Um dos mestres do blues de Chicago, embora tenhas nascido no Mississipi, Otis Rush deve ter demorado um bocado para tocar no Festival de Montreux, realizado anualmente na cidade suíça. Ao menos é o que aparenta o Mestre de Cerimônias que anuncia o show do músico, em 1986, e ainda agradece a ajuda de Eric Clapton, um dos dois amigos que faz jus ao título deste DVD. Rush deve ter gostado, pois ainda voltaria à Montreux em outras duas oportunidades, nos anos 90.
O que marca o show do canhoto Otis Rush é som limpo que tira de sua guitarra, num estilo bem próximo do de B.B. King e de Buddy Guy. Não por acaso, as duas primeiras músicas, “Tops” e “I Wonder Why” são instrumentais. Mas Rush mostra que sabe cantar bem no jeito blueseiro, em “Gambler’s Blues” e “Lonely Man”. O terninho das antigas e seu inseparável chapéu country dão um charme a mais ao show, no qual o guitarrista é escudado por uma excelente banda, segundo consta, rodada na noite de Chicago dos nos 80. Em algumas músicas o tecladista “Professor” Eddie Lusk chega a roubar a cena com uma incrível multiplicação de dedos.
Num set curto, de cerca de uma hora e meia, o melhor ficou para os últimos 40 minutos, com a entrada de Eric Clapton. O guitarrista é mestre em redescobrir antigos artistas do blues. De Otis Rush, gravou “Double Trouble”, uma das quatro músicas que os dois tocaram juntos, para delírio da platéia. Mas foi na primeira, “Crosscut Saw”, que Clapton já mostrava que a criatura havia superado o criador, e quase ofuscou o artista principal da noite, com incríveis riffs que a “limpeza” da guitarra de Rush não percebia. Na última música antes do bis, subiu ao palco um animado Luther Allison, que além de exímio guitarrista, se mostrou mais um grande performer. Allison chegou até a improvisar umas rimas ao “apresentar” Clapton e o anfitrião, durante a única música em que os três tocaram juntos, “Every Day I Have The Blues”, de Memphis Slim. Um final exuberante, aplaudido de pé e a altura da obra de Otis Rush.
O show ganhou também uma versão em CD, com apenas uma música a menos, “If I Had Any Sense, I’d Go Back Home”, tocada no bis sem os convidados.