Bola e Bola Mesmo
18 de abril de 2006
O resultado não merece análise, é o fato consumado; o futebol, sim
Botinadas em Milão, a volta do campeonato brasileiro, jogos bons e ruins, estatísticas e outras falácias.

Acabei e ver um jogão. Milan e Barcelona, semifinal da copa dos campeões da Europa. Não sou muito ligado em futebol internacional, nem especificamente no europeu, mas sabe como é... O mundo anda globalizado, e, como sempre digo, não sou eu que vou ficar de fora. Por coincidência, estava ocupado na parte da manhã (um pedaço da tarde também) e não pude atualizar esta coluna mais cedo, como de hábito. Poderia dizer que esperei pelo clássico do primeiro mundo, mas não foi bem assim.

Disse que tinha visto um jogão e já corrijo. Milan e Barcelona, dito o jogo do ano por toda a crônica esportiva, não foi lá essas coisas, não. Que são dois timaços, com os melhores e mais caros elencos do mundo, isso não se discute. Mas futebol é assim mesmo. Em 90 minutos o melhor vira pior e vice-versa. O Milan, em casa, jogou melhor, ligeiramente melhor. Isso até levar um gol, no início do segundo tempo. Um passe magistral de Ronaldinho deixou Giuly na frente de Dida. O francês soltou a canhota e fez um bonito gol. Dali em diante o Barcelona praticamente colocou o Milan na roda, e este, mesmo com uma enxurrada de alterações – de jogadores e táticas – promovidas pelo técnico, não levou muito perigo ao gol do Barça. Mas cuidado. O Milan é perigoso, experiente e traiçoeiro. Pode muito bem se recuperar na semana que vem, mesmo jogando fora de casa.

Para todos a rodada de estréia do campeonato brasileiro foi um fracasso. Poucos gols, times de expressão sendo derrotados ou, como dizem, vencendo sem convencer. Muitos acham que o campeonato pra valer mesmo só começa depois da Copa do Mundo. Explico. Serão jogadas dez rodadas antes da Copa, pára tudo, e aí, depois do mundial, jogam-se as outras 28. O que os clubes vão fazer nesses 30 dias não se sabe; uns descansam, outros treinam, outros terão férias. Quem se preparar melhor nesse período, sem vender nem comprar nenhum jogador, certamente terá um melhor desempenho de julho em diante. Mas não dá para ignorar esse início, não. São nada menos que 30 pontos, num campeonato suicida em que 20% dos times cairão para a segunda divisão.

Eu não estou nem aí para tal fracasso da primeira rodada. É sabido que o nível técnico do campeonato brasileiro é mesmo fraco, porque os caras bons de bola pra valer estão jogando na Europa, lá onde hoje Barcelona e Milan fizeram um jogo assim, assim. Não vejo jogo de bola com a calculadora na mão; só sei que vitória vale três pontos e quem mais ganha, ganha mais. E que também analisar resultado pouco importa. Ele, o resultado, não merece análise, se impõe por si só. É o fato consumado. Dizem que no futebol o “se” não existe, mas eu discordo. Para mim, ele, o “se” é tudo, porque denota a análise do jogo, não (só) do resultado. Como fulano jogou, o que tal técnico deveria ter feito para reverter um quadro adverso, o porquê e uma certa estratégia ter acarretado num triunfo ou numa derrocada, e assim por diante. Há comentaristas que pensam assim também – Alberto Helena Jr. é um deles, mas a maioria é comentarista de resultado, ou, pior, de tabela de classificação.

Eu, do lado de cá, não sou comentarista, mas comento. Eu não tenho certeza, mas eu acho. Vi dois jogos no final de semana. O São Paulo que joga torto parecia, na maior parte o tempo, um time de obesos. Lento. Lerdo. Sem saco para jogar bola. O Flamengo, ao contrário, determinado a marcar e marcar. Quem sabe, fazer um golzinho e ser feliz. Teve chances – duas, mas um recém chegado jogador de time pequeno não soube chutar e foi sacado no intervalo. O São Paulo teve, apesar da falta de ânimo, mais chances, e mereceu ganhar. Chato é ter que dizer que o dito melhor time do Brasil fez isso às custas de uma falha bisonha de um pseudojogador do adversário, e justamente com um gol de pênalti, marcado, por ironia, por um goleiro. É mesmo um fracasso essa primeira rodada.

Vi também aquele que dizem ter sido o melhor jogo da rodada. Um Atlético (não cabe mais o “paranaense”, por motivos óbvios) esfacelado levando um banho de bola do tricolor - como sabemos, só existe um. No início, houve até um equilíbrio, mas logo o melhor time se impôs, não que ele seja um timaço, mas o time do Atlético é muito fraco. Curiosamente, seus dois melhores jogadores não estiveram o tempo todo em campo: Fabrício só entrou no segundo tempo, e Jeancarlos foi expulso praticamente na metade do jogo. O Fluminense poderia ter goleado, se o time estivesse mais bem entrosado, e teria evitado a pressão no final da partida caso o goleiro presidente não tivesse batido roupa bisonhamente. Mas venceu e fez o gol mais bonito da rodada. Quando Tuta dá um passe de calcanhar, é porque as coisas estão indo bem, não é não?

Vendo as análises dos profissionais de respeito, queimei minha língua. Tinha certeza que ouviria a frase que mais abomino na crônica esportiva. “Se o campeonato terminasse hoje...” e aí os caras apontam, a cada semana, campeões, rebaixados e o escambau. Como disse, se preocupam em resultados e previsões e esquecem do futebol propriamente dito. Quase sempre quebram a cara, mas não se tocam. Neste final de semana, não disseram isso. Melhor assim. Ganha o futebol, ganham eles, ganhamos todos nós.

Até a próxima, que o brasileirão já começou!!!

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