Bola e Bola Mesmo
04 de abril de 2006
Time bom nem sempre ganha
A propagada crise do futebol carioca que não existe, o banho de bola do São Paulo, o cemitério de jogadores e outras cornetadas.

Tenho falado aqui mais do campeonato paulista do que do carioca. Tem gente por aí achando que sou paulista, ou que, de alguma maneira, virei a casaca. Virei nada. O mundo é que tá globalizado, e como sou torcedor de televisão, vejo mais ou menos de tudo. Até Barcelona e Real Madri vi no sábado. Roberto Carlos pagou mico, Ronaldo, o fenômeno, fez um golaço, e Ronaldinho, embora tenha feito uma boa partida – como de costume, no Barcelona – foi o culpado pelo empate do Real. Quase ninguém notou, mas foi ele quem errou um passe de menos de cinco metros, dando a oportunidade para Júlio Baptista deixar o outro Ronaldo na cara do gol.

Mas falava de campeonatos domésticos. E tenho falado mais do certame paulista porque aqui no Rio tinha muito time pequeno chegando às finais. No futebol, sou contra os pequenos. Ou, por outra, gosto deles no lugar deles. Time pequeno nasceu para ser pequeno para sempre, e o grande, grande. Sempre foi assim e me acostumei com isso. Quem torce por time pequeno o faz por razões diversas – políticas, de bairro, etc – que não o futebol. Porque torcer pelo grande é bem melhor, é ele que ganha os títulos. Quando isso não acontece, é a velha exceção que confirma a regra.

Sempre quando falam do campeonato carioca (carioca, sim) os comentaristas levantam uma crise instalada nos clubes do Rio. Falam de uma maneira a generalizar a coisa. Eu, por exemplo, não vejo crise em Fluminense e Botafogo. Ou, ao menos, não uma coisa tão acentuada como acontece em Flamengo e Vasco. O Botafogo não está em crise – e digo isso não pela óbvia vitória sobre o Madureira no domingo. Está, isso sim, sofrendo um processo de recuperação do clube como um todo, que começou quando ele caiu para a segunda divisão. E, assim, aos poucos, com os pés no chão, vai voltando ao seu lugar de grande clube. O menor entre os grandes, é bom que se diga.

No Fluminense. Aqui nas Laranjeiras não há crise alguma. Se o time não se classificou para as finais das Taças Guanabara e Rio, foi por demérito do clube como um todo, por questões eminentemente de organização e planejamento. O clube simplesmente abarrotou o gramado de jogadores, somados aos que lá se revelam aos montes, mas não conseguiu contratar um treinador capaz de montar uma equipe. O desempenho de Ivo Wortman foi bisonho, ele mostrou que não sabe montar uma equipe. Paulo Campos sabe e estava montando, mas, cria de Luxemburgo, é de baixíssimo nível para trabalhar num clube onde a disciplina sempre foi regra. Não há crise no Fluminense. Há um patrocinador, salários em dias, boa estrutura de base e por aí vai. Já disse e repito que isso não é garantia de conquista de títulos, mas crise, não há.

Na lama mesmo estão Vasco e Flamengo. O primeiro porque não consegue fazer uma equipe razoável desde a que 2000, e precisa com urgência mudar os ares em sua diretoria, se é que vocês me entendem. E o Flamengo, que no passado já era chamado de cemitério de centroavantes, hoje ampliou o negócio e é um sepultador de jogadores das mais diversas posições. Exemplos? Obina era destaque no Vitória da Bahia, e no Fla é odiado pela torcida, por suas atuações pífias e por excesso de peso (de peso...). O zagueiro Fabiano, que havia feito um excelente campeonato brasileiro pelo Atlético Paranaense em 2004, no ano passado foi horrível no Flamengo e agora joga bem no Goiás. André Dias, outro zagueiro odiado pela torcida, se deu bem no mesmo Goiás e hoje é destaque no São Paulo, tido como o clube mais organizado do Brasil. E há outros. Qual a explicação para isso? Não tenho a menor idéia.

O Flamengo, todos sabem, nasceu do Fluminense. Era um clube de remadores até o time campeão do Fluminense se transferir inteirinho para a Gávea e fundar lá, o futebol no Flamengo. Não fosse a era Zico – que coincidiu com o Plano Cruzado – seria hoje um clube secundário. Tanto que, em 100 anos de campeonato carioca, não tirou a supremacia absoluta do clube que lhe deu origem, mesmo tendo vários títulos de expressão nacional e alguns internacionais. Assim também é o Santos. Não fosse a era Pelé, o Santos hoje seria um reles Noroeste, no máximo uma Ponte Preta, um Guarani talvez. Mérito dos clubes, claro, que revelaram esses craques. Mas é por isso que o Santos está sem ser campeão paulista desde 1984. Que coisa, hein?

Citei o Santos para falar do clássico como o São Paulo. Ainda não vi o jogo, mas todo mundo disse que o time do Morumbi deu um banho de bola no alvinegro praiano. Não me admira isso. Primeiro porque o São Paulo, que joga torto, tem muito mais bons jogadores que o Santos. Depois que tem, de longe, o melhor treinador. Muricy Ramalho simplesmente não deixou o Santos jogar, e isso é lindo. E nem vou falar da confusa arbitragem. Vou, sim. Não vi o jogo, repito, mas vi, nas entrevistas, Wanderley Luxemburgo perder a linha e acusar o árbitro da partida (Rodrigo Cintra, o “expulsinho”) de fitá-lo o tempo todo. Que coisa mais sem modos. Uma baixaria só. Também, o que esperar de um sujeito que sonhava trabalhar na Europa, e, ao invés de estudar línguas, optou por colecionar ternos de corte fino?

O chato do futebol – e o legal ao mesmo tempo - é isso. O Santos é ruim de dar dó e deve ser o campeão. O Botafogo, então, nem se fala. Aí depois eu digo que time bom nem sempre ganha, e os caras riem de mim. Paciência...

Até a próxima, que o Botafogo vai ser campeão!!!

em abril 7, 2006 01:26 AM [Cid]

Genial coluna. Aliás, antes do Zico sabe quantos títulos, fora campeonato carioca, o Flamengo tinha? NENHUM, enquanto Botafogo, Flu e Vasco, por exemplo, já haviam ganho a Taça de Prata/Campeonato brasileiro! Abraços e saudações tricolores.



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