No Mundo do Rock
05 de maio de 2006
The Rockefellers renova o rock goiano
Com disco de estréia pesado e consistente, trio é o primeiro grupo de Goiânia a colocar pra trás os nomes locais que sempre aparecem nas manchetes do meio independente. Fotos: Diego Nery/Divulgação.

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Não somos maravilhosos, esplêndidos e filantropos, somos os anti-heróis

Não é de hoje que Goiânia - justamente a terra natal dos sertanejos mais chatos - tem se mostrado um dos lugares mais férteis para o rock independente nacional, tanto que tem gente que até chama a cidade de Seattle brasileira. Exageros à parte, a verdade é que desde sempre o que se ouve falar lá do cerrado tem a ver com três principais bandas: MQN, Mechanics e Hang The Superstars, as três pioneiras na Monstro, selo que, além de catapultar a cena goiana para todo o Brasil, também açambarcou as bandas independentes mais legais. Ocorre que, agora, enfim, a cidade começa a mostra sinais de renovação, e o principal destaque dessa nova leva atende pelo nome de The Rockefellers.

E as coisas têm acontecido rapidamente para eles. Há mais ou menos dois anos montaram a banda e viviam de tocar covers de Jimi Hendrix, mas no início de 2005 já tinham músicas próprias e um CD demo com duas delas. Nesse ano, “King Size”, o primeiro disco, foi lançado pela Monstro. Trata-se de uma coletânea de solos e riffs distribuídos em músicas que são rock por natureza e vocação, fundindo grupos e épocas distantes entre si, mas que, reunidos, se transformam na mais clara tradução do rock contemporâneo. Tem psicodelia, hard rock clássico, rock pauleira dos anos 70, o novo hard rock e o escambau.

A formação que gravou este excelente disco de estréia já mudou, e hoje conta com Beto Rockefeller (guitarra e voz), Gustavo Rockefeller (baixo) e Leo Rockefeller (bateria). Para falar mais sobre o clã mais barulhento do centro-oeste, conversamos com o batera Leo, via e-mail. Ele não parece ser muito bom de papo, não, mas mesmo assim deu uma geral no que a banda já fez em sua breve existência.

Rock em Geral: Conte mais ou menos a trajetória da banda até aqui, como se formou, etc...

Leo Rockefeller: O Rockefellers foi formado em 2004, para fazer um tributo de Jimi Hendrix e celebrar sua psicodelia. No começo de 2005, já com composições próprias, agilizamos um CD demo com duas faixas para participar do festival Claro Que é Rock. No primeiro semestre do mesmo ano ainda houve o lançamento de uma coletânea pela Bacid Discos, de Goiânia, chamada “New Fresh Meat”, que tinha uma música nossa, “Midnight Express”, na abertura. Já no fim de 2005 fomos convidados para participar do cast da Monstro. Em 2006 lançamos nosso primeiro álbum, “King Size”, que foi gravado entre abril e agosto de 2005. Já fomos quarteto, agora somos um trio, mas quem sabe um quarteto de novo?

RG: É verdade que o nome da banda foi tirado de uma antiga novela?

Leo: Nossas letras falam muito das nossas próprias vidas, o que de certa forma é o reflexo do cotidiano de qualquer vida urbana. A escolha do nome da banda veio de uma mistura. Beto Rockefeller, personagem do folhetim da TV Tupi de 1968 era um pobretão que freqüentava a alta sociedade paulista e se fazia passar por rico. Foram as aparências que levavam as pessoas a aceitá-lo como membro da “alta”. Já os magnatas norte-americanos da família Rockefeller, esses sim, são riquíssimos e são da “alta”. Já sabíamos da existência da personagem e da família. Misturamos os dois ícones e então batizamos a banda de The Rockefellers. Não somos maravilhosos, esplêndidos e filantropos, somos os anti-heróis.

RG: Vocês fazem muitos shows? Cite os mais legais que já fizeram:

Leo: No ano passado fizemos em torno de vinte shows. Todos eles em Goiás. Tocamos com bandas do calibre de Forgotten Boys, Daniel Belleza, Faichecleres, Wry e Pata de Elefante. Dividimos palco também com bandas bacanas como o Vanguart, Ludovic e o Macaco Bong. Da terrinha tocamos com o MQN, Mechanics, Hang The Superstars e com muitas outras. No caso de a banda ter um selo, não significa ingresso instantâneo em shows e festivais, temos que trabalhar muito para isso. Começamos o ano de 2006 com muita energia. Lançamos nosso primeiro disco, e tocamos no Grito Rock, em Cuiabá. Esperamos voltar pra Hell City no festival Calango. O mais legal sem sombra de duvida foi no 11° Goiânia Noise, em 2005. Vamos tocar na seletiva para o Porão do Rock e no Bananada.

