Bola e Bola Mesmo
11 de julho de 2006
A Copa do...
Veja os destaques da Copa do Mundo de 2006.

Andaram dizendo que a final da Copa o Mundo foi uma pelada, mas só diz isso que nunca jogou uma. Pelada é o que se chama no Rio de um jogo de amadores sem compromisso, mais uma confraternização do que uma partida propriamente dita. Numa pelada praticamente não há posições fixas, todo mundo corre é atrás da bola, e, conseqüentemente, os placares são altos, do tipo cinco a quatro, oito a sete e por aí vai. Numa pelada nunca existiu esquema tático. Como se vê, exatamente o contrário da final de anteontem.

Tática, estratégia, preocupação, isso sim teve na final. Jogo bonito, não. Ou por outra, teve, sim, em lances esparsos nos 120 minutos. Lembro-me da cabeçada de Zidane que Buffon salvou. Mas logo e seguida me vem à cabeça a cabeçada dele no peito de Materazzi. Que papelão, hein, Zidane? Sai como craque da Copa anunciado ontem, mas debaixo de uma vaia colossal, de mais de cinco bilhões de vozes. Mas pelada aquele jogo não foi, não. Uma pelada nunca se decide nos pênaltis. Quem já jogou sabe.

Quem chamou a final de pelada quis dizer que o jogo foi ruim. E foi mesmo. Um jogo tipicamente europeu, numa Copa que também foi assim. Argentina e Brasil vacilaram e viram pela TV uma final com duas equipes que não chegam os pés das suas. Mas Copa do Mundo é assim mesmo. Ainda bem que eu disse aqui – não custa repetir – que o Brasil não venceria, que o vencedor seria um europeu, que seria Alemanha, Inglaterra ou Itália, e que Portugal seria o azarão da vez, assim como foram Turquia, Croácia e Bulgária nas últimas Copas. No jogo, a França, tirando forças sabe-se lá de onde, foi melhor, e a Itália fez o jogo dramático que lhe convém. Parece até que os italianos são mestres em vencer nos pênaltis – ontem foi a primeira vez que isso aconteceu.

Não há muito o que falar, a não ser dar os parabéns aos italianos e esperar mais quatro anos para tudo recomeçar. Dentro as quatro linhas, mas fora do futebol em si, outros aspectos culturais que marcaram a Copa estão aí embaixo. Quem tiver paciência de ler tudo vai acabar gostando, No fim, como ninguém é de ferro, meus destaques de cada seleção e a minha seleção da Copa. Divirtam-se.

Uniformes

Foi a Copa em que marcas alternativas como a Puma tomou o lugar de outras tradicionais como Adidas, Nike e Umbro. As fabricantes parecem que desistiram daquele modelo de camisas e calções duplos, responsável pela cena patética de Edmílson, na final da Copa de 2002, que não conseguia vestir a camisa de jeito nenhum, e por fazer os atletas trajarem verdadeiras anáguas. Mudou também o tecido, e era possível ver jogadores com a camisa grudada ao corpo pelo suor.

Outra iniciativa louvável foi ver cada seleção patrocinada por uma mesma marca, com uniformes com sutis diferenças que davam identidade a cada equipe. Assim, as camisas de Brasil e Portugal, por exemplo, mesmo sendo da Nike, apresentavam essas diferenças. Quem pisou na bola, em alguns jogos, foi a FIFA, ao determinar que a seleções jogassem com uniformes reservas mesmo quando não havia necessidade. Por exemplo, contra o Japão, o Brasil poderia muito bem ter jogado de calções azuis, e os japoneses, de branco. Já em Argentina e Alemanha, as duas seleções jogaram de calções pretos, fugindo à determinação da própria FIFA. Se dependesse de mim, valeria a tradição, e as seleções com mais títulos teriam sempre o direito de usar seus uniformes principais.

A Adidas continua sendo a eterna fornecedora de material da FIFA, e até que foi bem na indumentária da arbitragem, discreta como tem que ser. A polêmica ficou com a bola, que andou pregando peça em muitos goleiros. Mas como ela é uma só no jogo, não há o que reclamar.

Arbitragem

Nenhum roubo clamoroso marcou essa Copa, como aconteceu em 2002, 1978 e 1966. Os erros dos árbitros foram corriqueiros, salvo exceções como aquele juiz que deu três cartões para o jogador croata numa única partida. Os auxiliares também estiveram muito bem, quase não houve erros em marcações de impedimento. Pecaram, todos eles, na hora de demarcar a distância da barreira nas faltas, e talvez daí se explique o baixo número de gols de falta nessa Copa. E também no atendimento aos contundidos que demoravam muito. Alguém pode explicar onde foram para o spray da barreira e o carrinho da maca?

