jogos, tudo pode acontecer. (Hora de lembrar a classificação do brasileirão, né?)
Seleção da Copa nas quartas de final:
Ricardo (Portugal), Miguel (Portugal), Cannavaro (Itália), Ayala (Argentina) e Lahm (Alemanha); Maniche (Portugal), Frings (Alemanha), Zé Roberto (Brasil) e Zidane (França); Klose (Alemanha) e Henry (França).
Até a próxima, que tá pintando um tetracampeão!!!