RG: Usar o mesmo sobrenome foi uma premissa básica para a banda ou só uma vontade de “ser” Ramones?

Leo: Foi uma escolha ironizando a família norte-americana e sua falsa moral.

RG: Vocês citam bandas dos anos 60 e 70 como fonte de inspiração, mas a sonoridade da banda é bem atual. Como fazer esses sons antigos parecerem contemporâneos?

Leo: Nossas fontes de inspiração passam pelas melodias de Sweet e Grand Funk até o hard e southern rock setentista, com psicodelias chupadas de Rolling Stones e Hendrix. A batida mais acelerada das músicas dá uma roupagem mais moderna para as nossas influências “vintage”.

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Estamos despretensiosos no que se refere à gravadora, queremos mesmo é nos divertir com o pessoal nos shows

RG: O quanto há de hard rock na música de vocês? Também consideram essa referência importante?

Leo: Não é o estilo guia, mas temos, sim, algo de hard. A referencia é importante, mas não determina nosso andamento. Prefiro dizer que o Rockefellers anda flertando muito em termos de sonoridade ultimamente.

RG: E sobre as bandas contemporâneas, que estão na mesma praia que vocês, de fora ou daqui mesmo, o que vocês acham?

Leo: Tem havido uma explosão de bandas muito bacanas por aí. Sendo ou não da nossa praia, cito bandas como The Datsuns, Kaiser Chiefs, Forgotten Boys e Hellacopters.

RG: Foi óbvio gravar o primeiro disco pela Monstro, ou vocês tentaram assinar com alguma outra gravadora?

Leo: Foi óbvio no sentido do selo ser de Goiânia. A Monstro nos dá um suporte bem bacana, um dos melhores da cena independente. Podem ter certeza. Porém, não se chama “independente” à toa. Estamos despretensiosos no que se refere à gravadora, queremos mesmo é nos divertir com o pessoal nos shows.

RG: Durante muitos anos, quando se falava do rock de Goiânia, sempre apareciam as mesmas bandas: MQN, Mechanics, Hang The Superstars... Vocês se consideram parte de uma renovação do rock na cidade?

Leo: A Monstro lançou no primeiro semestre uma coletânea intitulada “Goiânia Rock City”, e a sétima faixa é nossa, com “Fight Club”. Além destas bandas citadas, temos renovações como Violins, Valentina, Barfly, Johnny Suxxx n The Fucking Boys, Sangue Seco, Rollin’ Chamas e Nem. Tem várias outras em um total de 23 bandas da cidade. Estamos todos juntos.

RG: Vocês acham impossível fazer o tipo de som que vocês fazem, com as músicas tendo letras em português?

Leo: Tanto não achamos que nosso próximo disco será 80% em português.

RG: Vocês elaboram com cuidado as letras ou só juntam clichês de expressões e frases em inglês?

Leo: Digamos que sejam clichês de expressões e frases em inglês elaboradas com cuidado.

RG: Vocês fazem as músicas a partir de um riff ou a partir de um solo?

Leo: Eu chego ao ensaio com a estrutura da música pronta. Nas primeiras passagens, já vou fazendo algumas modificações, pois inicialmente tudo sai da guitarra. Quando todos estão ambientados com as harmonias, começa a fase de arranjos, e aí, sim, todos participam. É um processo rápido, para que fique o mais espontâneo possível.

RG: As músicas de vocês têm muito mais solos que andamento propriamente dito. A idéia é essa mesmo?

Leo: Nosso primeiro disco teve muito experimentalismo, mesmo dentro dos clichês do rock’n’roll. Hoje em dia estamos mais melódicos e a tendência é bem por aí.

RG: Nenhuma música tem o título que o álbum recebeu. Por que ele tem esse nome, “King Size”?

Leo: Foi apenas um folclore. Tem a ver com a proposta canalha da banda, com o ilícito e com espaço.

RG: Qual é o hit desse primeiro disco?

Leo: A que mais tem tocado por ai é “Midnight Express”, gravamos até um videoclipe dela ano passado. Eu prefiro “Fuckin’ Punk Kid”. Agora, hit...

RG: Vocês participaram de um concurso realizado recentemente pela Revista Capricho. Têm a intenção de atingir esse tipo de público?

Leo: Claro! É um publico bastante exigente e antenado com tudo que é de novo, então ter a aprovação deles é um bom sinal.

RG: Conta como foi feita a arte da capa, com aquele brasão? Por que vocês usaram aquelas fontes no logotipo, que são tipicamente usadas no heavy metal?

Leo: O brasão é o símbolo maior da banda. As influências nas fontes não remetem ao heavy metal, mas ao Texas blues e ao southern rock. Uma inspiração meio Lynyrd Skynyrd.

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(Nossas músicas são) clichês de expressões e frases em inglês elaboradas com cuidado

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