No Mundo do Rock
01 de junho de 2006
Com dramas e androginia, Cabaret busca mercado
Sobreviventes do Glamourama integram a banda que continua a saga do glam e hard rock. À espera das gravadoras, disco já está pronto. Fotos: Bruno Veiga/Divulgação (1) e Marcos Hermes/Divulgação (2 e 3).

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Myself Deluxe (baixo), Sid Licious (bateria), Marvel (voz) e Peter Glitter (guitarra)

O baque do fim do Glamourama demorou cerca de três anos para ser assimilado. Desde que se separaram do guitarrista Jazzmo, que levou o nome com ele, Marvel, Peter Glitter, Myself Deluxe e Sid Licious se refizeram como banda e assim nasceu o Cabaret. A diferença entre as duas? Só o tempo e a experiência de mais três anos nas costas, na opinião do próprio Marvel. De 2003 para cá, depois de um show de estréia que não foi legal, eles se concentraram em ganhar entrosamento e preparar o novo repertório, que agora está gravado num CD à espera de alguém que se interesse. Espera mais ou menos, já que o quarteto desandou a fazer shows e numa dessas acabou saindo vencedor de uma seletiva para tocar no Mada.

O Glamourama, para quem não se lembra, ganhou certa projeção na mídia carioca entre 2001 e 2003, com shows concorridos e performáticos. Investindo no glam rock lá da década de 70, os integrantes subiam no palco vestidos à caráter, e em meio a muita androginia foram conquistando um bom séqüito de fãs. Lançaram uma única demo, “Nas Coxas”, em 2002. Considerado por muitos uma banda promissora, deixou de existir por causa das desavenças entre Jazzmo e os demais integrantes.

Mas isso é passado; hoje a realidade é o Cabaret. Falamos com o frontman Marvel, que explicou todo esse rolo, falou das diferenças entre as duas bandas, e quais as pretensões do quarteto, que já enviou o fabuloso material para tudo que é gente. Até Cauby Peixoto periga cantar com “os últimos heterossexuais sensíveis do rock”. Confira:

Rock em Geral: Começando de onde tudo havia parado: por que o Glamourama acabou?

Marvel: O Glamourama acabou porque havia diferenças irreconciliáveis entre o cara que saiu e o restante da banda. Diferenças musicais, de projeto e de urgência com a música. Não por acaso, desde então ele se dedica a concursos públicos e nós a uma carreira musical. Mas o nome Glamourama ele considerava dele, e isso nós fizemos questão de respeitar.

RG: Como foi feita a separação? Vocês tocam só algumas músicas que eram do Glamourama...

Marvel: A separação foi simples. Ele levou o nome e as músicas compostas exclusivamente por ele. Sobre a única música composta entre eu ele, “Se Você Confiar”, ficou acordado que poderíamos tocar, eu ou ele, se montássemos bandas depois. No Cabaret ficaram as músicas do Glamourama que eram minhas ou minhas com os demais, sem ele. “Um Cadáver no Palco”, “Não Desista de Mim” e “Alguém Pra Hoje”, que são minhas; “Dama da Noite”, minha, do Myself Deluxe e do JP (guitarrista da formação inicial e que também tocou no Netunos).

RG: Todos ficaram com o Cabaret logo de cara ou a coisa se arrastou até ser resolvida?

Marvel: Antes de o Glamourama acabar a idéia do Cabaret já existia. Ninguém era míope, cedo ou tarde sabíamos que ele iria se retirar do Glamourama e nós queríamos seguir a vida.

RG: Você não acha que o Glamourama já tinha chegado num patamar de repercussão grande para se desfazer?

Marvel: Não grande o suficiente para que não pudesse ser desfeito. Tínhamos um clima péssimo na banda. Não havia a perspectiva de um disco sair, e tínhamos chegado a um ponto em que só um disco nos ajudaria a dar passos maiores. Era uma banda que repercutia, mas cancerosa por dentro. E não é o sucesso que mantém uma banda, ele engessa uma banda. Ainda bem que o Glamourama não assinou, não foi ao Jô, ao Faustão... Poderíamos ter achado que aquele cenário que tínhamos era o melhor para nós. E não era.

RG: Que diferenças você vê, hoje, entre uma banda e outra?

Marvel: Musical e cenicamente, vejo o Cabaret mais evoluído. O Glamourama era uma grande palhaçada, era um happening e era mais voltado para o glam galhofeiro. Acho que o Cabaret se dá mais direito ao drama, aquilo de ter quatro baladas num disco de 12 músicas. Mas, enfim, é uma banda que não precisa ser glam só com power chord. Particularmente, acho que cada um de nós hoje tem mais consciência do seu papel no palco. Eu sei o que quero dar ao público e sei o que quero tomar dele.

RG: O que mudou no Cabaret, com um guitarrista a menos?

