
O show foi gravado na edição de 2000, e fez parte da turnê do álbum “Ecstasy”, um disco apenas razoável, e que emprestou sete músicas das dezesseis do show. Dentre elas, é em “Turning Time Around” que a banda se solta num crescente instrumental de impressionar. Os músicos recrutados por Reed são os mesmos que participaram da gravação do disco, todos excelentes e experientes. Em “Riptide”, por exemplo, o batera Tony “Thunder” Smith faz da música, em certos trechos, mero pano de fundo para levadas e viradas excepcionais. O baixista Fernando Saunders, por sua vez, em “Tatters”, marca toda a música numa levada formidável que vai crescendo até que ela se transforme num deleite instrumental com o público aplaudindo o guitarrista Mike Rathke. É uma das melhores partes do show, que tem “Set The Twilight Reeling” na seqüência, outra que alterna momentos quase intimistas com levadas instrumentais de arrepiar. A cada vez que isso acontece uma iluminação amarela estourada toma conta do palco e o comportado público, embora permaneça preso aos assentos, responde com palmas que parecem não acabar. Em momentos de maior calma, Fernando assume um baixo de madeira semi-acústico – como em “Rock Minuet” – tocando-o com um arco até que Reed e Mike desandem a maltratar as cordas de suas guitarras.
Em meio a toda essa farra instrumental, surge sobre todos a figura impávida de Lou Reed. Impassível, até quando “duela” com os outros músicos ou força mais a voz num trecho em que a canção assim pede, ele é a imagem do próprio mito. Com indumentária predominantemente preta e em couro, sem fazer caras nem bocas ele tem o domínio do palco como poucos conseguem no mundo da música pop. Seu aparente desinteresse se converte na síntese do rock e da música de vanguarda. Em cerca de duas horas, Lou Reed é o cara. Depois do show, nem dá para ficar bravo por ele não ter tocado “Walk On The Wild Side”.