
Se existe um verdadeiro movimento de bandas novas fazendo um som calcado nos anos 80, por que o Echo, um dos criadores da sonoridade deprê do pós punk inglês, não poderia fazer o mesmo? Talvez tenha sido essa a lógica que povoou a cabeça de Ian McCulloch e Will Sergeant, os únicos remanescentes da formação clássica, antes de fazer esse “Siberia”. O disco é um achado oitentista porque busca justamente a tal sonoridade que tanto encanta as novas gerações.
Em qualquer matéria sobre o Echo está escrito que a marca da banda sempre foram os vocais melosos de Ian, a guitarra única de Will e a firme cozinha de Pete de Freitas e Les Pattinson, cujo baixo mas parecia uma usina de bases marcantes e encorpadas. Hoje, no entanto, há que se reconhecer que o Echo pode ser resumido na figura de Will Sergeant. É ele – sempre foi – o responsável pela linha melódica adotada pela banda, e, mais que isso, por uma sonoridade única e que resiste ao passar do tempo. O guitarrista é o principal elemento do grupo, e hoje este “Siberia”, mas inspirado que nunca, é a prova irrefutável disso. Por esse ângulo, a voz de Ian é mera coadjuvante, mas, mesmo detonada, não decepciona quando captada em estúdio, o que resulta numa dobradinha esplêndida, mais de vinte anos depois do lançamento dos álbuns clássicos.
Os discos do Echo depois do retorno de Ian McCulloch são todos bons – sobretudo “Evergreen”, de 97 – mas “Siberia” os supera por larga margem e facilmente pode ser colocado junto à sagrada galeria dos quatro primeiros do grupo, lançados entre 80 e 84. Músicas desse disco, se ouvidas separadamente, poderiam tranqüilamente ser confundidas com outras dessa época. A pérola “Of a Life”, por exemplo, já na introdução emblemática com violões e a típica guitarra cheia de climas e texturas daqueles tempos, não soa retrô ou algo repetitivo, mesmo porque música boa de verdade é atemporal. E esta é outra característica desse disco: ao mesmo tempo em que traz de volta as guitarras sensíveis do pós punk, o faz como se eles sofressem um up grade de modo a ficar à vontade nos novos tempos. Exemplo claro disso é a espetacular “Scissors In The Sand”, que, com guitarras rascantes, mostra um Echo contemporâneo e bem inserido no que andam fazendo por aí. “Stormy Weather” é desde já outro clássico, Echo na acepção da palavra. Até em “Make Us Blind”, que encarna o jeito mais simples de a banda fazer uma canção pop, Will faz as suas estripulias nas seis cordas, e também com efeitos eletrônico pinçados a dedo.
Depois disso, não resta outra opção aos três integrantes mais recentes senão acatar o papel de simples apoio à genialidade de Will e também de Ian, que, a bem da verdade, é quem faz as músicas e arranjos mais preciosos da música pop em todos os tempos. E que esse “Siberia”, além do precioso resgate, sirva para que a duplinha se toque de que esse é o caminho.
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