Bola e Bola Mesmo
28 de junho de 2006
Os donos da bola
Equipes de tradição continuam levando a melhor na Copa.

Terminadas a oitavas de final da Copa 2006 os resultados não poderiam ser melhores. Para o Brasil e para a Copa. O Brasil eliminou Gana com um categórico três a zero, um placar por si só inquestionável, além de ter sido o resultado mais elástico desta fase. E a Copa vê seis campeões mundiais nas quartas de final coadjuvados pela destemperada seleção portuguesa e pela Ucrânia, que joga algo parecido com o futebol, incluindo o Shevchenko.

Ao invés de um show de bola como querem os românticos retrôs ou aqueles eternos do contra, ontem a seleção brasileira, como jamais fez em toda a sua história, conseguiu equilibrar técnica e tática numa só partida. Daí a vitória vir até com certa facilidade, e sem show de bola. Claro que a seleção de Gana ajudou, os caras simplesmente não sabem chutar em gol e a defesa deles ainda não aprendeu a marcar, mas isso é problema deles. O do Brasil é vencer e isso foi feito ontem, repito, categoricamente. A seleção foi ajudada pelo gol marcado logo cedo, e fez Gana provar do veneno que ela própria aplicara na República Tcheca na fase de grupos. Depois de fazer o gol, o time de Parreira recuou, marcou, tomou a bola e partiu para definir a partida, jogando no tal “erro do adversário”. Tivesse a seleção brasileira um lançador nato, como Rivelino por exemplo, Ronaldo sairia do gramado ainda mais consagrado. Mesmo com Ronaldinho em seu pior dia, Kaká apagado e o queridinho Juninho passando em branco, a seleção venceu fácil, com direito a show de Ricardinho (em míseros 10 minutos) e a um “gol Parreira” de Zé Roberto, escolhido pela segunda vez nessa Copa como o melhor em campo.

O “brilho” que procuram na seleção é um; aquele que ela nos apresenta é outro. Os românticos têm dificuldade de constatar que Dida é um bom goleiro e que Lúcio está em grande fase – não porque não tem feito faltas, mas porque não faz as pixotadas que lhe são características. Esquecem que o goleiro está lá pra defender mesmo, e a zaga para marcar e tomar a bola dos atacantes adversários. Se eles atuam bem, ótimo; não é mero sinal de que o adversário está bem. É o retrato de uma equipe que tenta – a de Gana – e não consegue superar o adversário – o Brasil. Então este time, não superado, é, sim, melhor. Pouco importa se a maior posse de bola da equipe de Gana tenha levado um repórter da ESPN Brasil – filho de um famoso cronista esportivo, diga-se de passagem – a iniciar uma matéria com o título “Gana ganhou do Brasil”, depois da irrefutável vitória brasileira. Mesmo porque quem se vira contra os fatos sempre perde a noção da realidade. A cobertura da Copa, aliás, ainda vai ser tema de uma coluna específica.

Com tanto campeão do mundo sobrou para o Brasil encarar a França. Se considerarmos somente as equipes, o time francês é mais fraco entre os campeões do mundo. Joga com lentidão, Zidane tá mortinho e Henry tem provado a cada dia – assim como Ronaldinho - ser só um jogador de clube mesmo. Daí o Brasil ter uma ligeira vantagem, numa partida imprevisível. Um jogo ideal, também, para Ronaldo dar uma de suas “voltas por cima” espetaculares. Ou para viramos fregueses de carteirinha de vez. A França eliminou a Espanha, uma equipe mais jovem, quem diria, bem no final de jogo. Mas só o mais ingênuo dos idiotas teria acreditado na equipe espanhola, que, tradicionalmente, gosta de ver as finas de Copa pela TV.

Não foi só pelo elástico três a zero que o Brasil mostra certa superioridade. Apesar das críticas, nenhuma equipe jogou tão bem assim nas oitavas de final. Só a Alemanha impôs um ritmo avassalador logo de cara que deixou a boa equipe sueca desorientada – quando se deu conta, os cornos nórdicos viram a vaca ir pro brejo no pênalti cobrado por Larsson, que jogou a bola lá em Estocolmo. A equipe alemã jogou mais na correria e empolgação, e também chutando muito de longe e com um Klose em dia de craque. Só que agora eles têm pela frente a Argentina, um dos melhores times da Copa, mas que se enrolou todo contra o México e só venceu na prorrogação, com aquele gol genial de Maxi Rodriguez. Se a Alemanha tentar impor a mesma correria contra a Argentina vai se dar mal. Uma única roubada de bola e Riquelme deixa qualquer uma na cara do gol. Que vai ser um jogaço, isso vai.

Já Inglaterra e Portugal promete ser um jogo amarrado. Os ingleses têm mais time e tradição, e são, portanto, favoritos. Mas Portugal tem Felipão, um cara que tem uma sorte dos diabos. Contra a Holanda ele impôs o jogo grosso e violento que o consagrou no Brasil – parecia até um daqueles Grêmio e Palmeiras dos anos 90. Uma vergonha para ele e para a Copa. E a Holanda, praticamente sem treinador, foi, como previsto, cedo para a casa. Van Basten não tem currículo para o cargo, não soube convocar fazendo aquela velha mescla entre novos e experientes, e ainda barrou Van Nistelrooij, matador e veterano. O ponta Robben teve um belo duelo com o lateral Miguel, mas não consegui salvar a lavoura. Nem o talentoso Van Persie. A Inglaterra tem ótimos jogadores e apesar de ter feito jogos com placares magros, não pode ser menosprezada. Só não pode entrar no jogo bagaceiro de Felipão. E não será surpresa para este colunista se o jogo se decidir numa bola parada, numa Copa em que Lampard não acerta uma, e que David Beckham está mostrando ser muito mais que um rostinho bonito.

A dramática Itália está como gosta. Enfrentando expulsões, sofrendo pressões e decidindo os jogos no finalzinho. E pegando moleza. Primeiro, a Austrália; agora, a Ucrânia, que até joga futebol, mas não sabe jogar bola. Dois times que defendem muito e têm uma dificuldade enorme para fazer gol. Ou seja: jogo para zero a zero e prorrogação, com vitória da Itália, favoritíssima. Mas com muito drama, podem apostar.

Seleção da Copa nas oitavas de final:

Isaksson (Suécia), Miguel (Portugal), Cannavaro (Itália), Lúcio (Brasil) e Lahm (Alemanha); Maniche (Portugal), Maxi Rodriguez (Argentina), Joe Cole (Inglaterra) e Riquelme (Argentina); Klose (Alemanha) e Ronaldo (Brasil).

Até a próxima, que é hora do troco!!!

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