Bola e Bola Mesmo
14 de junho de 2006
Os burocratas e o banho tático
República Tcheca mostra o melhor futebol da Copa até agora. Grandes seleções se impõem burocraticamente e Brasil estréia como previsto.

Futebol é coisa simples. Basta colocar todos os jogadores no campo de defesa marcando forte e não deixar o adversário fazer jogadas de penetração até ele perder a bola. Quando isso acontecer, é só passar a bola para dois meias habilidosos para eles fazerem um contra-ataque mortal, eventualmente usando um ou os dois laterais, então convertidos em atacantes, que farão a bola chegar ao centro-avante, alto e forte. Aí é só correr para o abraço. Foi exatamente isso que a República Tcheca a fez na primeira rodada da Copa, conseguindo, por conseqüência, a vitória mais categórica de todo o torneio até aqui. Os tchecos eram um banho tático. E vai ser assim. Enquanto se depararem com adversários que não conseguem furar seu bloqueio, como os americanos, vão deitar e rolar. Já quando encontrarem vamos ver o que acontece.

Se futebol não tem mistério, a Copa muito menos. Estão vencendo as partidas as equipes que têm que vencer mesmo. A única exceção foi a Suécia, que não conseguiu passar de um zero a zero com o fraco Trinidad & Tobago. Mas não se enganem que a equipe sueca é boa e tem tudo para se classificar junto com a Inglaterra. Deixa só o trio Larsson, Ljungberg e Ibrahimovic desencantar e está feito o estrago. Outra equipe que não venceu foi a França, mas isso – aí sim – já era de se esperar. Parece um time de veteranos, que já entra em campo cansado. Por sorte caiu num grupo bem fácil, vai fazer gols e até se classificar. Mas não vai muito longe, não.

Dizia que quem tinha que ganhar, ganhou. Mas ninguém tá a fim de jogar, não. As equipes grandes fazem um a zero e imediatamente querem que o tempo passe. A única delas que não usou desse artifício foi justamente a seleção brasileira. Não que tenha dado espetáculo, muito ao contrário. Mas jamais renunciou, mesmo com todas as dificuldades, ao ataque. Não foi o caso da Inglaterra, que mesmo com uma equipe bem superior à do Paraguai se contentou com um gol contra de Gamarra. Assim também foi com o decepcionante Portugal, que levou calor de Angola, vejam vocês. Felipão parece ter esquecido como se monta uma defesa, outrora uma de suas especialidades.

E a Holanda, hein? Acho que é a única seleção, entre as grandes, que não tem sequer um meia. Marco Van Basten, num arroubo de renovação, deixou de fora jogadores experientes para priorizar novatos que ainda estão se familiarizando com a bola. Pobre treinador, que não sabe que Copa do Mundo se ganha com experiência. Que falta fez Seedorf, ou mesmo Davids. Resultado, o time laranja vive da habilidade de um ponta esquerda (isso no século 21) que quer levar a bola para casa. Pior a Sérvia & Montenegro, que não tem sequer um jogador habilidoso e deixou Petkovic de fora. A Polônia foi outra decepção, não que se esperasse muito dela, mas qualquer time que perde para o Equador é uma clássica decepção.

Bonito mesmo, entre as grandes, fez a Argentina. Marcou forte os voluntariosos jogadores da Costa do Marfim e garantiu o resultado. Só não ganhou de mais porque o técnico desandou a trocar atacantes por meias, já no início do segundo tempo. Como venceu, a razão está com ele. Quero ver no último jogo do grupo o Robben se criar em cima do Ayala. Bonito também fez a Alemanha, que abriu a Copa mandando quatro pra cima da Costa Rica. O adversário era fraco, sim, mas a equipe da casa não tomou conhecimento. Agora eles arrumam a defesa, crescem na competição e vai ser ruim de segurar. Podem apostar.

A Itália mostrou, por incrível que pareça, que nesse ano tem ataque. Impôs o futebol de quem é candidato ao título e deixou Gana para trás. Nunca as seleções africanas foram tão fracas numa Copa. Até agora nenhuma delas venceu. Hoje é que deve dar Tunísia contra a Arábia Saudita, mas aí nem conta. Até agora os africanos mostraram que, assim como os jogadores das categorias de base do Flamengo, não sabem sequer chutar. Como também não sabem coreanos e japoneses, chega a ser um escândalo. E o Japão achava que com Zico chegariam a algum lugar. Não dá para culpar o Galinho pela ruindade do time, mas Zico nunca foi técnico, e, em Copas, é um pé frio dos diabos. Confundiram o jogador, o mito, com o treinador.

Teve gente que foi ver a seleção jogar e saiu decepcionada. Não viram o show que os narradores e comentaristas de treinos prometeram. Eu, não. Porque sei que estréia é assim mesmo e que o jogo seria apertado. Outros de decepcionaram com o Ronaldinho Gaúcho. Eu, não. Porque sei que ele é assim mesmo, jogador de clube, não de seleção. Ainda assim, foi ele quem fez duas das jogadas de grande perigo para o Brasil: um chute no primeiro tempo que o goleiro colocou para córner, e uma cabeçada num cruzamento de Cafu, no segundo tempo. Foi só. E tá bom. Olhar para um lado e chutar para o outro só é legal se esse chute resultar em alguma coisa.

O que desapontou na seleção foi a falta de uma jogada de contra-ataque para, uma vez com um a zero no placar, encher a Croácia de gols. Ainda não sei se foram nossos armadores que não conseguiram criar jogadas de gol, ou se os atacantes é que não se apresentaram. O fato é que Ronaldo e Adriano não tiveram chances de fazer uma jogada ou de finalizar. Kaká teve e converteu uma. Não foi um gol achado, uma sorte, coisa que caiu do céu. Foi coisa de quem tem craque no time, e não apenas um. Assim como as defesas de Dida na segunda etapa não são sinal que o Brasil tomou sufoco, mas de que temos um bom goleiro. Outra coisa preocupante é ver Lúcio driblando no meio campo e tentando fazer lançamentos. Alguém tem que cutucar o estrupício e dizer que ele é “zagueiro zagueiro” e olhe lá. Não tem nada que ser elemento surpresa, não. Além de Kaká, se destacaram no Brasil Juan, Dida e Emerson. Ronaldinho foi até bem, mas enquanto não for o “Ronaldinho do Barcelona”, vai continuar sendo cobrado.

Domingo é dia de pegar a líder Austrália, ganhar o jogo e perder uns três jogadores por contusão e um ou dois por expulsão. Podem anotar. E a partir de hoje já começa a segunda rodada, hora das grandes seleções confirmarem o favoritismo e mostrarem algo a mais do que as burocráticas vitórias do início. Hora também da Suécia se recuperar e da Costa do Marfim mostrar ao que veio. Senão já era.

Seleção da Copa até agora:

Hislop (Trinidad & Tobago), Grygera (República Tcheca), Ayala (Argentina), Juan (Brasil) e Sorín (Argentina); Pirlo (Itália), Rosicky (República Tcheca), Kaká (Brasil) e Riquelme (Argentina); Drogba (Costa do Marfim) e Robben (Holanda).

Até a próxima, que o futebol é de resultado!!!

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