Rock é Rock Mesmo
29 de junho de 2006
O rock e a palavra. Ou a palavra no rock
Rock não é poesia, não é crônica, não é conto, não é pauta de reivindicações, não é manifesto, não é história pra contar. Mas pode ser tudo isso também.

Meus amigos, a coisa não tá fácil, não. É preciso extrair o máximo possível onde, às vezes, não há nem o mínimo necessário. Tirar leite de pedra, diz o anedotário popular. Da árvore da enormidade musical globalizada retirar a única seiva que nos interessa, a do bom e velho rock’n’roll. Aquela que dá liga com os ouvidos e com o nosso jeito de ser. Digo isso, claro, me referindo àqueles que, como eu, têm o vírus do rock, do qual, aliás, já falei noutras oportunidades. Como diz o bem bolado anúncio da Revista Bizz, de que adianta ter acesso a todas as músicas do mundo no seu computador, se você não sabe quais são as melhores? E olha que para eu elogiar uma peça publicitária é que a coisa é séria.

Sério. É o que diz um afamado colunista. Não sei vocês, mas às vezes vou dormir acompanhado. Não de corpos quentes ou costelas esguias, mas de uma palavra. Ou, por outra, não durmo com ela, não. Acordo, isto sim, com a dita cuja na cabeça. Outro dia, se a memória não me falha, foi com “barulho” que me enamorei e parti para traçar outra Rock é Rock Mesmo. É como se ela – a palavra – estivesse concretamente sentada numa cadeira ao meu lado, pedindo para ser usada – no melhor dos sentidos. Nessa horas, diria Otto Lara Rezende, sou mais escritor que conhecedor do assunto. Mais forma que conteúdo. Talvez o cronista Tiago Velasco pense o mesmo. Escrever, afinal de contas, é com ele. Aqui dou minhas cacetadas, na medida em que durmo ou acordo com palavras. Porque o que importa é o rock, claro.

Ando meio preocupado com os shows de rock no Brasil. Me refiro aos internacionais. O último que rolou foi o do Sisters Of Mercy, no dia 20 de maio. O próximo é em meados de julho, Dio. Dois meses entre um e outro. No ano passado tínhamos, nesse período, já, o Claro Que é Rock com o Placebo circulando o País. Sim, eu sei que é no segundo semestre que o bicho pega, com o TIM Festival, o CRF, o próprio CQER, etc. Mas soube, também, de fonte segura, que periga o Curitiba Rock Festival nem acontecer este ano, por conta de atropelos legais da produção. O que será que está havendo? O dólar tá na moral, banda interessada em vir é o que não falta. Lei de incentivo – que no Brasil é uma bênção – também não. Não estou sendo pessimista, não, né? Vai ver que é a Copa do Mundo...

Li outro dia que Roberto Medina ainda quer fazer outras edições do Rock In Rio no Brasil, mas reclama que não consegue um bom patrocínio. Pode não ser um Rock In Rio daquele jeito, mas o Brasil precisa de um grande festival internacional de massa, nos moldes daqueles que acontecem e todo o mundo. Um festival com grandes atrações internacionais que aconteça regularmente durante um final de semana numa mesma data, de modo a virar tradição e ir trazendo, aos poucos, as novidades lá de fora e os medalhões também. Não uma coisa elitista como o TIM Festival, que mais parece o festival de Montreux, mas algo na linha do Reading, Glastonbury e afins, só para citar os mais bombados. Ou o próprio Rock In Rio.

Mas falava da palavra. E de rock. A tarefa de juntar uma coisa à outra pode parecer fácil, mas nem sempre é. E digo isso justo eu que, mais de uma vez afirmei que no rock nem sempre a letra é o que mais importa. E não é mesmo. Rock não é poesia, não é crônica, não é conto, não é pauta de reivindicações, não é manifesto, não é história pra contar. Mas pode ser tudo isso também. Criado para dançar, acabou virando a bandeira da juventude em todas as épocas e lugares. Sem fronteiras de tempo, geográficas ou políticas. O rock antecipou os avanços tecnológicos que permitiram a globalização e a própria globalização. Não é possível, repito, o rock com fronteiras.

Mas falava da palavra. E de rock. E de escrever sobre rock – não dentro do rock. Pode parecer uma coisa ordinária, mas não é raro encontrarmos pessoas discutindo o rock, desde defesas menores dessa ou aquela banda até teses inteiras sobre a importância de uma terceira num contexto político e social. Aguerridas são essas discussões, levando a algum lugar ou a nenhum mesmo; o importante é defender uma posição qualquer; ter, sim, uma opinião formada sobre tudo. Ou, por outra, ser também uma metamorfose ambulante. Por isso existe Rock é Rock Mesmo. Para escrever sobre rock e fazer quem gosta de rock pensar o rock.

Eu sei. Já percebi. Isso aqui tá parecendo coluna de abertura. Ou de despedida. Mas não. Para concordar mais ou menos com o leitor de longa data que está careca de saber para que serve Rock é Rock Mesmo, diria que isso aqui é uma afirmação. Ou, melhor, uma reafirmação reflexiva de si próprio. Porque, ás vezes, é preciso olhar para o próprio umbigo e ver como andam as coisas. Ao que parece, elas vão muito bem, obrigado.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em junho 30, 2006 11:25 PM [Flávio Meira]

Cresci ouvindo meus pais (simpatizantes do rock, graças a Deus) dizendo que a música é uma das formas de expressão mais poderosas que existem. Hoje, infelizmente, vejo bandas sendo "fabricadas em moldes" pela indústria e outras sendo "barradas no baile", por serem "panfletárias demais" (esse foi o caso de uma talentosa banda de conhecidos meus). Mas continuo acreditando nos meus pais: acho sim que o Rock, além de fazer dançar e balançar a cabeça, cumpre um papel histórico na formação cultural de gerações! Lógico que tudo depende também da ideologia de cada artista e dos que compõem seu público. Tem que haver a sintonia de idéias. Quando o som é bom e a letra diz o que se quer ouvir, bingo! Temos instantaneamente um novo fã! Mas concordo que a maioria dos roqueiros se liga primeiro na "forma", pra depois prestar atenção ao "conteúdo". Abraços e parabéns por outro bom texto!



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