
Os jornalistas estão inquietos. Depois de um dia de observação se sentam em frente ao computador e não têm assunto. Precisam inventar temas, têm que ser criativos. Vida dura. Tanto que, não raro, falam de camelôs, aposentados, crianças, tempo, temperatura, cultura em geral. Precisam preencher os jornais que queremos ler. Mas tá difícil, porque, na seleção, tudo anda às mil maravilhas. Fazia tempo que isso não acontecia. Time definido (e praticamente unânime entre os torcedores), nenhuma contusão, retrospecto favorável, assédio de todos no mundo do futebol, favoritismo inquestionável, todos juntos vamos, pra frente Brasil, salve a seleção. Tem gente que acha que, só por causa disso, o Brasil vai perder a Copa. Eu, não. Acho que vai perder, sim, e já expliquei por a + b na semana passada. E não vou mais falar nisso porque não sou profeta do mau agouro.
Fazia tempo que isso não acontecia, tem gente que diz que nunca aconteceu. Dá pra lembra de algumas Copas, e outras a história nos conta. Em 1966 o Brasil tinha duas seleções, cerca de 44 jogadores, e não sabia se escalava a geração bicampeã ou os novatos. Em 70 houve troca de treinador, General convocando jogador e até Pelé era considerado míope. Em 74 queriam o “derrotado” Zagallo fora da seleção, considerado retranqueiro. E isso jogando com um meio-campo formado por Paulo César Carpegiani, Rivelino, Paulo César Caju e Dirceu... Em 78 achavam Cláudio Coutinho novo e teórico demais, e em 82, aí, sim, embalada por amistosos vitoriosos frente a seleções européias, havia o favoritismo. Embora até hoje culpem o Telê por escalar Valdir Perez, Luisinho e Serginho (ao invés de, respectivamente, Leão, Edinho e Roberto Dinamite), e por ele ser “ofensivo” demais. Já em 86, jogando com dois cabeças-de-área (Alemão e Elzo), o técnico foi criticado por ter cedido ao defensivismo. Os três zagueiros de Lazaroni marcaram a descaracterização do futebol arte em 90, e em 1994, depois de eliminatórias complicadas, Parreira era bombardeado por cem por cento da imprensa esportiva, por sua “teimosia” que, entretanto, se mostrou vencedora. Sem eliminatórias, foi fácil para Zagallo chegar à França em 98, sem maiores problemas, mas em 2002 Felipão teve que cortar um dobrado para consertar as asneiras feitas pelo mal qualificado Luxemburgo e pelo inexperiente Leão. Mesmo assim, com uma sorte dos diabos, foi campeão.
Agora, não. Parreira desfruta de uma tranqüilidade tão grande que anda inquieto. Anda como se estivesse a procurar, o tempo todo, um problema para resolver. Ontem, quando Edmílson e Adriano se estranharam no treino, ele deve ter esboçado um sorrisinho de canto de boca. Logo o Imperador, que dois dias antes era estampado na mídia como feliz no ambiente da seleção. Ele, se bobear, não chega nem até as oitavas como titular. Parreira está doido pra colocar o próprio Edmílson ou Juninho no meio, empurrar Ronaldinho pra frente e sacar o Adriano. E Adriano não tem a estabilidade de Ronaldo, o fenômeno. Ai dele se não desandar a marcar gols com sua potente perna esquerda. É sacado rapidinho.
A mídia anda tão ansiosa e tão sem assunto que transmite até entrevista coletiva ao vivo. Ora, meus amigos, coletivas não foram criadas como entretenimento nem informação para o público. Elas existem para que os jornalistas colham depoimentos e impressões para fazer suas matérias. E o nível das perguntas parece ser tão baixo quanto o das coletivas com artistas estrangeiros quando tocam no Brasil. Você conhece alguma coisa de música brasileira? Pretende ir a uma escola de samba? O que espera do público brasileiro? Qual a repercussão do último disco? Ronaldo, você está gordo? Uma vez, antes de ser presidente, em campanha, Lula disse que isso era problema da mulher dele...
Sem foco, o campeonato brasileiro vai de mal a pior. Estádios vazios, audiência em queda livre. Só querem saber de Copa. Os jogadores riem à toa. Vão ter férias, vão treinar à beça para voltar e arrebentar no outros três quartos de campeonato. Os dirigentes coçam a cabeça. Precisam de reforços, mas têm pouca grana e, pior, não sabem onde contratar – exceto os cabeças-de-bagre oferecidos diariamente pelos empresários. E o pior é que, do exterior, só podem repatriar jogadores em agosto, no segundo turno. Ou avançam no mercado interno ou quase nada muda até lá. Pra mim tá na cara que esses times que estão na ponta – Fluminense, Cruzeiro, Santos, Inter e São Paulo – mais o Corinthians, vão disputar o título. E vou mais longe. Ganha o brasileirão quem, entre estes, conseguir se reforçar mais no intervalo da Copa ou ao final do primeiro turno. Podem anotar.
Até a próxima, que chutar o chão agora é pênalti!