A maior polêmica aconteceu mesmo na final, quando Horacio Elizondo expulsou Zidane não porque ele ou o auxiliar tenham visto a agressão, mas por um aviso do quarto árbitro, Medina Cantalejo, que, segundo consta, teria visto uma imagem num monitor, à beira do gramado. O fato abre o precedente para a adoção tão reivindicada de recursos eletrônicos na arbitragem. Vamos ver no que vai dar.

Locutores

Guardadas as diferenças entre as especialidades de cada um, até que os locutores das nossas TVs não foram tão mal assim. Galvão Bueno continua o líder na rejeição, não porque faz o tipo “animador do povão”, mesmo porque está na maior TV aberta do país, mas por se desconcentrar da narração em si para dar opinião sobre assuntos diversos ou discutir com os comentaristas. Outra falha grave é ele simplesmente não estudar a pronúncia correta do nome dos jogadores em todas as línguas, sendo às vezes até grosseiro. Nesse quesito Luiz Carlos Júnior, do Sportv, segue imbatível. Ele se prepara e não erra uma, do croata ao ganês, sabe como falar.

Ainda na Globo o simpático Cléber Machado enfrentou diversos problemas, trocando o nome de jogadores, seleções e resultados. Numa partida chamou Togo de Senegal o tempo todo, e chegou a gritar “pol” (gol + Portugal?) quando Portugal converteu o último pênalti na disputa com a Inglaterra. O cara precisa urgentemente descobrir o que está acontecendo com sua memória.

Milton Leite estreou bem numa copa pelo Sportv, embora cometa o erro comum a todos os locutores de TV contemporâneos. Ficam conversando tanto e passando informações que se esquecem de narrar a ponto de perderem lances de gol, ou mesmo tratar com desdém um perigoso ataque. A ESPN Brasil nesse quesito nem conta, pois levou para a Alemanha uma equipe fraquíssima de narradores. Precisa contratar gente mais experiente com urgência. Com Amigão e João Palomino não dá.

Coberturas

Foi sem nenhuma dúvida a maior e mais diversificada cobertura de uma Copa em todos os tempos. Até os treinos do Brasil eram transmitidos ao vivo. A ESPN Brasil foi o primo pobre da transmissão, a começar pela qualidade de imagens, que mesmo gerada pela mesma empresa, perde assustadoramente em nitidez para aquelas exibidas na Globo e no Sportv. Por causa disso, a equipe de José Trajano tem que ser mais aguerrida e arrojada, para conseguir matérias com pautas diferenciadas. Os repórteres da emissora até tentaram, mas como superar gente do nype de Marcos Uchoa e Ernesto Paglia (que nem são de esportes) e o texto de Pedro Bassan e Tadeu Schmidt? A concorrência chega a ser desleal.

O problema desse aguerrimento é que alguns comentaristas acabam confundindo as coisas – não os elegantes Fernando Calazans, Márcio Guedes e Tostão – e, no papel de excluídos da grande mídia, travam um duelo infeliz com a própria seleção, por conta da proximidade desta com a Globo, que por ser a maior emissora do País, tem certas vantagens numa cobertura desse tipo. Seria melhor se a ESPN deixasse isso de lado, reconhecesse seu lugar e investisse no que ela tem de melhor: a opinião isenta, o conhecimento de causa e uma grande equipe de comentaristas. Por isso, sim, valia ver a ESPN.

No Sportv, alguns lampejos de boa opinião vinham quando alguns convidados ali estavam, como Renato Maurício Prado e Telmo Zanini. Paulo César Vasconcellos, embora grande frasista, depois que foi para o Sportv ficou muito erudito, buscando palavras “difíceis” onde não há necessidade de usá-las. Fazendo a linha genérica, o fraco Alex Escobar até que se saiu muito bem comentando tudo que era jogo, isso porque ele certamente estudava como jogava cada equipe. Essa, aliás, foi a grande falha de todos os comentaristas da Globo, nenhum eles sabia sequer como as seleções jogavam, qual o papel de cada jogador, etc. Uma verdadeira vergonha para a emissora, num campo em que a ESPN, acostumada a transmitir os campeonatos europeus, deitou e rolou, e onde PVC é rei.

