Rock é Rock Mesmo
08 de junho de 2006
O rock, a forma e o conteúdo
O que faz certa canção adentrar a cabeça das pessoas e fazer com que elas gostem daquilo que ouviram? O que faz do hit um hit?

Meus amigos, a vida não tá fácil, não. Tá ruim pra todo mundo e pra mim não tá pior. Digo isso e já retifico. As coisas só tendem a melhorar, como, aliás, têm melhorado já há muito tempo. É que ficamos tanto tempo debaixo da lama que é difícil até enxergar as melhoras. Mas que elas existe, existem. Não sei se me faço entender.

Pensava, noutro dia, sobre a música. Não a música, de uma forma geral, mas a música em si, a canção, cada uma estrutura musical, com acordes, harmonias, melodias, solos refrões, letras, etc. Escrevo, mas também leio e releio críticas a trabalhos musicais, entrevistas, opiniões e outras cacetadas. Vejo fulano apontar uma boa música, destacar uma composição bem feita, uma candidata a “hit”. Faço isso também. Mas o que é a boa música afinal? O que faz certa canção adentrar a cabeça das pessoas e fazer com que eles gostem daquilo que ouviu? O que faz do hit um hit?

Para o mercado, a resposta é fácil. Eles partem do princípio – acertadíssimo, é verdade – de que se uma pessoa ouvir uma música, e se lembrar que já a escutou antes, vai se interessar por ela mais do que se interessaria se nunca a tivesse escutado. Ou seja, basta fazer com que ouvinte ouça não duas, mas muitas vezes, e é batata. Desencadeia-se aí o dominó do sucesso, que, articulado com os veículos de comunicação fazem da cultura de massa ser ela própria. Simples assim. Só que, mesmo nesse meio ávido pelo sucesso, escolhe-se esta ou aquela música para se “trabalhar”.

Mas esqueçamos, por um momento, o sucesso fabricado com a ajuda do mercado. Vamos naquela música que basta uma única audição para apontá-la – não como um sucesso – mas como uma boa música. Compositores vivem esse dilema no nascedouro da canção, têm que avaliar ali mesmo no berçário se está saindo coisa boa ou não. Críticos enfrentam essa tarefa ao avaliar discos que, às vezes, sequer chegaram às lojas, e não se tem a mínima noção do que acontecerá com aquelas músicas, em termos de sucesso ou de qualidade musical mesmo. Daí eles adorarem apontar esta ou aquela faixa como destaque. Se vira um hit, capitalizam logo. Só que o cidadão comum, ou, melhor, o fã de música médio, também tem esse encontro inédito com uma música. O que faz ele achá-la boa ou ruim? Não me venham com questão de gosto que não é só isso, não.

Em tese, música é linguagem. E linguagem é forma e conteúdo. Então música é forma e conteúdo também. Teorizo tanto que chego a me lembrar das aulas de Lógica nos tempos da faculdade. Explico. Se o cidadão é fã de samba, com perdão da palavra, tudo que for samba já vai, de antemão, lhe agradar. É o formato que o atrai. Citei o samba, mas podemos aplicar isso ao rock também, que é o que interessa aqui. Um fã de hardcore pode gostar de qualquer música brega se esta for tocada em “ritmo de hardcore”. Isso, aliás, foi usado à beça na década de 90. O Reel Big Fish, por exemplo, fez cover para “Take On Me”, do A-ha, e todo mundo gostou – não venham me dizer que foi só pelo genial clipe, o do A-ha. Certa vez a banda mineira Patrulha 666 regravou “Pense em Mim”, de Leandro & Leonardo, em “ritmo de rock”, e todo mundo gostou. Gostaram, primeiro, pela forma, e, depois, porque, como disse lá em cima, já tinham ouvido essas músicas antes, nas versões originais. Isso é a forma.

Só a forma, no entanto, não vinga. Senão era só um cabra pegar as músicas mais tocadas nas rádios em todos os tempos, fazer versões para elas em “ritmo de heavy metal” e teríamos a mais radical das bandas. É preciso, em todo segmento, conteúdo. Não me refiro às letras – logo chego lá, mas, sim, à estrutura musical propriamente dita. Que seqüência de acordes pode ser agradável ao ouvido, de uma forma geral? Que estrutura musical (introdução-refrão-ponte-solo, etc) pode ser mais chiclete, cativante, “catchy”, como diriam os que falam a língua inglesa nessa palavra de difícil tradução? É isso que faz de uma música uma boa música, uma boa canção. E nem me refiro, percebam, à técnica musical em si, se a música é bem tocada ou não.

