Fazendo Historia
19 de abril de 2006
Quando Guns N’Roses e Ramones se encontram
Matéria publicada originalmente na Revista Dynamite, em março de 2003, apontando Backyard Babies e Forgotten Boys como as duas grandes revelações do rock mundial em 2002.

No ano passado toda a crônica especializada, sobretudo da grande mídia, se voltou para as novas bandas que surgiram com um perfil mais voltado para o rock. Entre elas, Hives, Vines, e os já badalados Strokes e White Stripes marcaram presença, com muita justiça, a julgar pelo trabalho de renovação que esses grupos apresentam. Mais uma das coisas mais importantes, e que aconteceu simultaneamente no Brasil e no exterior, passou batido pelo crivo da mídia: o surgimento do Backyard Babies, e, no Brasil, do Forgotten Boys.

As duas bandas representam o que de mais interessante apareceu dentro do rock nos últimos anos, pelo simples fato de investirem num som original, calcado numa inusitada mistura, e da qual muitos duvidam da qualidade do resultado final. Ambas resolveram colocar na mesma panela o hard rock debochado e escrachado de grupos como Guns N’Roses, Mötley Crüe e adjacências, com o punk rock básico dos Ramones. A mistura, para quem conhece bem essas referências comuns, teve a senha dada no primeiro e clássico disco do Guns N’Roses, “Appetite For Desctruction”. A segunda faixa, “It’s So Easy”, composta pelo baixista Duff McKagun, considerado pela crítica e alardeado pela própria banda como o mais “punk” dos cinco integrantes, trazia esse crossover punk/hard rock jamais visto. Isso até que esses dois grupos aparecessem.

O Backyard Babies, embora só tenha aparecido mundialmente em 2001, é um grupo que já batalha há muitos anos, antes de ter assinado um contrato com uma grande gravadora, e ter feito uma turnê mundial que passou até pelo Brasil, justamente em 2002, tocando nos mais diversos buracos pelo país afora. Se na década de 80 grupos como o Smiths se consideravam a salvação da música pop, Dregen, um dos guitarristas, não deixa por menos: “Nós provavelmente somos a última verdadeira banda de rock’n’roll do mundo”, louvando grupos como Sex Pistols, Ramones e Kiss. No terceiro e mais aclamado álbum, “Making Enemies Is Good”, e notória a veia punk, e a pecha do hard rock, onde a pose e o despojamento de salão de cabeleireiros são fatores indispensáveis. A exemplo de seu antecessor, o álbum surgiu como um varão num mercado americano dominado pelo nu-metal e pelas bandas semipunks, abrindo a trincheira para o verdadeiro e simples rock’n’roll. Na Inglaterra, o Backyard se apresentou num minúsculo e portanto lotado terceiro palco no Reading Festival. No ano passado, além da turnê mundial, puderam fazer o show de abertura para o AC/DC na Europa.

Coincidência ou não, todos os integrantes do Forgotten Boys nasceram em torno de 1977, marcado para sempre como o ano da explosão punk. Formado em 1997, o grupo sempre cita como influências bandas proto-punk, mas não consegue esconder o flerte com o rock dos Stones, quando tocam, ao vivo, “Jumpin’ Jack Flash”, e, óbvio, “It’s So Easy”, do Guns. Ativo, já são três os discos lançados pelo grupo, todos independentes e bem sucedidos. No Brasil, claro.

Por quê, então, essas duas bandas, com uma proposta análoga, tão diferente, e, convenhamos, de fácil aceitação por parte do público, não estão estouradas na grande mídia? Por puro preconceito. Tanto o Backyard quanto o Forgotten vêm de países teoricamente inertes em termos de rock, aos olhos da grande mídia. Fala-se em Suécia e vem à tona o frio, a liberdade sexual, os chifres dos ancestrais vickings, o ABBA e o Roxette. Fala-se do Brasil, aparece Pelé, Ronaldo, bossa nova, e, no máximo, Sepultura. Desconhece-se, e isso é uma grande pena, a efervescente cena rock que as duas nações possuem, e que, pelo menos até agora, não conseguiram romper a barreira da mídia, que num mundo globalizado de hoje tem muito a ver com os Estados Unidos, e com a Inglaterra, seu grande espelho cultural.

O que fica é que, se ambas as bandas não conseguem (ainda) o espaço que lhes é devido, é que elas possam ser, pelo menos, a semente para outras que apareçam, cedo ou tarde, e possam romper essa barreira. Afinal, sempre foi assim na história do rock, alguém carrega primeiro as pedras, para que outros trafeguem na estrada pavimentada. Tomara.

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