Bola e Bola Mesmo
02 de maio de 2006
Máquinas no lugar das armas
Em tempos de preparo físico, jogadores viram máquinas, sofrem manutenção e precisam de recuperação.

Se tem duas palavras que têm sido bastante usadas no futebol brasileiro neste início de temporada são elas “recuperação” e “poupar”, ambas em relação aos jogadores. Se no início dos tempos a própria regra do jogo utilizava termos bélicos até hoje consagrados – como artilharia, tiro, arma secreta – hoje os jogadores são comparados a verdadeiras máquinas. Daí os entendidos falarem em peças de reposição, elementos e até máquinas mesmo, no caso de equipes fortes. Termo este, aliás, criado pela mídia para batizar o excepcional time do Fluminense de 1975/76, a famosa máquina tricolor. Hoje, é como se colocassem os equipamentos para funcionar, jogo a jogo, e, em seguida, se fizesse a manutenção, que é chamada de recuperação.

Tal fato acontece, dizem, pelo excesso de jogos. Mas eu discordo. E já retifico. É por causa de tantos jogos, sim, mas não principalmente por isso, mesmo porque, desde os tempos do Santos de Pelé que há muitos jogos, senão de tantas competições oficiais, de jogos internacionais que ajudavam a pagar a conta lá na Vila Belmiro. Acontece que hoje o nível técnico é muito baixo, ainda mais com nossos craques jogando exterior, e, em contrapartida, talvez por isso mesmo, o futebol praticado no Brasil é mais baseado no preparo físico do que em técnica e tática – esta, aliás, é dependente dessa condição física. Uma vez ouvi Moracy Santana, Papa no assunto, dizer que hoje um jogador corre muito mais durante uma partida no que no passado. Os jogadores viraram umas máquinas, mesmo, daí a recuperação dita a torto e a direito.

Por conseqüência vem o segundo termo que anotei lá em cima, o poupar jogadores. Em qualquer matéria no jornal ou TV que envolve clubes disputando mais de uma competição simultaneamente, o assunto vem à tona, colocado pelo repórter ou mesmo por iniciativa de jogadores e comissão técnica. Dizem os especialistas que isso acontece porque, no Brasil, se pensa em time, não em elenco, e que, no fundo, no fundo, quem não joga perde moral porque se sente barrado. Mas, de outro lado, não me lembro de ter visto Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, fora da equipe do Barcelona na Liga dos Campeões. Jogador é pago para jogar, e não vejo mal nenhum que ele esteja em campo no final e no meio da semana. O que deve ser resguardados são os casos específicos. Atletas de mais idade, em recuperação de lesão ou de biotipo geneticamente desprivilegiado devem ter atenção especial e jogar só quando estiverem bem, dentro de um determinado planejamento. É ridículo ver jogadores novos como Nilmar e Carlos Alberto, por exemplo, sendo poupados. Os garotos querem é jogar.

Há que se considerar, também, que a grande maioria dos clubes brasileiros não tem elenco, é evidente a discrepância entre o jogador titular e o reserva que eventualmente o substitui. E se é verdade que um jogador poupado se sente barrado, isso muito se deve à imprensa, que valoriza em demasia esse tipo de coisa. Compreende-se, até certo ponto. Já reparam a quantidade de noticiários e resenhas esportivas que temos, sobretudo no rádio? O sujeito precisa apresentar uma manchete a cada quatro horas, e dizer que fulano foi barrado para entrar cicrano, especialmente se o primeiro se lamentar, é uma saída e tanto.

Vejam o caso do Vasco no domingo. Por vacilação da diretoria e submissão, quem diria, de Renato Gaúcho, o clube colocou somente três titulares em campo para o clássico com o Fluminense. Com o empate, apesar do bom jogo, as manchetes foram mais ou menos assim: reservas do Vasco param o Flu. Ficou ruim para o tricolor, um dos líderes do campeonato, tropeçar nos reservas do rival. Quem viu o jogo, no entanto, presenciou o massacre que só não resultou numa goleada para o clube das Laranjeiras por pura fatalidade. Coisas o futebol, na linha do clássico é clássico e vice-versa. Digo isso não pelas sucessivas carimbadas na trave do goleiro vascaíno, porque bola na trave é chute pra fora, mas pelo volume de jogo em si, e pela disposição do time de grená em vencer, terminando a partida com quatro atacantes em campo.

Chato é ver um time ruim como o Santos triunfar, ainda mais jogando com time misto, muito embora a virada sobre o desorientado Palmeiras só tenha acontecido depois da entrada de três jogadores meia boca considerados craques pelo técnico. Luxemburgo tem uma sorte dos diabos, mas se não montar um time de verdade, o Santos já, já perde fôlego. Outro fato notável é ver o São Paulo ser considerado um timaço sem um único meia entre seus jogadores de meio campo, capenga na lateral direita e com um ataque ineficiente – metade dos quatro gols de sábado foram marcados por jogadores de defesa. E tem gente que chama esse time de carrossel. Cada uma que aparece...

Até a próxima, que os mascarados não podem jogar!!!

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