Marvel: Hoje temos que ter consciência de que fazemos versões para o disco e versões ao vivo. Fomos obrigados a mudar arranjos nas músicas antigas, a preencher espaços. Mas o palco ficou maior, e, interiormente, a banda tem mais diálogo. Peter Glitter e eu ficamos mais próximos, compondo juntos. Antes as músicas eram muito individuais.

RG: Quem compõe na banda, letra e música?

Marvel: Os dois processos que mais se repetem são eu chegando com algo totalmente estruturado, cabendo à banda arranjar em conjunto, ou o Peter me passando alguma base de guitarra, meio pré-definida entre versos e refrão, e eu lapidando melodia e letra. A parte de letras é quase sempre minha.

RG: Como vocês começaram a montar o repertório do Cabaret?

Marvel: Quando o Glamourama acabou eu tinha metade do repertório. Algumas músicas já estavam em andamento, como “Copacabana Full-Time” (minha e do Peter) e “Lingerie” (minha). Era uma questão de trabalhar em cima delas. Ficamos de dezembro de 2003 a maio de 2004 preparando uma volta, e o primeiro show foi uma merda. Músicas mal-acabadas, mal-ensaiadas, foi muito ruim. Também não sabíamos exatamente o que éramos. Éramos a continuação do Glamourama? Éramos a cisão? Quando entendemos esse passo, as composições acharam seus temas e começaram a fluir. Em setembro de 2004 voltamos a tocar, e já se sentia que não tínhamos virado uma caricatura.

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Cada um de nós hoje tem mais consciência do seu papel no palco. Eu sei o que quero dar ao público e sei o que quero tomar dele

RG: Fale da gravação desse disco...

Marvel: A gravação do disco começou em 14 de março de 2004. Foi um processo longo, que terminou com a masterização em fevereiro desse ano. Tudo isso porque eu moro em São Paulo, por causa do meu trabalho, e isso acaba dando à banda um ritmo mais vagaroso. Fora a questão da grana, o disco foi bancado por nós mesmos, num acordo que fizemos com o Carlos Trilha, que além de produtor é o dono do Órbita (estúdio onde o disco foi gravado). Tudo acabou dando a um disco um processo mais lento do que queríamos, mas teve suas vantagens. Músicas que não estavam na lista inicial, como “O Amor e a Guerra”, acabaram entrando. “O Amor e a Guerra”, inclusive, atrasou um pouco o disco porque queríamos ter um dueto com o Cauby Peixoto. Ele chegou a ensaiar a música comigo duas vezes, mas acabou que as agendas não batiam.

RG: O que vocês pretendem fazer com o disco? Já distribuíram para quem? Algum resultado?

Marvel: Estamos conversando com selos e gravadoras. Nessa parte não é bom revelar ainda, mas é óbvio que queremos dar ao disco uma bela divulgação e uma ótima distribuição. O disco ainda não saiu porque estamos cuidando bem de como ele vai chegar ao ouvinte.

RG: De onde vem o som de vocês exatamente?

Marvel: Vem de muitos lugares. Tem glam rock clássico, do Bowie, do T. Rex? Tem, mas eu particularmente prefiro Queen e Stones, além de ser fissurado por qualquer tipo de música que contenha drama. Adoro ópera, Ney Matogrosso e Cauby Peixoto. O Peter e o Sid Licious são fãs de Black Sabbath e Led Zeppelin, além de muito stoner rock. O Peter inclusive tem uma faceta de música experimental interessantíssima. O Myself é um cara muito eclético, absorve muita atualidade, e desses múltiplos diálogos sai o Cabaret.

RG: E essa postura andrógina, com roupas cafonas e tal? Como bolaram isso?

Marvel: Olha que as roupas não andam tão cafonas, a gente tem comprado direitinho... A androginia me serve, principalmente a mim. Ela surgia no Glamourama e, no Cabaret, só eu respondo por ela. Não sei, não me vejo por enquanto entrando num palco de cara limpa. Estabelece uma relação minha com aquela música dramática, com uma linhagem de músicos com os quais me identifico e cria no público uma reação que eu gosto.

RG: Os nomes fictícios são os mesmos de antes, o que eles significam e por que decidiram por usá-los?

Marvel: Significam esse teatro que a gente gosta no rock. Decidimos usá-los porque entre o fim do Glamourama e o começo do Cabaret, entendemos que a “peça” ainda estava em cartaz. Uma hora ela sai e a gente inventa outros personagens, ou usa nossos próprios nomes... Carreira é para experimentar.

RG: Esse material parece menos Stones/Stooges e mais hard rock... Você concorda?