Top five hinos

1- Brasil
2- Portugal
3- Suécia
4- Argentina
5- França

Destaques de cada seleção

Alemanha
Positivo: A disposição de partir pra cima e ganhar logo o jogo
Negativo: Ballack, que não conseguiu provar que é craque

Angola
Positivo: Ter conseguido chegar na Copa
Negativo: Não ter condições de disputar uma Copa

Argentina
Positivo: O gol mais bonito da Copa, de Cambiasso, contra Sérvia e Montenegro
Negativo: O técnico Jose Pekerman, que se recusou a vencer a Alemanha

Arábia Saudita
Positivo: Chegar à Copa
Negativo: Ainda não saber jogar bola direito

Austrália
Positivo: Não bateu tanto quanto se esperava
Negativo: O técnico Guus Hiddink reclamando da arbitragem que, quatro anos antes, o favoreceu na Coréia

Brasil
Positivo: A vontade de Zé Roberto
Negativo: Parreira, que se perdeu durante a Copa

Coréia do Sul
Positivo: Conseguiu empatar com a França
Negativo: Perder para a Suíça

Costa Rica
Positivo: Fez dois gols logo na estréia contra a Alemanha
Negativo: Não fez um ponto sequer

Costa do Marfim
Positivo: O bom time
Negativo: A falta de experiência

Croácia
Positivo: Quase não perdeu para o Brasil
Negativo: Perdeu a vaga nas oitavas para a Austrália

Estados Unidos
Positivo: Fez um dos melhores jogos da Copa contra a Itália
Negativo: Bateu muito

Equador
Positivo: Ter se classificado para as oitavas de final
Negativo: Amarelou diante de Alemanha e Inglaterra

Espanha
Positivo: Empolgou o início
Negativo: Foi eliminada cedo como sempre

França
Positivo: Ter chegado na final
Negativo: A cabeçada de Zidane no zagueiro Materazzi

Gana
Positivo: Único time africano a superar a primeira fase
Negativo: A falta de pontaria dos jogadores

Holanda
Positivo: O ponta Robben
Negativo: A barração dos jogadores mais experientes

Inglaterra
Positivo: A perseverança de David Beckham
Negativo: Os pênaltis perdidos por Lampard de Gerrard

Irã
Positivo: Nenhum
Negativo: Karimi, que diziam que era craque e não jogou nada

Itália
Positivo: O meia Pirlo
Negativo: Totti, que não jogou nada

Japão
Positivo: Serviu de experiência para o Zico
Negativo: Ainda não aprendeu a jogar

México
Positivo: Levou a Argentina para a prorrogação
Negativo: Não conseguiu vencer Angola

Paraguai
Positivo: Nenhum
Negativo: A renúncia ao ataque

Polônia
Positivo: O goleiro Boruc, que fechou o gol contra a Alemanha
Negativo: O goleiro Boruc, que tomou um frango contra a Costa Rica

Portugal
Positivo: O meia Maniche, que começou no banco e acabou na seleção da Copa
Negativo: A constante simulação dos jogadores

República Tcheca
Positivo: O meia Nedved
Negativo: O meia Rosicky, que prometeu muito no primeiro jogo e depois sumiu

Suécia
Positivo: A disposição de Ljungberg
Negativo: Ibrahimovic, que não jogou nada

Suíça
Positivo: Não levar gols
Negativo: Não fazer gols

Sérvia e Montenegro
Positivo: Não existir mais
Negativo: Deixar Petkovic fora da Copa

Togo
Positivo: Nenhum
Negativo: A greve que dos jogadores ameaçaram fazer para aumentar a premiação

Trinidad e Tobago
Positivo: Nenhum
Negativo: Baixar o pau

Tunísia
Positivo: Empatar com a Arábia Saudita
Negativo: Empatar com a Arábia Saudita

Ucrânia
Positivo: Chegar às quartas de final
Negativo: Shevchenko, que não jogou nada

Seleção da Copa

Titulares:
Buffon (Itália), Thuram (França), Ayala (Argentina), Cannavaro (Itália) e Lahm (Alemanha); Pirlo (Itália), Zé Roberto (Brasil), Nedved (República Tcheca) e Zidane (França); Henry (França) e Klose (Alemanha)

Reservas:
Cech (República Tcheca), Miguel (Portugal), Lúcio (Brasil), Rafa Marques (México) e Grosso (Itália); Maniche (Portugal), Maxi Rodriguez (Argentina), Vieira (França) e Riquelme (Argentina); Robben (Holanda) e Crespo (Argentina)

Até a próxima, na África do Sul!!!

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