Obviamente não existe fórmula, como, aliás, em tudo que envolve arte, mas tem gente que já descobriu um certo caminho das pedras. Eu não queria citar nomes neste assunto, mas vamos lá. Alguém se lembra de uma música que escutou pela primeira vez e já gostou de cara? Pois está aí uma boa música, uma canção pop das boas. Eu, lógico, já vivi isso inúmeras vezes. Exemplos? “Que País é Esse?”, da Legião, ouvi num show em Niterói, em 88, antes de a banda gravar e gamei na hora. Os três acordes que se repetem são ótimos. E olha que na hora nem entendi a letra direito, hein? Outra? “Anna Júlia”, quando ela foi tocada em público pela primeira vez, no Garage, em 1999. Tava na cara que era hit. Só mais uma: “Every Breath You Take” do Police, na Flu-FM, ainda em 83, se a memória não me falha.

Disse que não existe fórmulas. E não existem mesmo. Mas alguns sujeitos, até por dom, vocação, etc, sabem como tratar a coisa. Lulu Santos, dizem, quando esteve no exterior, no início dos anos 80, adquiriu um livrinho que trazia todas as ”manhas” de se fazer hits. Verdade ou não, o fato é que temos aí um dos maiores hit-makers do Brasil em todos os tempos, para o bem ou para o mal. Outro? Samuel Rosa, do Skank. Mais um? Gabriel Thomaz, do Autoramas, com a vantagem que este só faz rock. Ou seja, utiliza o potencial que tem para criar uma boa música, dentro do formato que me interessa. Perfeito. Internacionais? David Coverdale, o cara que mais soube usar a palavra “love” para fazer música colante. A duplinha Morrissey/Johnny Marr, do Smiths, então, chega a ser covardia.

Citei o a palavra “love” usada aos borbotões nas músicas assinadas pelo Mr. Feeling e me lembrei que fiquei de falar das letras. Porque elas são um complemento que pode ser decisivo, mas jamais essencial, ao menos no rock, único gênero musical de linguagem universal e impatriável. O fã de rock se interessa, primeiro, pelo som em si; depois, pelas letras. E estas podem até contribuir para que a tal música passe a ser ainda mais interessante, mas jamais a transforma num fracasso. Por isso, a arte de colocar uma boa letra numa boa música, voltando ao assunto da música boa, é para poucos mesmo>

Disse isso tudo para chegar a uma conclusão. Ou, por outra, a uma constatação. O que temos hoje na música em todo o mundo é muito mais forma do que conteúdo. Artistas que, à primeira audição, já se percebe a qual grupo pertence (forma), mas que, via de regra, não têm (ou tem poucas) boas músicas (conteúdo). Isso no geral. Porque, como já disse, nos dias de hoje é muito fácil gravar um disco. Já fazer música boa, aí já é para poucos. E tenho dito.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em junho 30, 2006 10:58 PM [Flávio Meira]

Caro Marcos, estou conhecendo hoje o site e conseqüentemente sua (ótima) coluna. Posso dizer que compartilho de 99% de suas colocações, pois como compositor desde os 16 anos (estou com 36!) sempre tive a sensação exata de que uma música havia saído "na veia" ou a "meia boca". Quase sempre essa sensação se confirma nas apresentações de minha banda, a PROLE. Tem muita gente no meio musical com uma falsa rebeldia que diz que o underground é sagrado e que sua música é para poucos. Parte do público comete o absurdo de avaliar que tal banda "já era" porque fez sucesso e "se vandeu pra mídia". Pra mim, uma tremenda HIPOCRISIA, pois na verdade quem não faz música pra ser ouvida por muitos não deveria nem sair da garagem! Pra não me estender muito, me despeço dizendo que tenho a intenção de acompanhar esta coluna de perto a partir de agora e convidando-o a ouvir algumas de minhas músicas no [http://bandolog.tosembanda.com/aprole]. Afinal, não custa nada continuar procurando por um "HIT", nem que seja de um anônimo, certo? Abraços e vida longuíssima ao rock and roll !!! (Obs.: se achar uma "música das boas", me mande um alô, ok?)



em setembro 18, 2007 10:32 PM [kelvyn]

É o melhor site.



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