Marvel: Depende das músicas, né? Ia ser muito ruim se fôssemos como muitas bandas que se pautam exclusivamente por uma ou das bandas para emular o som. Em “Não Desista de Mim”, eu pensei em AC/DC. Em “Tudo o Que Aprendi”, pensei em Billie Holliday. O Cabaret se dá o direito de escolher dentro de um menu muito vasto de influências. Mas o hard rock dos anos 70 tem um grande papel no nosso trabalho, não o dos 80.

RG: De outro lado, há mais baladas também. Foi uma decisão estratégica – do ponto de vista do mercado – colocá-las no repertório?

Marvel: Não. Como eu te disse, são decisões artísticas. A quarta música, “Brilhar”, veio do Peter, que tinha um dedilhado e uma seqüência de acordes. O cara gosta de Pink Floyd e Radiohead, uma hora isso ia sair, e uma hora nós íamos ter o que dizer dentro dessa seara. Ninguém consegue ficar de pau duro o tempo todo, você precisa de cinco minutinhos pra se recuperar... Meditar... Daí saem essas coisas. A presença das baladas vem de incursões que acabam sendo necessárias para nós.

RG: Falando em mercado, vocês acreditam que esse tipo de som pode emplaca comercialmente?

Marvel: Não sei... O mercado tem suas lógicas, suas censuras, seus mitos... Não fizemos um disco para o mercado, fizemos um disco para nós. O público pode ignorar se quiser, as gravadoras e as rádios que não trabalham com música podem ignorar se quiser, mas nós nos orgulhamos do que está feito. Deixa o mercado se decidir enquanto nós agimos.

RG: Soube outro dia que você é bisneto do poeta Augusto dos Anjos, é verdade? Isso de alguma forma exerce influência na banda, para o bem ou para o mal?

Marvel: Na verdade sou sobrinho-bisneto. Isso significa que meu bisavô paterno, Alfredo, foi irmão dele. A influência disso na banda vem, no máximo, do meu histórico de poeta (escrevo e publico em www.nobrefarsa.blogspot.com) e da minha preocupação em escrever letras acima da mediocridade. Se consigo ou não, os críticos vão dizer melhor. Eu sei que levo dias, até meses para escrever uma letra e jogo muita coisa no lixo. Acho melhor assim.

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Não me vejo por enquanto entrando num palco de cara limpa. Estabelece uma relação minha
com aquela música dramática, com uma linhagem de músicos com os quais me identifico e
cria no público uma reação que eu gosto


Outro Lado
O “CARA QUE SAIU” DO GLAMOURAMA E LEVOU O NOME DIZ QUE NÃO QUERIA APARECER TANTO

Jazzmo, Carlos Gustavo Barros Jaimovich, “o cara que saiu” citado por Marvel no início da entrevista, não começou sua vida musical com o Glamourama. Tocou em bandas de metal nos anos 80 e fez parte da primeira formação do Los Hermanos, quando a banda ainda trilhava os caminhos do underground. “Nunca me agradou a idéia de aparecer por aparecer. Depois que saí dos Hermanos, passei uns anos sem tocar ao vivo. A idéia de subverter, de inovar, é que me levou depois a montar o Glamourama”, conta.

Ele deixou o grupo que idealizou por acreditar que as propostas originais estavam sendo colocadas de lado. “O Glamourama tinha a missão de debochar do establishment. A idéia era se utilizar dos clichês do rock’n’roll e superá-los. Acho que a missão do rock e da arte é desconstruir”, explica, teórico. “Quando me vi preso a fórmulas de composição, de harmonia, de vestuário, de postura de palco e de ambições comerciais, achei que só havia dois caminhos: a revolução ou o final da história. Como os outros amigos estavam satisfeitos, e como o nome da banda e os elementos apropriados do glam tinham vindo comigo, achei por bem ir cantar em outros terreiros”, conclui.

Jazzmo, entretanto, vê na nova banda uma seqüência natural do Glamourama, uma continuação daquilo que ajudou a criar. “Cada um dos integrantes incorporou elementos novos, mas em linhas gerais me arrisco a dizer que o Cabaret é uma seqüência do Glamourama, uma 'parte dois', espécie de filho mais apegado à estética”, define. Ele, por sua vez, não está parado. Mesmo sem ouvir rock e seus derivados, já tem dez músicas prontas e pretende atuar também como cantor. “Não creio que vá repetir a fórmula da banda de rock, ainda que me junte a outros amigos”, diz. “Não quero mais tocar nos Beatles, minha vida não é um videoclipe, eu não passo rímel quando me levanto. Eu queria o questionamento; não a aclamação. Respeito as opções de todos no Cabaret, mas esse caminho não era o meu. Agora vamos ver qual é”, finaliza.

em junho 9, 2006 08:22 PM [Celso]

Muito boa a entrevista. Isso mostra que o Cabaret veio pra ficar. Interesante, também, as influências.



em março 13, 2007 02:28 PM [thamires]

Quero montar uma banda, quero uma opnião de nomes, poderiam me ajudar?



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