Fazendo Historia
03 de maio de 2006
A grande casa dos artistas chamada Brasil
Visão bem humorada do famoso programa exibido pelo SBT, e identificado pelo autor em toda a sociedade brasileira. Publicado em 2001 na Dynamite, quando estava no auge a disputa pelos direitos do programa, entre Globo e SBT.

Quando menos se espera aquilo que parece imutável, impossível de ser mudado, está prestes a sofrer alterações. Mas, depois, tudo tende a voltar ao mesmo lugar. Vejam por exemplo o programa “Casa dos Artistas”, exibido diariamente pelo SBT. Do nada, com elenco de terceira linha e enredo de gosto duvidoso, o programa conseguiu a façanha de, pela primeira vez na história, desbancar a audiência do Fantástico, semanário global que está no ar desde 1973. O Fantástico inaugurou um estilo jornalístico inovador para a época, fazendo escola e gerando um sem número de imitações que não obtiveram o mesmo sucesso. Rapidamente, porém, a fórmula se tornou repetitiva, sem nunca, por outro lado, perder sua audiência. Essa é, como foi dito, a primeira vez.

Silvio Santos não é bobo. Ao contrário, sabe tanto de televisão do que qualquer espertalhão da Globo, tipo o Boni. Já trabalhou na própria Globo, e tem, com estrutura e poder político muito menores, conseguido por diversas vezes desbancar a rival da sua (até algum tempo) intocável posição de liderança. Foi assim com o Programa do Ratinho, do apresentador Carlos Massa, e com o Show do Milhão, que, dizem, foi definido pelo próprio Silvio, por telefone, direto dos Estados Unidos, no momento da descoberta da versão americana do game show. Depois tudo passou, e lá está a Globo na liderança e novo.

Segundo consta, o SBT copiou a Casa dos Artistas do programa “Big Brother”, sucesso nos States, mas criado pela empresa Endemol, que é holandesa. Mas há tantas controvérsias que o caso foi parar na justiça, e enquanto a Globo não consegue tirar o programa do ar, mais de três milhões de brasileiros vão se divertindo com as câmaras “indiscretas” que focalizam o simples cotidiano de “famosos”, muito bem pagos e que não têm nada para fazer, confinados na casa por força das “regras do jogo”.

Eu, em verdade, digo-vos: não há cópia de nada. O programa não é nada mais do que o retrato das sociedades decadentes, manadas televisivas do século 21. Acreditem, a idéia de acompanhar o dia-a-dia de pessoas (famosos ou não) já existe e instiga muita gente pelo mundo afora, que se utilizam da Internet, a rede mundial de boçais, para tal fim. Cidadãos comuns como o amigo leitor instalam uma câmara nos cômodos da própria casa, e transmitem, em um site, imagens sem cortes de tudo que acontece em seus cômodos. Esses sites têm um número de acessos surpreendente. No cinema, esse tipo de controle já foi mostrado na continuação do filme “The Fly” (no Brasil, “A Mosca II”), quando cientistas monitoravam o crescimento do homem-mosca. Pura ficção. Mas em “Sliver” (“Invasão de Privacidade”), com a bela Sharon Stone, o buraco era mais embaixo. Num prédio todo projetado com circuitos internos de TV, um maníaco não só sabia de tudo que se passava na intimidade dos moradores, em cada apartamento, como também controlava e influenciava o cotidiano do edifício, de acordo com suas conveniências, ou mesmo por simples diversão. Casa dos Artistas, pois não?

Uma breve olhada à nossa volta, entretanto, pode suscitar questões bem mais instigantes que o simples estar contra ou a favor da “Casa dos Artistas”, o “maior fenômeno televisivo do Brasil”, segundo os respeitáveis diários de nosso país. Ideologicamente, a “Casa dos Artistas” não é de ninguém, e essa disputa jurídica deveria ser, caso sérios fossem os nossos juízes, ignorada de imediato, e deixada de lado para questões de interesse nacional. Por quê, repito, a “Casa dos Artistas” não é de ninguém. E explico. E fundamento a explicação em exemplos. Nossos governantes primeiro. Vivem trancafiados em Brasília, ou em Palácios de Governo Estadual ou no Congresso Nacional. Não têm o mínimo contato com o público, não sabe o que se passa com a população. Esta, telespectadora convicta, e por opção, acompanha tudo pelos telejornais, durante cerca de 40 minutos diários. Este, editado, passa só o que lhe interessa. Em períodos regulares, esses mesmos governantes aparecem na TV para conseguir o voto do eleitor para continuar (e não sair) do poder. Casa dos Artistas, pois não?

Outra. Num país de distribuição de renda escandalosamente desigual como o Brasil, um por cento da população concentra a grande maioria da riqueza. Um percentual um pouco menor, a malfadada classe média, quer fazer parte dessa casta, ao menos em conceito. Estão criados os emergentes, pessoas que atingiram uma certa projeção social, impulsionada por um enriquecimento instantâneo, mas que, como que óbvio, não vem acompanhada de um enriquecimento cultural nos mesmos moldes. Acompanhada de inteligência, de bom gosto, enfim. Só da idiotice, essa qualidade intrínseca a todo o ser humano. Fechados em seus condomínios, notadamente na cidade de São Paulo e na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, esse grupo está trancado dentro de um mundo próprio, e é observado por quem está de fora, também via TV, nas caricatas apresentações de grupos de sambrega, bunda music ou breganejo. Através do Ibope, de novo, o público elege quem é melhor ou pior, quem vai vender mais ou menos, que vai ficar mais ou menos rico e famoso. Casa dos Artistas, pois não?

Não poderia, meus amigos, por fim, deixar de citar o poço de mediocridade cultural no qual se transformaram as nossas gravadoras. Perdão. Nossas não. Afinal as grandes corporações da música estão a serviço do capital internacional. Trancafiados em seus escritórios, os profissionais que lá trabalharam não têm idéia do que se passa no mercado musical brasileiro, não têm o que fazer lá dentro, a não ser apostar todas as fichas em enlatados internacionais, ou nos daqui mesmo, pois também os temos. Essas gravadoras são vistas e acompanhadas através dos parcos lançamentos que chegam ao mercado. Em um processo de afunilamento cruel, ignoram a efervescente produção artística nacional e utilizam a cruel, excludente e ilegal prática do jabá para convencer a todos quem deve continuar ou sair do programa, digo, do mercado. Casa dos Artistas, pois não?

Mas essa inquietude, concluo, esse ímpeto pelo ridículo, só pode ter moradia no mais antigo dos idiotas: o ser humano. Sim meus amigos, e vou mais longe. A quem pode interessar a inteligência eqüina de um Alexandre Frota, por exemplo? Ou a beleza de uma “modelo de Deus”? Ou ainda a vã filosofia de um Supla, considerado um imbecil por dez entre dez na crônica musical? Não há dúvidas: ao idiota, ao mais extremo idiota contido no ser humano, orgulhoso de raciocinar com seu meio milímetro quadrado de cérebro. Repito, meus amigos, só o ser humano se acomete da mais abjeta das qualidades: a idiotice. Manifesta em todos, desde o entregador de pizza até ao intelectual de escola particular, a idiotice, tal como a “Casa dos Artistas”, não é de ninguém, senão do idiota, bípede ou não.

em maio 5, 2006 02:55 PM [alex nathan moreira de jesus]

Caramba, que porrada, hein? Será que o mundo vai precisar de outra guerra, outra revolução pra acordar desta mediocridade?????



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