Bola e Bola Mesmo
23 de maio de 2006
Brasil é tão favorito, tão favorito, mas tão favorito que não vai ganhar a Copa
Itália, Alemanha ou Inglaterra devem levar o caneco. República Tcheca, Portugal e Sérvia e Montenegro também farão um bom papel, e seleção brasileira chega no máximo entre as quatro.

Eis a mais pura das verdades: a seleção brasileira é a favorita para vencer o mundial da Alemanha. O porquê todo mundo sabe. Tem vencido tudo nos últimos tempos, tem o melhor jogador do mundo, tem um dos melhores elencos do planeta e, no final das contas, é o Brasil, ora bolas. Até o técnico Carlos Alberto Parreira, afamado fabricante de retrancas, já assumiu o favoritismo. Eis a mais perfeita das unanimidades: o Brasil é o favorito para vencer a Copa de 2006.

Mas, repito, favorito não ganha Copa. Nem melhor time. Senão, nem precisava organizar a competição – vamos deixar de lados as questões inerentes ao espetáculo. Bastava reunir os maiores entendidos em futebol em todo o planeta e eles, olhando para a escalação de cada selecionado, e levando em conta as atuações anteriores de cada uma, determinariam o Campeão do Mundo de 2006. Assim como fazem, em geral, os analistas do esporte bretão em todo o mundo. Mas disse que favorito não ganha Copa, e já retifico. Pode até vencer, sim. E, vou mais além. Time bom não vence Copa do Mundo. Ou, por outra, pode até ganhar. Mas, em Copas, antes do time, vem a tradição, a sorte, o mando de campo e detalhes extracampo. Nessa ordem. Tradição. Sorte. Mando de Campo. Detalhes extracampo. Time.

O leitor mais apressado já deve estar, mesmo considerando essa lógica, apontando o Brasil como campeão. Temos tradição, temos time e só o Zagallo já vale por um milhão de pés de coelho. Mas deixemos o Brasil de lado; a idéia aqui não é falar de uma seleção em particular, mas apontar a vencedora. Reparem que, desde 1930, só sete seleções venceram o mundial. Brasil (cinco vezes), Alemanha e Itália (três cada uma), Uruguai e Argentina (duas cada uma), Inglaterra e França. Em Copas do Mundo, só ganha quem já ganhou. Então vamos esquecer o Uruguai, que não se classificou para o mundial, e as outras 26 seleções, porque a campeão sai desse grupo. Mas sempre haverá uma primeira vez – lembra a essa altura o amigo leitor. No que eu devolvo: sim, haverá. Só que, de uma forma geral, uma seleção ganha uma Copa pela primeira vez quando joga em casa. Foi assim com o Uruguai, em 30, Itália, em 34, Inglaterra, em 66, Argentina, em 78, e França em 98. Brasil e Alemanha ganharam suas primeiras Copas fora de casa, é verdade, mas as duas já tinham experiências de derrotas lhes deram a necessária tradição. O Brasil perdeu em 50, em casa, a mais fácil das Copas, porque melhor time, repito, em geral não vence.

Mas estava escolhendo o campeão, e ele sai desse grupo: Brasil, Itália, Alemanha, Argentina, Inglaterra, França e Holanda. Inclui a Laranja aí pelas duas finais que eles disputaram, com grandes times. Ainda olhando para a tradição, vemos que a Alemanha já venceu várias Copas e joga também em casa. E entram aqui os detalhes extracampo que eu falei lá em cima. Com a torcida do lado, a arbitragem vai ser caseira e favorecerá os germanos, assim como levou a Coréia, em 2002, às semifinais. Ponto para a Alemanha. Outra da tradição? Desde 1938 que as Copas são vencidas alternadamente por uma seleção sul-americana e outra européia. A única exceção é justamente o Brasil, e isso pode ocorrer de novo. Mas eu prefiro a regra à exceção. O que vale dizer que, nessa lógica, e jogando na Europa, as seleções do lado de cá do Atlântico estão fadadas ao fracasso. Restam, assim, Itália, Alemanha, Inglaterra, França e Holanda.

Chegou a hora da sorte. E ela começa, claro, no sorteio dos grupos. Percebam que o único grupo que têm duas dessas seleções de tradição é o C, com Argentina e Holanda. Mais que isso. Estão ali também a Sérvia e Montenegro (o maior ferrolho europeu dos últimos tempos) e Costa do Marfim, o Camarões da hora. Uma das duas, então, não passa nem daí. Holanda fora, porque azar a Argentina já gastou sua cota em 2002. Restam Itália, Alemanha, Inglaterra e França.

Só aí é que entram as análises dos cruzamentos pós-fase de grupo, o que nada mais que analisar os times. A Itália, com azar, pega o Brasil nas oitavas e cai; e com sorte, pega a França nas quartas e passa. Ambos os prognósticos pelo quesito tradição. Com sorte, a França vai até as semifinais e pega a Inglaterra. Ou seja, os franceses, com um time de veteranos semidecadentes, ou perdem para a Itália ou para a Inglaterra. França fora. Restam Itália, Alemanha e Inglaterra. Fazendo todos os cruzamentos, considerando sortes e tradições, e, aí, sim, os times, esses três se embolam de tal forma que a coisa fica difícil. Alemanha e Inglaterra podem se encontrar já nas oitavas, e os ingleses, mesmo com melhor time, estariam fora. Sobra para a Itália, então, o título. E olha que a seleção deles é uma incógnita, inclusive para os italianos. Como sou bobo, entretanto, e sei da força do apito amigo para os donos da casa, vou deixar as três no páreo. Mas nessa ordem: Itália, Alemanha e Inglaterra.

Disse isso e já tenho que explicar. Não é que sejam elas respectivamente minhas indicadas para o título, o vice e o terceiro lugar. Uma delas vai vencer. E a outra será vice. Entre as quatro, estará um azarão, como foram Suécia e Bulgária em 1994, Croácia em 1998 e Turquia em 2002, todas semifinalistas. Nesse ano, esta função deve ficar com República Tcheca, Portugal ou Sérvia e Montenegro. A outra seleção a chegar entre as quatro, com sorte, dever mesmo a brasileira.

Vejam bem, meus amigos. Não vejam nessa história toda uma lógica pessimista. Passo longe de ser um nefasto uruca. Tanto que, mesmo acreditando piamente que o Brasil não leva o caneco, torcerei com toda as minhas forças, até porque não há outra alternativa para o brasileiro, pertença ele a qualquer classe social, credo religioso ou político. Tampouco vou torcer a favor do óbvio. Mesmo porque ele, o óbvio, brilha por si só.

Até a próxima, que time bom não ganha Copa!!!

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